Acenion Machado Rocha e Tereza Machado Soares Rocha (meus pais)

 

    


      
  








Acenion Machado Rocha e Tereza Machado Soares Rocha

(meus pais)

 


Meus pais Acenion e Tereza
 

Acenion Machado Rocha, meu pai nasceu no dia 12 de agosto de 1939, um sábado, provavelmente na fazenda como era costume naquele tempo. Conforme relatos foi na Fazenda na localidade Marques, Coromandel, Minas Gerais. Ele faleceu no dia 8 de Maio de 2020, às 23:30 min, uma sexta-feira, ano em que faria 81 anos. Faleceu em plena pandemia do Coronovirus ou Covid 19 que abalou o mundo e matou muita gente. O mundo praticamente arrasou com essa pandemia. Foi um período muito triste e bem difícil para as pessoas que, além das perdas humanas, trouxe problemas econômicos. 

 Mas meu pai não faleceu vítima do tal Coronovirus. Teve complicações por causa de um câncer no intestino que o obrigou a fazer uma cirurgia de urgência em Patrocínio, Minas Gerais, vindo a óbito por parada cardíaca meia hora depois da cirurgia. Foi sepultado no dia 9 de maio, um sábado no Cemitério Morada da Paz, em Coromandel, Minas Gerais.  Meu pai era filho de Fortunato Machado Rocha Valdomira Barbosa Sucupira, já citados antes em avós. 

 

Meu pai Acenion

 

 Tereza Machado Soares Rocha, esposa de Acenion e minha mãe, nasceu no dia 4 de junho de 1944, um domingo, provavelmente também na fazenda Marques, Coromandel, Minas Gerais.  Nasceu de uma gestação de sete meses. Admira-me ter sobrevivido a um parto na roça, de uma gestação de sete meses. Ela faleceu no dia 26 de agosto de 2017, um sábado, às 6:00 horas da manhã, em sua residência na cidade de Coromandel, e foi sepultada no Cemitério Morada da Paz em Coromandel, Minas gerais. Faleceu depois de ficar mais de 5 meses em coma em razão de um Gliablastoma Multiforme grau 4, um tumor cerebral maligno e agressivo. É o tipo mais comum de tumor cerebral maligno primário em adultos. Embora minha mãe tenha feito cirurgia com ressecção tumoral e depois radioterapia em Barretos, São Paulo, em menos de 4 meses houve recidiva do tumor. Apesar da recidiva, depois da cirurgia, minha mãe sobreviveu ainda um ano e 7 meses. Minha mãe era filha de Aristeu Machado Rocha e Divina Frutuoso Soares, já citados antes em avós.

 

Minha mãe Tereza

 Acenion e Tereza, meus pais, casaram-se no dia 28 de setembro de 1960, na pequena capela do Chapadão do Pau-terra, Coromandel, Minas Gerais. Era dia de festa no lugarejo em louvor a São Miguel Arcanjo e São Sebastião, padroeiros do povoado. Papai tinha 21 anos e mamãe 16 e eram primos em primeiro grau, pois os pais eram irmãos, o vovô Aristeu, pai de mamãe e vovô Fortunato (Natim), pai de papai.

Bem, sobre o casamento de meus pais, minha mãe relatou certa vez, que seu vestido de noiva foi cedido por uma madrinha dela. Aliás, um belíssimo vestido de mangas compridas e gola alta, saia ampla e rodada de filó, e para completar, um véu na cabeça, colar de pérolas, que na verdade era só imitação.


 
   
Casamento de meus pais Acenion e Tereza em 28 de setembro de 2025


Mamãe relatou ainda com ares saudosos que depois do casório vestiu um belíssimo vestido de seda azul royal com estampas em relevo branco.  Era uma seda transparente, então o vestido precisou ser forrado com tafetá da mesma cor o que deixava a saia volumosa. Sabe aqueles vestidos mídi estilo Retrô, vintage ou Pin-Up que nos remete aos anos 50? Então.  O de minha mãe era um desses. A saia volumosa, godê duplo, e o corpo justinho, sem mangas, o decote quadrado e botões até a cintura. E para arrematar, uma faixa larga de mais quase dois metros que ia alargando nas pontas e terminava com um bico Chanfrado. Ou seja, escantilhado, esquinado, em ângulo. Enfim...Esse laço era amarrado na cintura terminando com uma laçada. A cintura, claro, era de pilão, como se dizia. E ainda se usava os tais corpetes para afinar ainda mais. Algum tempo depois mamãe ainda tinha um desses corpetes e fiquei pasma como ela cabia dentro dele. Era uma princesa perfeita. 

 O tecido do vestido foi presente de meu pai, segundo mamãe.  Ele tinha bom gosto, mas com certeza, sua mãe, minha avó Valdomira ajudou ele a comprar e possivelmente foi caríssimo. Mas foi minha mãe mesma quem costurou. Esse vestido me lembro bem dele, pois quando eu era menina mamãe, ainda o possuía. Fez apenas alguns ajustes que condiziam mais com uma mulher casada, como o acréscimo de mangas três quartos. Não sei o que foi feito do vestido. Felizmente restou a faixa como relíquia.

Faixa de mais de 2 metros do vestido que minha mãe Tereza usou depois da cerimônia do casamento em 1960. Foi o que restou.


 Já meu pai, que era um moreno garboso, no dia de seu casamento, vestiu um blazer azul-marinho assim como a gravata e as calças. A camisa provavelmente era branca. De todo esse traje restou apenas o blazer e a gravata. Frisando que a gravata ainda existe porque naquele tempo não    se usava picá-la para arrecadar dinheiro para os recém-casados. Bem, depois do casamento, segundo relatos de minha mãe, meu pai vestiu um terno verde. Esse parece que não resistiu ao tempo.


 

Blazer e gravata que meu pai usou no casamento em 1960

 Apesar do lugarejo do Chapadão do Pau-terra estar em festa em honra ao padroeiro do lugar, houve a festa do casamento e dentre os “comes” não foi servido o tradicional bolo de noiva, mas rocambole recheado de doce de leite. Vale ressaltar que nesse mesmo dia, foram realizados outros casamentos. A irmã de minha mãe, a tia Luzia, casou-se nesse mesmo dia com o tio Jacinto. Também se casou nesse dia o casal Elza e Joaquim Venâncio.  Vale frisar que Elza e Joaquim, anos bem mais tarde, se tornaram padrinhos de meu sobrinho mais velho, o Alécio, filho de minha irmã Suelene. Na verdade, nesses dias festivos era comum realizarem-se muitos casamentos e batizados. Era uma festa anual, e assim, todos queriam aproveitar a data, caso contrário só no ano seguinte. 

 

A esquerda Acenion e Tereza, meus pais e à direita Luzia, irmã minha mãe, que se casou no mesmo dia com Jacinto- 28 de setembro de 1960


A direita minha mãe e sua irmã Luzia a esquerda. Duas belíssimas noivas e princesas. Minha mãe com 16 anos e sua irmã com  17 ou 18 anos.  28 de setembro de 1960


Capelinha do chapadão do Pau-terra onde meus pais Acenion e Tereza se casaram.  a imagem se refere aos dias atuais- modificada inclusive a cor que era azul e branco.

 

 Sobre o casamento de meus pais, relata-se um fato engraçado: quando meu pai estava organizando os preparativos, ele matou um capado (porco gordo) para levar quando se casasse. Provavelmente já estava cuidando do bichinho há meses para   estar no ponto de entrar na faca no mês do casório. Começar a vidinha de casados com manteiga e carne na lata era fundamental. Era responsabilidade de meu pai como provedor da família que ia começar. Tudo ia indo muito bem: o porco morto e cozido já esfriando na lata pertoda fornalha no terreiro. Tudo garantido, não fosse outro porco, agora vivo, escapar do mangueiro e vir justamente para cima da lata cheia de carne que acabou entornando. Enfim...

Outro fato engraçado sobre o casamento de meus pais foi o seguinte:  terminada a festa no Chapadão do Pau- Terra em setembro de 1960, os recém-casados foram enfim para casa começar a vida. Iam morar em um Retiro que pertencia à fazenda do vovô Fortunato (Natim). Era bem perto, separado apenas por um pasto, um brejo margeado de Brasileiras, uma folhagem que só recentemente descobri que se tratava do lírio-do-brejo. Esse brejo ia até um córrego com uma pinguela, por onde transitavam pessoas a pé. Depois da pinguela uma trilha seguia até uma Porteirinha ao lado de um pé de gameleira que ficava do lado esquerdo da casa simples de chão batido. Pouco abaixo da pinguela tinha também um vau para cavaleiros e carros de boi. O vau já ficava no pasto onde tinha vários pés de Macaúba. 

Bem, então lá no Chapadão do Pau-Terra, meu pai arreou os cavalos logo cedinho. Provavelmente mal o sol havia saído já estavam cortando o trecho com a paisagem recém-brotada de setembro. Meu pai provavelmente em sua mula. Mamãe provavelmente no cavalo que ela sempre andava, um cavalo branco de nome “Trinta”. A distância era de uns 10 a 12 km. Passando pela fazenda de um tal Altamiro e pelo Brejo Queimado, onde hoje é a lavoura do Ari Doneda, bem abaixo das represas que existem lá, a distância encurtava um pouco.  Depois da subida de cá do Brejo Queimado, seguindo uma curva e outra da estrada, virava à direita, descia a serra e depois de um cerrado plano estava a bela fazenda do vovô Natim. Ainda chegariam a tempo de preparar o almoço. Na comitiva, veio vovó Valdomira, mãe de meu pai e a Maria do Sr. Quim, que a vovó criava desde pequena, ambas também a cavalo. O vovô Fortunato (Natim), pai de meu pai, viria mais atrás com o carro de boi e as tralhas levadas para a festa. Pois bem, vovó Valdomira, querendo ajudar os pombinhos recém-casados, sugeriu que ficassem para almoço, porém, os recém-casados não quiseram preferindo irem embora começar a nova vida.

 Resultado: minha mãe foi fazer o almoço a primeira vez naquelas panelas de ferro e tudo desandou, porque segundo vovó, era preciso primeiro “queimar ou curar” a panela. Sobre curar a panela de ferro é o seguinte: antes de ser usada pela primeira vez é preciso espalhar gordura ou óleo em sua superfície interna e externa e aquecer na chama do fogão por uns 30 minutos, o que minha mãe não fez, menina ainda não devia saber desses pormenores.  Não sei bem o que houve, mas com certeza o arroz deve ter saído escuro devido a oxidação que as panelas virgens soltam. Enfim...

 

Papai Acenion em sua mula aos 18 anos e não aos 21 quando se casou. Detalhe: a árvore ao fundo era um enorme pé de jenipapo.

Algum tempo bem antes do casamento, mamãe teceu colchas no tear, bordou enxoval. Ainda existem alguns desses panos bordados como, forros para prateleira e tolhas de banho tecidas por ela no tear e com bordados também por ela em pontos de cruz.  Vale frisar que, naquele tempo não existia toalhas dessas felpudas para enxugar depois do banho. 

Toalha de banho tecida no tear manual por minha mãe Tereza e bordada em ponto de cruz nas duas extremidades, sendo uma das extremidades com as iniciais de seu nome

Toalha de banho em algodão fino, bordada por minha mãe Tereza. Uma das extremidades  com as iniciais de seu nome em ponto "atrás" e na outra extremidade em ponto " atrás" e "cheio"

O que restou do jogo de forros de prateleira. Tecido no tear manual por minha mãe Tereza e também bordado por ela em ponto "cruz".

 

Antes do casamento, minha mãe e sua irmã, a tia Luzia, foram mandadas para a cidade para aprender o Corte e Costura, afinal, mulher prendada naquele tempo precisava também saber costurar. Na época elas ficaram no casarão da rua Artur Bernardes, 515, que ainda pertencia ao meu bisavô Antônio Bonifácio, o vovô Tõe, na cidade de Coromandel, Minas Gerais. Pouco tempo depois esse casarão passou a pertencer ao vovô Fortunato (Natim). Então minha mãe e sua irmã se tornaram boas costureiras. Minha mãe, por exemplo, costurava para meu pai, seus seis filhos, sua sogra D. Valdomira e algumas cunhadas, sem contar praticamente toda a vizinhança em um raio de 10 a 12 km, que incluía principalmente toda a localidade de Marques e Muquém. E sem modéstias, mamãe costurava muito bem e era bem perfeccionista. Outro dia uma senhora que morou no Muquém me recordou dos vestidos que mamãe fazia para ela. Segundo ela eram perfeitos. Todas as filhas de minha mãe se tornaram costureiras, mas só uma delas seguiu seriamente essa profissão, minha irmã Suelene, que, vamos combinar, costura maravilhosamente vestidos de festa e até vestidos de noiva.

 

Máquina de costura de minha mãe Tereza. Ainda resiste aos mais de 65 anos.

 

  Ainda sobre meus pais, já foi dito que eles eram primos em primeiro grau. Quando mamãe nasceu, papai estava com 5 anos de idade. Então vovó Valdomira foi visitar a concunhada, a vovó Divina, que havia dado à luz minha mãe. Meu pai estava junto e se encantou com a bebezinha e assim do nada, disse apenas “vou casar com ela”. Os anjos disseram “Amém” e dezesseis anos depois estavam de fato casados. Não sem antes mamãe ter “rodado a sombrinha” para meu pai. Como assim? Bem era costume naquele tempo se a moça rodasse a sombrinha para o moço, estava encorajando-o a cortejá-la. Era, digamos, uma forma discreta de pedir em namoro e a certeza de que o moço não levaria “um fora”. O fato é que um dia estavam indo para uma festa a pé, provavelmente a família de mamãe e a de papai todos juntos.  A festa deveria ser perto nas redondezas. A turma de rapazes passou pela turma de moças. O olhar de papai se cruzou com o de mamãe, que falando sério, era uma bela menina no auge de seus 14 ou 15 anos. Minha mãe percebeu o “olhar 43” de papai. Ressaltando que esse olhar descreve um olhar tímido e discreto, usado para flertar ou expressar sentimentos de forma sutil.  Mamãe mais que depressa rodou sua sombrinha, deixando claro que o sentimento era mútuo. Naquele tempo as mulheres andavam com sombrinhas para se protegerem do sol. Era aquela fila de mulheres com sombrinhas coloridas pelas trilhas. Bem, o fato é que naquele momento, o “olhar 43” e sombrinha rodando era a formalização do namoro e selava o destino escrito há algum tempo atrás entre meu pai e minha mãe. Na festa meu pai e minha mãe dançaram e nada mais os separou,   senão a morte. E mesmo assim, quero acreditar que ainda estão juntos no céu, não como casados, mas quem sabe como anjos se assim Deus tenha permitido.

Não demorou meus pais estavam casados em 1960 e um ano depois, em 1961, batizando a primeira filha, a Célia Maria. Se não me engano foi no Chapadão do Pau-terra. Os outros filhos não sei, mas sei que alguns foram batizados lá. Eu, conforme batistério fui batizada na cidade de Coromandel.

 O Chapadão do Pau-terra, de alguma forma sempre esteve ligado à vida de meus pais. Meu pai, por exemplo, amava aquele lugar e já foi festeiro da festa de setembro, algumas vezes. Vale ressaltar a festa, se não me engano, 1969 ou 1970, quando fomos de carro de bois e ficamos arranchados no povoado por 10 dias. Por esse tempo eu tinha apenas 6 anos de idade, ia completar 7 em novembro; minha irmã Célia Maria já tinha completado 9 anos, minha irmã Suelene ia completar 5 anos em dezembro; meu irmão Adilsom, tinha completado 3 anos no dia 8 de setembro e minha irmã Nária, tinha completado 1 ano em agosto; meu irmão Afrânio ainda não tinha nascido. 

Meus pais Acenion e Tereza ainda novos.

 

 Bem, nessa festa e 1970, papai e mamãe iam a cavalo e levavam o Adilsom e a Nária Regina, os filhos menores na cabeça do arreio. As três filhas mais velhas, eu, Célia Maria e Suelene íamos sentadas na beirada do carro de boi balançando os pezinhos. Às vezes esse trio descia e brincava pelos campos que margeavam a estrada, colhendo florzinhas. Eu, particularmente, tinha essa mania e tenho até hoje. Eram uns 10 km de viagem.  Saíamos cedo. No alto da serra papai soltava um foguete, os tais foguetes de rabo, que riscavam o céu e depois explodiam. Segundo papai, escutava até no Muquém e Trombetas do outro lado do rio Paranaíba. Com isso avisava os vizinhos que já estávamos de partida para a festa que durava 10 dias. O foguete era também um convite informal para a festa, além dos convites formais escritos que meus pais enviavam a todos os vizinhos. Não podia esquecer nenhum. Era desfeita. No convite formal, escolhiam os novenários de cada dia e pediam as prendas. Os novenários precisavam marcar presença, porque se não fossem, era também considerado desfeita. Ressaltando que “desfeita” era tipo fazer pouco caso ou falta de educação. 

 Bem, ainda sobre a festa de 1970 no Chapadão do Pau-Terra, depois que atravessávamos o Brejo Queimado e o cocão do carro gemia na subida de lá, já estava praticamente chegando no arraial e então meu pai soltava outro foguete de rabo que cortava o céu. Era o aviso de que os festeiros estavam chegando no arraial e isso significava o que? Que mais tarde todos do pequeno arraial iam nos visitar pouco a pouco. Não visitar os festeiros em dias de festa, era também uma desfeita. Por isso mamãe, logo que a gente chegava, ia preparando pães de queijo para assar no forno de cupim que ficava na horta da casa de uma tal Nega do Juca, onde a gente ficava hospedado.

Sobre esse forno de cupim da \nega do Juca, ao que tudo indica, o foi feito já aproveitando algum cupinzeiro na horta, pois era bem lá em meio aos pés de laranja e algodão. No mais é bem simples, basta furar o dito cujus de modo a caber o tabuleiro, fazia brasa e quando esquentava, varria tudo e colocava o tabuleiro de biscoitos para assar.

Na verdade, mamãe só deixava os pães de queijo para fazer no Chapadão, pois se fizesse antes ficariam velhos. Mas bolos, bolachas, roscas, brevidades, biscoitos de goma e chimanguinho, ela fazia bem antes. E os doces também. Era preciso fazer tudo isso, para café da manhã, merenda e “agrado” para as visitas.

Enquanto minha mãe assava pães de queijo, papai tratava de cortar folhas secas de bananeiras para acender a fogueira de uns três metros à noite na hora da novena.  Esse fato gerou algo, digamos, trágico, pois alguns mandarovás, perdendo seu habitat que era as tais folhas, puseram-se a andar a esmo pelo terreiro, pela casa, e até pelos colchões. 

Só para se ter uma ideia de como era o forno de cupim da Nega do Juca no Chapadão do Pau-terra



Imagem satélite do arraial do Chapadão do Pau-Terra- junho de 2025




Procisão da festa do Chapadão do Pau-Terra- ano de 2018. Detalhe: meu pai levando a cruz. 


Sobre meu pai Acenion, vale ressaltar que sua marca registrada eram os bigodes espessos que lhe davam um ar severo, mas charmoso. O bigode de meu pai impunha respeito e tinha uma fama danada. Na verdade, meu pai sempre foi um senhor muito respeitado e admirado por todos. 
 
   Vale frisar que “Acenion” é um nome bem original e de difícil pronúncia. Meu pai já foi chamado, por exemplo, de Sineão, Simeão, Alcenion, Arsenion e até Arsênio. O fato é que o nome de meu pai era escrito e pronunciado de forma errada. Tanto que quando casou a primeira filha, a Suelene, deu um problemão danado na arrumação dos papeis para o casamento civil, já que no registro de nascimento dela o nome do pai estava grafado errado. Aliás na certidão de nascimento de cada filho, o nome estava grafado de um jeito. Resultado: foi preciso contratar advogado para consertar o nome de meu pai no registro de nascimento de todos os filhos, senão poderia dar problemas futuramente. 
 
Meu pai Acenion em 3 fases: 15 anos, por volta de 30 anos e quase com 80 anos

 

Ainda sobre o nome de meu pai, conta-se que quando sua mãe Valdomira estava grávida dele, passou pela fazenda um caixeiro viajante, daqueles que vendem enxoval e outras bugigangas. Isso era comum em tempos passados. Bem, o viajante que passou na fazenda se chamava Acenion, razão pelo qual, minha avó, deu o mesmo nome ao filho quando nasceu.

E falando no nome de meu pai grafado errado, o sobrenome também às vezes trocavam o Rocha por Barbosa como aconteceu em seu diploma da quarta-série e no certificado de primeira comunhão. Aliás esses dois eventos aconteceram em 1954. Em junho desse ano, meu pai já, com quase 15 anos que completaria em agosto, fez a primeira comunhão, e em novembro de 1954, concluiu a quarta série já com 15 anos.

Certificado da Primeira Eucarístia de meu pai  em 10 de junho de 1951.


 

Certificado de conclusão do 4º ano escolar em 20 de novembro de 1954, com 15 anos.

 Meu pai era muito sistemático. Lembrando que, uma pessoa sistemática é alguém que segue à risca as regras que lhe são impostas e as que ela mesma cria.  São pessoas organizadas, cuidadosas e rigorosas.  Na verdade, ao contrário do que muitas pessoas possam pensar, essas características são vistas como pontos positivos. Então meu pai gostava de tudo certinho com seus negócios, na relação com as pessoas, com a família... Vale frisar bem:  jamais gostava de atrasos. Estava sempre adiantado. Tinha uma pontualidade britânica por assim dizer. Por exemplo, quando era dia de festa, seja na Vereda, no Chapadão do Pau- terra, logo que amanhecia, ele já ia avisando a família para abreviar. “Abrevia moçada”, dizia ele, e ia para o curral ordenhar as vacas. Entre uma ordenha e outra, ia tomar um cafezinho e enrolar um pito de palha, e claro, verificar se a família estava mesmo se “adomando” na linguagem dele, que significava arrumando. Resultado:  minha mãe Teresa apressava em enrolar os cabelos das filhas mulheres em duas camadas nas pontas, o que resultava em cachos que mais pareciam coroas na cabeça. Além disso, ordenava às filhas que catassem sabugo de milho no chiqueiro para fazer brasa para o ferro de passar roupa. Imagine passar todos aqueles babados dos vestidos. Era algo que demandava muita brasa de sabugo e vapor. 

 

E falando em ferro de passar roupas, imagem do nosso antigo ferro a brasa
 
 Ao mesmo tempo, minha mãe preparava a prenda do leilão, que geralmente era frango assado recheado com seus próprios miúdos, enriquecidos com batata inglesa cozida, pimenta do reino e cebola. Ajeitado o frango no centro de um prato de papel, mamãe rodeava o danadinho cheiroso com pão de queijo. Depois cobria com papel celofane, puxava as pontas para cima e amarrava deixando as pontas. Às vezes a prenda era pernil assado de porco ou de linguiça frita de porco, que ela enrolava no centro do prato de papel e colocava pães de queijo em volta. Podia também ser um lombo de porco. Papai olhava e aprovava. Aliás não tinha como não aprovar as coisas que mamãe fazia.

Por esse tempo a gente já tinha carro. O primeiro foi um Jeep azul com capota. Vale frisar que a criação do Jeep tinha mais objetivo militar no início, para servir nas guerras, sobretudo na Segunda Guerra Mundial. Razão da sua, digamos polivalência, ou seja, desempenhava várias funções.  Bem, no Brasil, o Jeep foi lançado em 1952, nacionalizado em 1954 e foi produzido até o início dos anos 1980. E na minha família o Jeep chegou nos anos 70, talvez em 1971 ou 1972. Ele ficou com a gente um bom tempo, pois eu já era mocinha e meu pai ainda o tinha. Quando meu pai o comprou ainda não sabia dirigir e era seu irmão José Machado, chamado de Zezé ou Zé do Natim, que o ensinava. Ainda recordo a labuta de meu pai para subir com o Jeep na encosta da chegada à fazenda. Ele deixava sempre o Jeep voltar de ré. Não sabia fazer o tal controle que hoje chamamos de controle sem freio.

Quando meu pai comprou nosso Jeep, eu devia ter, talvez uns 8 ou 9 anos e a estreia foi na festa de Capela da localidade de Veredas, Muquém. Desse dia recordo muito bem. Meu pai já estava dirigindo, mas por via das dúvidas, o tio Zezé foi junto. Eram 14 km de estrada para dirigir à noite. Uma coisa eu falo, o tal Jeep era potente mesmo, principalmente se ligasse as trações das rodas. Pois na travessia do vau do ribeirão da Capetinga, que não tinha ponte na época, quem disse que o Jeep com os pneus molhados subia uma encosta do outro lado? Nem saia do lugar, só patinava. Então tio Zezé disse para meu pai ligar a tal tração das rodas e, assim feito, o bichinho rasgou água e cascalho subida acima, respingando água em nossas roupas de festa. Confesso que eu menina bem pequena tinha uma fé danada nessa tal tração. Eu confiava no Jeep por causa dela.

Sobre nossa ida na Capela de Veredas de Jeep, lembro bem os olhares furtivos para nosso lado. Afinal ter carro era sinal de posses. Tenho minhas dúvidas, até porque, apesar de termos um carro, eu e minhas irmãs fomos de chinelo havaiana. Não tínhamos sapato. Fomos de chinelo e meia, porque essa festa era em junho e fazia um frio de lascar. Esse fato foi motivo de riso de uns meninos. Mas não importei porque eu estava de chinelo e meia, mas tinha um carro.  Mas o que me importava nem era o fato de ter um carro, mas sim o fato de não ter que ir a cavalo nessas festas longes, pois eu tinha o problema de assar o traseiro,  já que sempre ia na garupa do cavalo, que no caso era a mula que papai ainda tinha. A garupa era o traseiro do cavalo que era forrado primeiro com um bacheiro, um pano de saco que protegia o lombo do animal e em cima ia o cochonilho, uma peça tecida no tear que era bem fofo, mas não impedia que eu sofresse o incomodo da assadura. Certa vez caí da garupa da mula em que meu pai andava. Cai e fui rolando cascalho abaixo. Não teve nada sério senão alguns escalavros no joelho.

Bem, desse dia de festa na Vereda, ainda me lembro que eu e minha irmã Suelene estávamos com vestidinhos iguaizinhos, um tubinho xadrez de verde e branco e enfeitado de ponto russo que descia do ombro e terminava em dois bolsos na barra. A gente se vestia sempre igual, o que gerava dúvidas nas pessoas se éramos gêmeas ou não.

Ainda uma história interessante do Jeep foi quando fomos a uma festa na casa de uma vizinha, a D. Alexandrina, no mesmo lugar onde viveram os pais de mamãe. Durante o dia foi um tal de mutirão não lembro para que, se capinar lavoura ou fiar algodão. À noite, como pagamento do serviço, D. Alexandrina promoveu uma festinha regada a arroz-doce e dança. Tais festinhas eram chamadas de pagode. Ressaltando que nos pagodes de tempos atrás rolava música sertaneja e não samba como nos dias atuais.

Por esse tempo eu devia ter uns 13 anos. Para ir a tal festa tinha que atravessar o córrego. Até aí tudo bem, até porque antes da travessia tinha uma descida. O problema é que, do lado de lá tinha grama e logo depois uma pequena encosta que deu trabalho para o Jeep. Saindo do vau, o Jeep já saiu patinando na grama molhada e na subida da encosta o bicho pegou para valer. Meu pai pelejou e nada fazia o Jeep subir a pequena encosta. Ele dava ré, lascava a marcha forte e arrancava. O Jeep só patinava e ainda acabou por destruir algumas moitas de assa-peixe nas rés.  Foi então que meu pai se lembrou da tal tração das rodas. Ligou e pronto, o Jeep subiu bonitinho, só parando lá em cima. A família que tinha descido todos lá embaixo para facilitar, subiu a encosta a pé, entrou no Jeep e foram para a festa.  O Jeep de meu pai, apesar da potência da tração, era bem lerdo. Quando íamos à cidade gastava de 4 a 5 horas no percurso de 54 km. Enfim...

 

Só para ter uma ideia de como era o Jeep de meu pai, seu primeiro carro


Bem, depois do Jeep meu pai comprou um fusca vermelho. Por esse tempo, as duas filhas mais velhas (a Célia Maria e eu) já éramos mocinhas e até hoje jamais entendi como cabíamos todos dentro dele, afinal éramos oito pessoas. Para quem conhece um fusca, ele é bem pequeno.  Então o fusca vermelho também teve história. Ele era como coração de mãe, cabia todo mundo, sem contar que quando chegava nas festas causava zum zum. Mal apontava já diziam, lá vem o Acenion com as filhas. Isso alguém me contou certa vez.

Depois do fusca vermelho, meu pai comprou um fusca azul diamante, outro bege zerinho. Foi nesse bege que ele tirou sua carteira de habilitação em Patos de Minas, Minas Gerais, na quarta tentativa ou quinta. Segundo meu tio Bertim, irmão de meu pai, foi na quinta. Numa dessas tentativas, bateu em um poste ao fazer a baliza. Mas nada muito sério.  Na verdade, meu pai tinha um problema de tremer o pé que atrapalhava sempre na hora “H”. Ele dizia que era o pé que fora picado por uma jararacuçu há muito tempo. Mas na verdade era tensão, pois eu também quando estava tentando minha habilitação tremia o pé. 

Bem, no dia em que finalmente tirou a carteira, para ficar mais calmo bebeu duas doses de uísque e foi tiro e queda, carteira na mão. Não sei como os examinadores não notaram. Mas se notaram fizeram vista grossa.

Bem, depois do fusquinha bege, meu pai teve também uma Brasília, um Gol daqueles quadrados antigos, um Chevette verde, depois mais alguns Gols, acho que dois. O último ficou com meu irmão Adilsom depois que papai faleceu.

Sobre meu pai nunca atrasar, vale ressaltar um dia, bem depois que mamãe já tinha falecido, os filhos foram todos para a roça em agosto, por ocasião do aniversário dele e dia dos pais. Se não me engano foi em 2018.  A noite a gente ia rezar o terço com os vizinhos na capelinha do Cruzeirinho da Serra. Era costume do lugar. Há muito tempo atrás, rezavam o terço nas tardes de domingo. Mas as pessoas começaram a pensar mais nas coisas materiais, tipo, tirar leite das vacas também na parte da tarde. Não bastava apenas na parte da manhã. Com isso não dava para todas as pessoas irem ao terço nas tardes de domingo e então começaram a rezar aos sábados à noite. Uma pena, pois já não tinha como ter as partidas de futebol com times das redondezas. Meu pai sempre era o árbitro dessas partidas e já passou grandes apertos com a torcida querendo pegá-lo para bater. Árbitro de futebol sempre tem má fama, principalmente pelo lado dos que estão perdendo. Mas meu pai era um bom árbitro. Saudades daquelas tardes de domingo, o sol descambando no horizonte depois do terço e das partidas de futebol.

Bem naquele dia de agosto em 2018 lá na roça, papai começou cedo “abrevia moçada”, “vamos adomando”. E todos, para não o contrariar, abreviaram mesmo. Abreviaram tanto, que bem antes das 19 horas, estávamos todos lá na capela do Cruzeirinho da Serra. Só que ela ainda estava fechada, pois o terço era rezado às 20 horas. O Coordenador da capela que era meu tio Zezé, irmão de meu pai, nem tinha chegado e fomos obrigados a esperar por quase uma hora do lado de fora. Ou seja, meu pai jamais perdia a hora. Preferia chegar bem antes.

Vale frisar que depois da pandemia do Covid-19 não houve mais terço nessa capela. Depois disso, meu pai faleceu em 2020, outro vizinho que amava aquela Capela _ o Jaci _ faleceu logo depois. Enfim, são transformações que a gente não consegue entender.


Capela do Cruzeirinho da Serra, onde se rezava os terços mensais



Meu pai, no centro. À esquerda, o tio Dário irmão do pai de meu pai, o Fortunato(Natinho). À direita o Jaci, o vizinho e amigo do peito de meu pai. Costumo pensar que esse trio eram Os três mosqueteiros. Amigos de prosa, um golinho de cachaça e jogo de truco


Meu pai, de fato era um homem, incrível. Costumo pensar que ele nos educou apenas com suas atitudes e com seu olhar. Nunca castigou fisicamente um filho. Naquele tempo era comum filhos levarem surras dos pais.  A educação para muitos pais era na base de varadas e terríveis chicotes. Mas papai jamais fez isso, mesmo quando fizemos grandes travessuras.

Recordo-me quando um dia fomos nadar no córrego cheio por causa das chuvas. Contrariando ordens para não entrar em poço fundo, acabamos entrando e minha irmã Célia quase se afogou. Tivemos sorte, pois meu pai estava batendo pasto perto do rio Paranaíba e foi em casa não sei por qual motivo, talvez para merendar. Foi quando ouviu nossos gritos no córrego e foi correndo verificar o que estava acontecendo. Do alto do barranco já pulou no poço de botina, roupa e tudo. Não fosse isso minha irmã teria morrido. Depois disso traumatizei com essa coisa de nadar. Acho que nem sei mais como se faz isso.

Então um olhar de meu pai para nós tinha o efeito de uma surra. A gente chegava a se encolher de medo. Tínhamos um grande respeito por ele e obediência. Por exemplo, quando eu tinha, talvez uns 13 ou 14 anos, mamãe fez uma calça comprida para mim. Era de uma gabardine em um tom azul claro que combinei com uma blusa de alças azul-marinho. Estava feliz, me sentindo, digamos, bem moderninha. Eu gostava de ser moderna. Gostava. E até já inventei de falar gírias. A gente ia de Jeep em uma festinha na casa da vizinha D. Alexandrina. Lembro-me bem que eu estava encostada na porteirinha do pátio esperando por meus pais que estavam fechando a casa. O mesmo pátio cheio de flores, margaridas secas, perpétuas, onze-horas, manacás, rosas... Quando meu pai saiu e me olhou de cima a baixo falou: “vai tirar essa roupa agora”. E eu? Não me restou outra alternativa senão trocar o lindo conjunto de calça por um vestido.

Acho que eu e meus irmãos herdamos do papai essa mania de querer fazer tudo certinho.  Ficamos contrariados quando algo não dá certo. Papai, no entanto, soube lidar bem com isso. Essa coisa de fazer tudo certo. Era assim que tinha que ser. E talvez, por ser assim, que tenha conseguido criar seus seis filhos com dignidade e nunca nos deixar faltar nada. Para isso trabalhava de sol a sol, ou melhor da madrugada ao entardecer, pois levantava muito cedo para ordenhar as vacas e depois ainda ir para as lavouras, onde trabalhava debaixo do sol o dia todo plantando, milho, arroz e feijão, mandioca, cana...  O almoço e merenda a gente levava para ele.  Lembro-me de ele chegar de tarde, abrindo o portãozinho que ficava entre a casa e a casinha de queijo. Tinha uma moita de lírios de cada lado do portãozinho. Meu pai chegava cansado e ia tomar banho naqueles chuveiros de balde. Mamãe esquentava a água em uma panela grande no fogão de lenhas. Depois a gente jantava, geralmente carne de porco de lata, aquelas com osso, pois os lombos recheados geralmente eram para as visitas ou domingos.  Mas também tinha torresmo, queijo ou ovo frito, banana frita, farofa de ovo, sopa de ovo...  Frango também era só aos domingos ou para visitas. Mas mamãe também plantava hortaliças. Geralmente alfaces, tomates, couves... E papai plantava quiabo, jiló e abóboras no roçado.

 

O antigo chuveiro de balde da roça de meus pais. Ainda existe, embora não seja mais usado

 

Falando em abóboras, houve um ano que a colheita dessas danadinhas foi muito grande. Papai plantou abóboras de todos os tipos em um roçado perto do córrego: por exemplo, a abóbora de pescoço que também chamamos de abóbora-menina. Essas a gente as cozinhava ainda verdes, tipo batidinhas e de rodelinhas, aproveitando até a casca.   Mas as cozinhávamos maduras também, apesar de que as fibras eram bem linhosas. Quando maduras, geralmente tira-se a casca e as sementes.

Meu pai plantou também as tais abóbora-moranga, que outro dia descobri se chamarem abóbora Musquee de Provence em francês, pois é uma variedade francesa. Achei super chique, porque, vamos combinar, uma moranga, é linda com aqueles gomos verdes e depois ocres quando madura, além de ser deliciosa e com sabor adocicado. Ainda sobre morangas, meu pai plantou ainda outra espécie com os gomos menos acentuados e que descobri outro dia se chamar halloween, por ser usada para fazer esculturas de bruxas e fantasmas nas festas de halloween.  Meu pai plantou ainda outra espécie de abóbora que parecia com moranga, contudo ia afinando para as pontas, e ao invés de gomos, era enrugado. A gente chamava de melão, mas o nome certo era mogango. Era uma delícia, principalmente quando cozida ainda verde e com pedaços quadradinhos e grandes.

 Meu pai plantou ainda várias outras qualidades de abóboras que nem me lembro. Foi um tempo de fartura até porque as abóboras maduras podiam ser guardadas por muito tempo que não apodreciam. Meu pai enchia uma varanda com elas ao lado do paiol. Na hora do almoço ou jantar era só escolher e geralmente era papai quem fazia isso.

Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que essa fase “aboboreira” foi importante no meu crescimento e de meus irmãos e no ganho de massa muscular, pois vivíamos magros de caminhar longas distâncias a pé para irmos à escola. Eu mesma tinha os cotovelos e joelhos salientes e bem pouca carne. A abóbora foi uma “sustança” importante naquele verão. Apesar de todas as propriedades positivas e nutritivas da abóbora como por exemplo, prevenção de diversas doenças como osteoporose, problemas cardíacos, cálculos renais, depressão, ansiedade, ela ainda sofre preconceitos. Enfim...

Abóboras da roça de meu pai Acenion, só que essas são de um tempo mais recente

 

Bem, mesmo cansado da lida do dia, papai ainda encontrava forças para nos contar histórias de onças e assombrações ou ler livros.  Lembro-me dos livros “Éramos seis”, “Meu pé de laranja lima”, “A ilha perdida” e histórias da Bíblia como José do Egito e o Filho Pródigo. Essas duas histórias da Bíblia foram as que mais me marcaram justamente por ter sido papai quem leu para nós. Eu e meus irmãos ficávamos todos sentados aos pés dele.  Meu pai sabia contar histórias e ler como ninguém de um jeito que prendia a atenção da gente. Foi meu pai que aguçou minha imaginação porque era impossível não imaginar as cenas quando ele lia. Além disso, meu pai ainda inventava jogos de carta, o tal “jogo do burro” e outras brincadeiras como aquela   em que se escolhia um tema e uma letra do alfabeto e a gente tinha que escrever palavras relacionadas a esse tema e ia contando os pontos. Por exemplo, cidades que começassem com a letra C. Com isso meu pai nos ajudava em nosso raciocínio e também a escrever. Tudo isso a gente fazia à luz de lamparinas a querosene. Ajeitar as lamparinas era por conta de minha mãe, mal o sol ia entrando pelos lados do Rio Paranaíba.  Algum tempo depois quando eu já era mocinha, meu pai instalou três lâmpadas a gás na casa. Quando a energia elétrica chegou eu já não vivia mais lá.
 
Lamparina antiga da roça de meus pais. Ainda existe, embora não seja mais usada

 

E tinha mais: aos sábados, meu pai ligava o rádio no programa “Linha sertaneja classe A”, cujo apresentador se chamava José Russo. Era um programa que começava um pouco tarde para nossos horários costumeiros de dormir, pois a gente dormia cedo para levantar cedo. Em dias frios, por exemplo a gente deitava cedo, pois para driblar a geada daquele tempo só mesmo debaixo de cobertas. Muitas vezes as galinhas ainda estavam começando a empoleirar no pé de amoras, outras mais retardatárias ainda ciscavam no terreiro. Bem, se não me engano o tal programa “Linha sertaneja classe A” era às 20 horas. Mas meu pai fazia com que todos fossem se deitar e a gente ouvia o programa deitados em nossas camas. Dormíamos ouvindo rádio.  Nos outros dias da semana, bem cedinho papai ligava o rádio no programa do Zé Betio e dizia: “apruma moçada”.  E a gente “aprumava”, as filhas mais velhas para fazer café que se revezavam por semana. Os filhos mais novos iam para o curral passar bezerro para meu pai. Ou seja, eles que controlavam a saída do bezerro da vaca que ia ser ordenhada. A vaca só permitia ser ordenhada com o bezerro perto dela. Geralmente era a mana Suelene, o Adilsom, a Nária Regina que se revezavam nesse trabalho. Eu e Célia Maria fazíamos o café.  Só recordando que o café de Célia Maria, a quem a gente chamava de Celinha, era melado puro.

 Histórias não faltam em se tratando de meu pai. Histórias incríveis do cotidiano, que hoje percebo, significam muito. Por exemplo, na lavoura perto do rio Paranaíba, um dia na hora do almoço enquanto almoçavam no ranchinho a marmita de meu irmão mais novo caiu no chão e para ele não ficar sem comida meu pai dividiu a marmita com ele e assim ninguém ficou sem comer. Logo viria a merenda.

Outras histórias de meu pai falam de sua lida com o carro de boi, seja buscando lenha no cerrado ou a colheita do ano na roça perto do rio Paranaíba. Lembro-me quando ele trazia o carro cheio de milho e descarregava perto do paiol e nós os filhos é que ajeitávamos tudo lá dentro. E também enquanto papai almoçava eu e meus irmãos alimentávamos os bois com espigas de milho. Os nomes dos bois era Negrinho, Baetão, Navio e pinheiro. Pelo menos é desses que me lembro.

Quando era colheita de arroz, antes de colocar o cereal na tulha, papai primeiro o colocava em cima de uma lona dentro do curral para secar um pouco. Quando era feijão papai colocava também em cima de uma lona dentro do curral para secar e depois ser peneirado e guardado em sacas. Quem peneirava o arroz e feijão era mamãe e as filhas mais velhas, no caso eu e minha irmã Célia Maria, a Celinha.

 Muitas vezes fui a candeeira nessas viagens de carro de boi. Eu tinha uns 8 anos. Era assim que chamavam aquele que ia na frente dos bois mostrando o caminho por onde passar. Quase sempre que meu pai apontava lá na curva da estrada com o carro de boi carregado, a gente ia se encontrar com ele correndo para subirmos no carro. Minha irmã Célia Maria saía correndo também com minha irmã mais nova, a Nária Regina, enganchada na cintura. Meu pai parava o carro e colocava os filhos lá dentro e depois seguia em frente. Isso era o máximo para nós, poder andar de carro um pouquinho que fosse. Mamãe ficava da janela olhando. A colheita sempre era boa. Mas geralmente era só para nosso sustento. Poucas vezes meu pai plantou para vender. Me lembro de uma ou duas vezes quando havia surgido as tais colheitadeiras e meu pai resolveu arriscar um pouquinho na lavoura de arroz, mais por causa dessa facilidade. Quando era só para subsistência ele colhia o arroz no cutelo, uma espécie de foicinha com cabo de madeira.

 

Só para se ter uma ideia de como é um cutelo de colher arroz


Uma coisa interessante que me lembro era que papai sempre fazia fogueiras no dia de São João. E quando ela crepitava papai jogava grãos de milho, arroz e feijão no fogo. Ele dizia que era bom para a colheita do ano seguinte ser produtiva. E de fato era, pois jamais nos faltou alimento. A produção dava para o ano todo e às vezes até sobrava.

Ainda sobre as histórias de meu pai tem aquelas de quando ele levantava de madrugada, para moer cana- de -açúcar no velho engenho para fazer rapadura. Eu e meus irmãos, levantávamos com ele para puxar o cavalo. Eram madrugadas frias de junho.  Um frio de lascar. O vento batia no rosto da gente que chegava a doer.  E ainda tinha a geada branca cobrindo a grama... Meu pai moía a cana antes de ir tirar o leite das vacas, colocava a garapa em um tacho de cobre enorme, debaixo de um pé de caju que ficava entre o abacateiro e o pé de amoras. Enquanto minha mãe ia apurando o caldo da cana, meu pai terminava de tirar o leite. Depois era papai quem batia o melado até dar o ponto e colocava o melado nas formas de madeira. Antes disso, mamãe tirava um pouco de melado para a gente comer com queijo. Eu gostava de melado com o queijo ralado por cima. Meu pai fazia rapaduras para o ano todo e para conservar, as embrulhava em embira de bananeira e até palha seca de milho. Eram rapaduras comuns, com leite, com mamão ralado Rapadura com queijo era nosso lanche praticamente o ano todo.


O que restou do engenho de meu pai Acenion

👉Vídeo de como é a moagem de cana à tração animal

 

Meu pai plantava também mandiocas no quintal e em um roçado perto do córrego. Geralmente em junho, ele colhia as mandiocas para fazer polvilho ou farinha. Esse era um processo que envolvia toda a família. Meu pai era quem arrancava as mandiocas geralmente à tarde depois da lida e amontoava debaixo do pé de laranja-celeste. Todos levantavam no outro dia de madrugada, meus pais e os filhos para cascar e lavar as mandiocas. Às vezes a lua ainda estava alta no céu. Meu pai precisava moer as mandiocas e colocá-las na prensa antes de ir tirar o leite das vacas. Depois de ordenhar as vacas, meu pai tirava a massa de mandioca da prensa e espalhava em cima de um jirau enorme no terreiro. A massa era peneirada geralmente por mim, pois a torração era por conta de mamãe e minha irmã Célia. No caso do polvilho, o processo era o mesmo até a moagem da mandioca. Depois era preciso lavar essa massa em panos para sair apenas o amido da mandioca que assentava no fundo de um grande tacho de cobre. No outro dia, tirava-se a água e ao amido em grandes blocos era levado para secar ao sol sobre panos. Depois era esfarinhado, peneirado, transformado em polvilho e mais uma vez era secado para só então ser embalado em sacas brancas.  Durante esse período em que se fazia farinha e polvilho, o que a gente mais comia era mandioca: leite com mandioca cozida, mandioca cozida e frita, molho de mandioca com açafrão que a gente chamava de “quibebe”, broas de massa de mandioca. E a gente jamais enjoava. A mandioca na verdade nos traz muitos benefícios, entre eles, fortalece o sistema imunológico, e melhora a saúde do coração, dá energia e disposição.

 Ainda sobre meu pai, tem as histórias de quando ia campear o gado em uma restinga longe, cheias de morros e vales. Nessa restinga ficavam as vacas que não tinham bezerros ainda, ou que os tinham desmamado. Pois bem, depois de ordenhar as vacas, papai arreava o cavalo para ir campear o gado na restinga, ver se estava tudo tranquilo por lá e levar sal, pois as vacas precisavam desse agradinho para suprir deficiências nutricionais que não são encontradas em pastagens, como sódio, cálcio e fósforo. Era fundamental para produção de leite, para a fertilidade...

Bem, minha mãe esquentava torresmo com farinha e às vezes ovo frito com farinha para desjejum de meu pai, pois geralmente ele demorava por lá nas quebradas da restinga e tinha que estar com o estomago bem forrado. Então mamãe arrumava também no embornal uma “matulinha”, pois ele voltaria bem tarde e, talvez ficasse com fome.

Outra história sobre meu pai diz respeito à nossa educação escolar. Quando resolvemos vir todos para a cidade estudar, além do que a gente já tinha estudado na roça, ou seja, o primário, meu pai não se opôs, mesmo contrariado. Por esse tempo papai já não era tão rigoroso em seus princípios e aceitava bem as decisões dos filhos.  Não intrometia mais no modo das filhas se vestirem. Não se intrometeu quando o filho caçula quis ir atrás de seus sonhos como radialista. Não se intrometia nas escolhas dos maridos das filhas, ainda que às vezes ficasse contrariado. Enfim... Mas eu sempre entendi que não foi fácil para papai nos manter aqui na cidade, mas nunca nos deixou faltar nada.  Assim que pude arrumei um trabalho e comecei a ajudar em casa. Também minha irmã Célia Maria que era professora na zona rural. 

Meu pai era um pai exemplar e um esposo exemplar.  Não foi fácil para ele quando mamãe adoeceu. Mas se manteve firme em meio aos trancos e barrancos. Ficou firme ao lado de mamãe em Barretos, São Paulo, quando ela fez uma cirurgia para retirada do tumor no cérebro.

Ao final de um mês ele estava tão magro que suas calças caiam. Era como se fosse um pássaro preso em uma gaiola. Justo ele que amava a roça e suas lidas. Mas ficou firme com mamãe enquanto pode. Quando voltaram para Coromandel, ele já se sentiu mais livre e ia para a fazenda e ficava uma semana com meu irmão Adilson enquanto os outros filhos cuidavam da mamãe, até que o tal tumor de mamãe teve uma recidiva e não teve jeito, mamãe ficou em coma 5 meses, depois partiu. Papai, homem determinado e forte, não se abateu. Pelo menos aparentemente, porque seu íntimo só ele sabia. Ele sabia que precisava seguir em frente e assim o fez por nós seus filhos como nos disse certo dia.

Em agosto de 2019, menos de um ano antes de papai partir, eu estava na roça. Eu ia lá de fusquinha 3 ou 4 vezes ao ano. Então meu pai me chamou na varanda da cozinha e me mostrou no mato que margeia o córrego nos fundos da casa, um pé de ipê amarelo. Agosto é tempo da florada do ipê Amarelo.  Então meu pai me pediu que fosse lá fotografar aquele pé de ipê porque ele queria que colocasse como fundo de uma foto sua na lápide quando partisse.  Fiquei chocada e falei: pai aquele pé de ipê não está muito bonito. Ano que vem quem sabe a gente encontra um mais bonito. Eu não queria contrariá-lo, mas também não queria pensar em sua partida. Mas papai me disse: “eu quero que tire o retrato daquele. Ano que vem não vai dar tempo”. Então reunindo toda a coragem, me arrastei até lá onde estava o pé de ipê e o fotografei. Apesar de poucas flores as fotos ficaram muito bonitas e meu pai ficou feliz. Como lutar contra o desejo de um pai? Menos de um ano depois ele partiu. Em maio de 2020. Não esperou a nova florada dos ipês. Ainda bem que eu fiz sua vontade ao fotografar aquelas flores que enfeitariam o fundo de sua foto na lápide.

Quando papai faleceu, foi algo que a gente não esperava, pois foi muito rápido, ao contrário de mamãe que a gente sabia que a qualquer hora ela partiria, o médico tinha explicado tudo para nós como seria, que ela ia se apagando como uma vela. E de fato foi assim. Com meu pai, como falei, foi muito rápido. De repente ele não estava bem, de repente estava no pronto-socorro, de repente estava em Patrocínio, de repente estava em uma sala de cirurgia e não resistiu. Faleceu meia hora depois da cirurgia. Mas eu tive a intuição porque enquanto fiquei com ele no Pronto-socorro, percebi que seu coração já estava fraquejando. Às vezes as batidas caiam para 16 por minuto, eu me levantava da cadeira e corria para perto de papai e tocava ele, ele abria os olhos e me dizia que estava tudo bem, mas eu sabia que não estava. No entanto, ele estava tão sereno, uma serenidade que até me perturbava. Não era como se ele estivesse entregando os pontos, mas esperando a hora que completaria sua missão. Eu sei que ele sabia que estava chegando a hora.

Já em Patrocínio, meu irmão Afrânio ficou com meu pai no quarto. Com muito custo os enfermeiros deixaram eu e minhas irmãs Nária Regina e Suelene, entrarmos no quarto para vê-lo, uma de cada vez, pois era tudo restrito em razão da pandemia do Covid-19. Quando chegou minha vez, meu pai apertou minha mão e mesmo não querendo aceitar, no fundo eu sabia que meu pai estava se despedindo. E quando ele fez a cirurgia de emergência e o médico disse que precisou retirar todo o intestino grosso de meu pai, eu tive a certeza de que meu pai não ia sobreviver. A última vez que o vi, foi passando na maca depois da cirurgia e sendo levado para a UTI.  Meia hora depois faleceu.

Por aqui ficou a tristeza e um vazio enorme que nós, seus filhos ainda tentamos superar. A referência, a proteção, o porto seguro, já não existe mais. Resta-nos seus ensinamentos, as lembranças e a saudade. Inclusive quando fez 80 anos, 1 ano antes de partir, nos fez algumas recomendações. Partiu depois de ter cumprido a missão com toda a sua força, garra e honestidade. E é isso que resume tudo que meu pai foi. Se relembrei a história da partida de meu pai, não foi com intenção sentimentalista, mas porque a história de alguém tem começo, meio e fim... Isso é inevitável. Ainda que fique a dor e a saudade. 

 

Meu pai Acenion comemorando 80 anos em agosto de 2019

Festa de 80 anos de meu pai Acenion em 2019. Minha mãe já tinha partido há 2 anos em 2017 e meu pai partiria menos de um ano depois em 2020.


 

 
 
Chapéu de lebre de meu pai. Guardado no lugar de sempre: na parede da casa da roça, lugar onde viveu mais de 50 anos .
 
 
E para eternizar essa relíquia de meu pai Acenion, fiz o poema abaixo em outubro de 2023.

 

Chapéu de lebre

 

A saudade? Um chapéu, marrom... De lebre.

A presença, por certo, numa ausência...

Quando tudo parte, menos a essência,

e meu poema, intáctil, a celebre.

 

Lembrança, eu digo: és tú uma febre.

Delira pelos cantos e carências,

paredes brancas... Pelas evidências...

E não há, decerto nada, não há, que a quebre.

 

Exceto a aba macia pela testa

de alguém especial, meu velho pai,

seja indo pra cidade, alguma festa...

 

A cortina do tempo? Quase um ai.

Ah! Rimas soluçadas que me empresta!...

Resiste o chapéu... Lembrança vem. Vai.

 
 

 Ensaio com meu pai, alguns momentos de sua vida

  

Vídeos

 

 

 


 


 

 Fotos

  

 


 


 

 



Uma imagem marcante de meu pai Acenion e que representa tudo que ele foi: simples, honesto, trabalhador... 


Sobre minha mãe Tereza Machado Soares Rocha, vale frisar, que seu nome tem um significado profundo e amplamente utilizado em várias culturas ao redor do mundo. Sua origem remonta ao grego "Therizo", que significa "colher" ou "ceifar", e também tem conexões com o termo latino "Teresius", que significa "habitante de Thera" (uma ilha grega). Ele é frequentemente associado a qualidades como força, coragem e determinação. As mulheres chamadas Teresa - com variações como Tereza ou Thérèse, geralmente são conhecidas por sua personalidade forte e comprometimento com seus objetivos. Elas são determinadas e confiantes em suas habilidades. O nome também pode evocar características como liderança, resiliência e tenacidade.”  Falar de minha mãe, então, é falar de tudo isso. Eu mesma não encontraria tantas palavras para dizer. 

 Sobre as histórias de minha mãe, ela nos relatou algumas e uma delas foi que bem antes do seu casamento, ela e sua irmã Luzia inventaram de ir à cidade para fazer permanente nos cabelos. Os cabelos de minha mãe eram compridos e castanhos claros e os de minha tia beiravam o loiro. Então mamãe e tia Luzia cortaram os cabelos acima do queixo para fazer o tal permanente. Mas o que é o tal permanente nos cabelos? Explico: a tal Permanente Capilar é, claro, um procedimento químico que altera o comportamento dos fios formando cachos ou ondulados. Apesar do nome “permanente”, não é algo definitivo, mas temporário, podendo durar entre três e seis meses. Esse arranjo nos cabelos era moda naquele tempo para não dizer febre. Cabelos curtos, cachos e ondulados, portanto, era um padrão, digamos, quase ditatorial, entre as mulheres. Uma influência das atrizes famosas daquele tempo como Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor. Tempo de libertação, sensualidade, feminilidade. Portanto nada de cabelo certinho e alinhado. E foi assim que mamãe e tia Luzia ganharam aquele jeito de atriz de cinema. Aliás, elas se casaram no mesmo dia, 29 de setembro de 1960.

Sobre mamãe ter feito a tal “permanente” nos cabelos, ela conta uma história interessante: os cabelos dela antes eram compridos e sedosos e ela sempre amarrava em rabo de cavalo bem no alto.  Estilo “copiado invejosamente” por uma garota das redondezas, que, segundo mamãe, tinha uma “quedinha” por meu pai. Então ela copiava os estilos de mamãe, na esperança, talvez de que meu pai trocasse mamãe por ela, o que graças a Deus jamais aconteceu. Sobre essa história, mamãe contava que a tal mocinha “invejosa”, amarrava os cabelos igual a ela por pura inveja, embora não ficasse tão belos porque eram ressecados nas pontas. Enfim... Um belo dia, em uma festa, mamãe apareceu com os cabelos curtos e onduladíssimos.  Diga-se de passagem, uma verdadeira Marilyn Monroe saída das telas de cinema de Hollywood. A única diferença era a cor dos cabelos, pois os de mamãe eram castanhos claros e os de Marilyn eram mega louros. Aquilo foi demais para a tal mocinha invejosa que, sentindo-se rebaixada, não pensou duas vezes e atirou uma bola de barro em mamãe. Assim do nada, por pura inveja mesmo.


Repostando essa foto de mamãe Tereza à esquerda e sua irmã Luzia no dia do casamento- só para mostrar como ficaram seus cabelos com o tal “permanente”


Nem precisa dizer que mamãe foi uma esposa e mãe exemplar. Silenciosa e serena fazia tudo no tempo certo. Sem correrias. Por exemplo, o almoço jamais passava das 10 horas, mesmo sendo ela quem fizesse os queijos e também lavasse roupas no córrego tudo antes desse horário. O jantar também não passava das 17 horas. Nunca deixou faltar também a merenda para levarmos para a escola, ainda que fosse leite com farinha de mandioca ou queijo ralado com açúcar ou melado de cana. Em casa, pontualmente às 15 horas, mamãe nos servia cada dia uma coisa diferente: mingau de fubá, de araruta, arroz doce, canjica, tapioca. Só frisando que a tapioca daquele tempo não é dessas que parecem polvilho e que a gente coloca na frigideira e depois coloca algum recheio. Era um mingau feito com leite e farinha de mandioca.

Então mamãe espalhava os pratos brancos e esmaltados na mesa para esfriar o mingau, um para cada filho. Depois cada um pegava seu prato e sentava em um banco comprido que ficava entre a porta da cozinha e despensa e saboreava raspando tudo. Isso sem contar o dia que tinha bolo frito de polvilho, de sal ou de doce. Os de sal ficavam branquinhos e tinham a mania de estourar na panela quando estavam sendo fritos, os de doce ganhavam uma cor rosada. Tinha também os fritos de fubá, cuja massa era parecida com massa de broa. A gente chamava esses de bosta de cavalo só por causa do formato. Tudo acompanhado com chá de poejo ou erva-cidreira ou leite adoçado.  Às vezes tinha também bolo de fubá assado na chapa dentro de uma caçarola de ferro.  Biscoitos, tipo, pão-de-queijo, broa, biscoito de goma, bolachas era geralmente em finais de semana.

Aliás, tudo que mamãe fazia para a gente comer era delicioso. O frango caipira era demais. E o queijinho fresco frito? Até hoje nunca consegui fazer como ela. O dela ficava douradinho e não derretia de jeito nenhum. Sua comida tinha fama na família e redondezas.

Vale ressaltar que de manhã não tinha essas guloseimas, era apenas leite com café. De manhã cedinho mamãe distribuía café em nossos copos e nos mandava para o curral. Papai pegava copo por copo, levava na teta da vaca e enchia. Era nosso café da manhã que nos sustentava até a hora do almoço.

Mamãe também nunca deixou faltar a roupinha nova para os filhos irem nos terços e festas. Para as meninas, vestidos cheios de babados, tiras bordadas, ponto russo, poás, de florzinhas; o casaco e pijama de flanela xadrez para os dias frios e iguais para todos. Papai trazia da cidade quase um fardo inteiro dessas flanelas chamadas de cachás.

Era também mamãe quem cortava os cabelos dos filhos. Os cabelos das meninas eram todos de corte reto na altura do queixo e de franjas retíssimas acima das sobrancelhas. Às vezes ela mudava o nosso visual e fazia o corte arredondado. Exceto o de minha irmã Nária Regina que era mega ondulado. Aliás esse cabelo preto e ondulado ganhou tanta fama que foi parar em Brasília a notícia levada por meu avô Aristeu. Ele não se cansava de contar sobre a netinha de cabelos cacheados.  Sobre as franjas, gostaria de frisar que apenas eu continuo com elas, mesmo já tendo alcançado os sessenta anos. Por mais que eu tenha tentado evita-las, elas não me largam de jeito nenhum.

Bem, nos dias de sábado, mamãe hidratava os cabelos de todos com manteiga de lata, aquele óleo que ficava bem em cima da manteiga talhada.  E em época de piolhos, passava Neocid em nossas cabeças, o que quase nos deixava doidos, pois os danadinhos na ânsia da morte, viravam a zanzar pela cabeça e a gente não podia coçar de jeito nenhum por causa do produto que era perigoso. E os ovinhos que ficavam, mamãe tirava um por um. Nos deitava no colo e ia tirando. Era impossível não pegar esses danadinhos dos colegas na escola. 

Minha mãe Teresa em três fases: com 14 anos, quando ainda amarrava o cabelo em rabo de cavalo, por volta dos 30 anos de idade e  com quase 70


No tempo em que eu e meus irmãos éramos ainda crianças, mamãe sempre se preocupava que nada nos acontecesse de ruim. Por exemplo, ela acreditava em certos mitos, tipo leite com manga faz mal; frango com leite ou pão de queijo quente com laranja. Isso porque segundo ela, o Durval, da D. Alexandrina, um vizinho nosso daquele tempo, fez a tal “misturada” e acabou sofrendo epilepsia que ficou para “costume”. Eu mesma presenciei crises desse moço na sala de casa na roça. Ele ia muito lá em casa conversar com papai. Quando ele melhorava ficava meio esquisito e ia entrando casa adentro. Não sabia direito onde estava. Eu e meus irmãos ficávamos com medo e esfarelávamos pela horta até papai nos chamar e dizer que ele tinha voltado ao normal. Aliás ele morreu porque um dia foi pescar, sofreu a tal epilepsia, caiu no rio e afogou-se. 

 Sendo assim, quando tinha manga a gente não podia tomar leite, fosse de manhã ou no lanche da tarde. Se tivesse laranja, era só laranja. Se tivesse banana, era só banana. No caso da banana com queijo podia.  Quando era cana -de- açúcar era só cana- de- açúcar. E também não tinha aquela coisa de se embrenhar pelo quintal e comer laranja ou manga a qualquer hora não, mesmo que elas estivessem lá “dando sopa”. Tudo tinha hora certa e dependia do contexto como já falei: de se tinha comido carne fresca de porco, frango ou pão de queijo, o certo era passar bem longe das laranjeiras, goiabeiras, mangueiras... Até a hora da bala tinha, pois segundo mamãe, balas fazia dar cáries nos dentes. O fato é que, com bala ou sem bala, naquele tempo a gente sofria de dor de dente para caramba. O rosto inchava. Mamãe fazia às vezes de dentista e colocava um remedinho chamado Anestesiol na cárie e a dor passava. O remédio parece que anestesiava, ainda que por pouco tempo. Esse remédio não podia faltar lá na roça de jeito nenhum. Era nossa “salva guarda”. Sobre dentes, me lembro que quando estávamos trocando nossos dentes de leite (nossos primeiros dentes são chamados de dentes de leite), mamãe amarrava uma linha no dente que já estava mole e puxava.

Sobre as tais balas, mamãe as guardava quando meu pai trazia da cidade. O queijeiro Sr. Lázaro Ferreira também levava quando ia buscar queijo, geralmente uma vez por mês. Era daquelas balas Chita. Então mamãe as escondia e quando a gente estava brincando na horta, ela aparecia levando uma para cada filho. Aquela era uma surpresa das melhores. E interessante é que a gente não pedia mais de jeito nenhum. Contentávamos com apenas uma balinha. Simplesmente aguardávamos o dia que mamãe trouxesse mais. E assim acontecia até as balas acabarem.

 

Antigas balas de meu tempo de criança

 Outra história sobre mamãe, era quando ela comprava tecidos para roupas de cama: seja lençóis de cretone, colchas de chitão para cobrir a cama durante o dia ou fazer fronhas. Naquele tempo mamãe usava cobrir as camas de dia com colchas de chitão super coloridas, flores enormes. Eu adorava quando ela fazia essas compras porque isso significava que eu ia costurar, pois ela permitia que eu embainhasse todas as peças. Ela cortava e eu ia embainhando. Eu fazia direitinho os acabamentos. Com isso já fui praticando na costura sob a supervisão de mamãe.

 

Só para se ter uma ideia de como é o tecido de chitão que minha mãe Tereza comprava para fazer colchas para as camas

Mamãe também ensinou as filhas a tricotarem os pontos básicos de tricô. Só que naquele tempo a gente não tinha agulhas próprias e nem lãs. Então a gente fazia agulhas de bambu mesmo e as linhas que a gente usava eram aquelas de lã tecidas nas rodas de fiar. Na verdade, era mesmo só para aprender. Algum tempo depois já moças, que compramos agulhas e lãs e pudemos fazer blusas de tricô.

Mamãe também nos ensinou a fazer crochê. O básico. Depois do básico em tricô e crochê, cada filha foi evoluindo por conta própria até fazerem centros de mesa, trilhos, capas de filtro e até colchas para o enxoval. Minha irmã Célia Maria fez uma belíssima colcha vermelha de casal que tinha até uns detalhes em ponto pipoca. Um charme. Eu fiz uma com quadros coloridos. Eu a tenho até hoje.

Mamãe sempre foi nosso porto tranquilo, onde a gente sempre ancorava durante tempestades ou bonanças. E sobre isso lembro um fato ligado às minhas claustrofobias. Para quem não sabe, é um transtorno de ansiedade que se caracteriza pelo medo irracional de estar em espaços fechados, apertados ou com pouca circulação de ar e também escuros. Naquele tempo de criança, na roça, em dias de lua nova, o quarto de dormir ficava no breu total e isso me deixava quase doida. Eu ficava deitada, os olhos arregalados olhando aquela escuridão tentando encontrar um ponto de luz e não dormia de jeito nenhum. Dava até agonia e então eu chamava a mamãe. Então ela perguntava: “o que foi Sônia”. E eu respondia simplesmente: “nada não mãe”. É que bastava ouvir sua voz e eu ficava tranquila e dormia. A escuridão já não me metia medo depois de ouvir a voz de mamãe.

 Quando mamãe ficou grávida de minha irmã mais velha, a Célia Maria, ela tinha dezessete anos. Quando estava no sétimo mês, teve um problema de apendicite que é a inflamação do apêndice, uma pequena extensão do intestino grosso que serve como um depósito para bactérias, cuja função é auxiliar na digestão dos alimentos. Então minha mãe precisou ser operada. Agora imagine a situação: operar de apendicite com sete meses de gravidez em um tempo em que não existia nada muito evoluído com relação a medicina. Isso foi em 1961.  Mas o Dr. Sebastião Machado fez a cirurgia de minha mãe e deu tudo certo e sem afetar o bebê. Aliás, Dr. Sebastião foi um médico exemplar em Coromandel, Minas Gerais.

Minha mãe, tinha tudo cronometrado e nada passava da hora. Tudo era como um ritual, desde fazer o café da tarde pontualmente às 15 horas; varrer os terreiros religiosamente todo dia, pois o pau d’óleo não dava sossego, sobretudo no outono e inverno; preparar o porco seguindo um ritual, primeiros pernis, depois lombos e por aí vai. Sobre arrumar porco, papai era apressado e queria arrumar tudo logo, mas mamãe não deixava, tudo tinha o tempo certinho, cozinhar primeiro o toucinho, depois as carnes de lombo, depois as carnes de osso, os torresmos, depois encher as linguiças, geralmente por último. Nada de pular etapas e no fim do dia tudo tinha dado certo a tempo e hora.

Quando meus pais foram festeiros da festa de Santos Reis em 1979, mamãe trabalhou bastante, a começar pelas roupas da família. Os vestidos das quatro filhas deram trabalho, pois eram metros e metros de babados, rendas, fitas e entremeios, moda da época. Minha mãe fez também a capa dos Reis Magos e as coroas com brocados dourados. Felizmente eu e minha irmã Célia tínhamos uma noção pequena de pintura e pintamos toalhas para foliões, toalhas para altar.  Quinze dias antes, os vizinhos e parentes, foram ajudar a fazer doces e preparar carnes de vaca e de porco.

No quintal tinha fornalha para todo lado. Umas cozinhando almondegas, outras doces de mamão, de limão, de laranja. O doce de leite, esse ninguém punha a mão, mamãe fazia ela mesma. No aperto de tempo e pouca gente para fazer tudo, sobrou para mim, com 14 anos arrumar um porco sozinha. Mamãe fiscalizava tudo para lá e para cá.  Um vacilo de minha mãe e uma vizinha colocou água nas almondegas para cozinhar, o que era inconcebível segundo mamãe, pois elas ficariam duras. Tinha que ser só banha de porco mesmo. Tudo tinha que dar certo e deu tudo certo. Ao papai cabia arrumar as lenhas, fazer as fornalhas, matar porcos e vacas e junto com os vizinhos fazer as barracas onde seria servida a comida, preparar a barraca da apresentação da Folia de Reis e de dança, os arcos de bambu para a chegada da Folia de Reis. Sobre esses arcos, aconteceu um fato interessante: mamãe deixou por um tempinho os afazeres e chegou na porta da sala para ver como andava o trabalho dos homens com os tais arcos de bambu e logo percebeu que a posição não estava bem organizada. O fato foi que os homens tiveram que arrancar tudo e fazer como mamãe determinou.

Festa de Santos Reis de 1979. Detalhe: arcos por onde passava a Folia de Reis

Festa de Santos Reis de meus pais em 1979. Minha mãe sorridente com apenas 35 anos, meu pai com 40 anos e ainda fumava pito de palha. No centro o moço que trabalhava com a gente a quem a gente chamava de Zé Tapera.

Sobre mamãe tem alguns momentos interessantes entre nós duas. Desde pequena eu gostava de ler e escrever, porém, as coisas que eu queria escrever, os desenhos que eu queria fazer, não tinha como, já que os cadernos da escola, não podia nem pensar em arrancar folhas. Então quando papai ia à cidade e levava pão para a gente, ela me dava o papel que os embrulhava. Eu pedia e ela me dava para eu escrever minhas coisas. Em um desses papeis escrevi meu primeiro poema aos 12 ou 13 anos. E também tinha o jornal que ia embrulhando coisas que ela me dava também para eu vasculhar, pois não tinha livros como hoje. De tanto vasculhar esses jornais aprendi a ler como que por um milagre. Aliás, meu primeiro poema foi inspirado em um poema desses jornais. Sobre mim e mamãe, às vezes do nada eu sentava no colo dela e beijava seu rosto, ela não dizia nada, ficava só rindo. Quando eu e meus irmãos fazíamos nossos passeios domingueiros pelo campo acompanhados de nosso cachorro preto e peludo, o Bob, eu colhia margarida e levava para mamãe. Geralmente era em setembro que a gente gostava de fazer esses passeios, o tempo de margaridas amarelas. Eu ficava encantada porque naquele tempo, falando sério, os campos ficavam amarelos de tanta margarida que tinha. Então eu queria colher tudo para levar para mamãe.

Houve um tempo em que eu tinha 15 anos e decorei 100 músicas, dessas MPB que estavam no auge das paradas de sucesso. Eu cantava todo dia lavando roupas ou as vasilhas do almoço. Demorava horas e horas trabalhando e cantando. Mamãe não se opunha. Exceto quando eu cantava uma música interpretada por Nalva Aguiar “Tá de mal comigo”. Então eu ia esfregando a roupa e cantando e repetindo

 

“Tá zangado, tá

Tá zangado, viu

Tá zangado, é

Tá zangado, sim...

Até que mamãe não aguentou, chegou na porta da cozinha e falou “ah não, para”.  Nunca esqueço disso. De fato, era para deixar qualquer um doido minhas cantarolices.  Imagine de Fernando Mendes passar para Wanderley Cardoso, Vanusa, Demetrius, Nalva Aguiar... Mas o Djalma, que morava lá em casa para ajudar o papai, gostava. Ele gostava de bater pasto ouvindo minhas canções e falou que quando fui embora para a cidade sentiu falta de meus shows. Quando fui para a cidade, minha voz se calou e nunca mais cantei.

Ainda sobre mim e mamãe, um dia quando ela já estava doente e já nem falava mais, porém ainda andava com dificuldade, foi comigo até à porta ao me despedir. Do nada ela me deu um beijo no rosto, um beijo que parecia um toque de seda e que jamais irei esquecer.

Ainda sobre mamãe, em dias de São João, ela nos acordava antes do sol sair para buscar água do córrego para molhar todas as plantas da horta. Tinha que ser água corrente e antes de nascer o sol. Era aquele frio de lascar e a turminha, cada um com um balde ia buscar a água.

Um dia, eu e meus irmãos convocamos uma reunião que aconteceu debaixo de um imenso pé de eucalipto depois do curral. Sentados na grama em círculo decidimos por unanimidade irmos para a cidade cuidar de nosso futuro. A gente imaginava um futuro mais promissor do que aquele que nos esperava ali na roça. Era o que mamãe esperava para nós também. O papai não muito. Preferia que as filhas se casassem com moços da região e os filhos com moças dali mesmo.  Talvez tivesse sido melhor. Não sei. Mas o fato é que a gente queria algo mais. E para não criar atritos entre meus pais resolvemos nós mesmos decidir. Papai aceitou nossa decisão e assim buscamos outros rumos na cidade, exceto minha irmã Suelene que já estava de casamento marcado para abril de 1984. 

 Fomos para a cidade em 1984. Era o que mamãe queria para nós, mas um dia confessou que sentia muitas saudades dos filhos e às vezes chorava sozinha. Em silêncio foi se acostumando com nossa ausência. Naquele tempo não era como hoje. Não tinha telefone, celular, carros para ir e vir.  Ficávamos até meses sem ir na roça. O lateiro que passava lá para pegar o leite para os Laticínios na cidade é que levava nossas cartas, ou trazia as de mamãe e também trazia todos os dias um galãozinho de leite para nós. lembro-me que a espera do galãozinho de leite era muito ansiosa, porque junto poderia ter uma cartinha de mamãe. Era sempre ela que escrevia. Papai não era dado a essas coisas. Vez ou outra papai e mamãe vinham à cidade. Quanto a nós, íamos mais nas férias de julho e dezembro. Em algum feriado a gente ia de madrugada com o lateiro e na carroceria. O vento gelado batendo no rosto.

Estranho e até doloroso falar sobre isso, mas foi quando mamãe  ficou doente com o tumor no cérebro, o tal Glioblastoma Multiforme, que passamos mais tempo com ela. Foram quase dois anos, cuidando dela. Primeiro em Barretos, São Paulo, depois da cirurgia e a radioterapia. Depois na cidade de Coromandel quando voltou de Barretos. Minha irmã Suelene vinha de Uberlândia e ficava 10 ou 15 dias. Minha irmã Célia Maria vinha de Araguari também e ficava outros 15 dias. Eu e minha irmã Nária Regina revezávamos para dormir com ela todos os dias e cuidar nos finais de semana. Tinha uma senhora que nos ajudava (Dos Reis), principalmente depois que mamãe começou a ter dificuldades de andar e também depois que entrou em coma por quase seis meses. Meu irmão Afrânio cuidava de tudo que era mais burocrático, desde comprar remédios, organizar papeis, levar mamãe em Barretos... Ele resolvia tudo. Meu irmão Adilson cuidava da roça praticamente sozinho porque papai ficava também muito tempo junto com mamãe aqui na cidade. Mas às vezes ficava uma semana na roça com ele. E assim todos se uniam em torno de mamãe procurando dar a ela o melhor que a gente pudesse. A gente sabia que ela não ia durar muito, pois os médicos nos haviam alertado. Mesmo assim tentamos de tudo para salvá-la. Até um médico que fazia experiências com um remédio para tumores de cérebro, a gente pagou avião para ele vir do Rio de Janeiro ver minha mãe em Uberlândia. A experiência não deu certo, pois o tumor estava muito avançado. Até que mamãe partiu no dia 26 de agosto de 2017 às 6 horas da manhã. Partiu com todos nós ali de seu lado. Havíamos dormido todos perto dela.

Último aniversário de mamãe Tereza antes de ficar em coma por quase seis meses- 2016 quando completou 72 anos. Ela usava o chapéu de crochê porque a radioterapia custou-lhe os cabelos.

 

Mamãe era muito vaidosa e adorava comprar roupas, especialmente blusas, sem contar as que ela fazia. Os conjuntos de saia e blazer, os casacos, vestidos... Ela tinha muito bom gosto. Interessante é que ela, já idosa não tinha um fio de cabelo branco sequer, enquanto todas as suas filhas já labutavam para escondê-los.

Por todas essas histórias que citei, e não falei tudo, minha mãe foi uma mãe e esposa exemplar. Sempre cuidou dos filhos e também de papai. Não saiu do seu lado quando ele teve câncer de garganta e tiveram que ficar mais de um mês em Uberlândia na casa de minha irmã Suelene. Desse câncer meu pai e curou, mas outro o levou alguns anos depois. Enfim...

Minha mãe Teresa, era uma mulher silenciosa e de muita postura em qualquer circunstância da vida. Falar dela é falar de silêncio, de flor, de suavidade, de brisa. Porque ela era assim, mesmo quando ficava nervosa. Quando ela partiu colocamos de fundo com sua foto, na lapide, a imagem de um pé de ipê rosa clicado por meu irmão Afrânio no pasto da fazenda às margens do rio Paranaíba. A foto foi clicada em julho de 2017 e desde então a gente sempre fala que esse ipê é de mamãe. Porque ela era uma flor. Uma flor que enfeitou nossas vidas e, cujo perfume ameniza nossa saudade.

 

 Ensaio com minha mãe, alguns momentos de sua vida

  

Vídeos

 

PS.: Para assistir os vídeos coloque em modo tela cheia 

 




Fotos

 

 













 

 

Como já foi dito antes, meus pais se casaram muito novos. Papai tinha 21 anos e minha mãe 16 anos. Dois jovens com uma responsabilidade de trazer ao mundo 6 filhos e criá-los e criou muito bem, embora eu seja suspeita para dizer isso. Mas tenho orgulhos dos ensinamentos que tive e que tento seguir. Eu e meus irmãos. 

Já ia esquecendo de contar que depois de morarem por uns seis anos no Retiro da fazenda do vovô Fortunato (Natim), meus pais compraram suas próprias terras: a fazenda que nomeou como Fazenda da Croa. Isso foi por volta de 1969, pois, se não me engano eu tinha quase ou 6 anos de idade. Vale ressaltar que Croa significa ilha ou banco de areia que fica acima do nível da água do rio ou do mar. No trecho do rio Paranaíba que corta a fazenda tem uma belíssima ilha, aliás duas ilhas, uma maior que em tempos mais remotos, um tal de Laerte plantava milho e arroz, e uma ilha menor que é mais um banco de areia e onde eu e meus irmãos gostávamos de zanzar, assim como as vacas de meu pai. E só para finalizar, naqueles tempos era Bob, nosso cachorro peludo quem ia buscar as vacas por lá na ilha da Croa. Bastava papai jogar um graveto naquela direção que Bob partia correndo. Não demorava ele aparecia trazendo as vacas. Aliás Bob era incrível. Quando papai ia na cidade de Jeep, ia chegando à tardinha Bob ia lá para o fundo do quintal e ficava olhando a serra onde o Jeep iria passar.

Na verdade, as histórias de meus pais se não resumem nessas páginas e nem poderia. Eu só descrevi aquelas que minha memória permitiu. Cada filho tem suas memórias com relação a eles. Essas foram as minhas. Pelo menos um pouco delas que deixo registrada para a posteridade. 

 

Lembrança das Bodas de Ouro de meus pais- setembro de 2010

 

 

Bodas de Ouro de meus pais em 2010- foto em frente ao mesmo altar onde se casaram em 1960 na capela do Chapadão do Pau-Terra, Coromandel, Minas Gerais

 

Bodas de Ouro- fotos com os filhos- 2010   



Alguns vídeos de família
 




 

 

 

Quando meu pai tinha 33 ou 34 anos e minha mãe 28 ou 29 já tinham todos os seus 6 filhos.  São eles:

1.    1.  Célia Maria Machado Soares;

2.    2.  Sônia de Fátima Machado Silva;

3.     3. Suelene Machado Rocha;

4.    4.  Adilsom Machado Rocha;

5.    5.  Nária Regina Machado Borges;

6.    6.  Afrânio Machado Soares.

  


Filhos de Acenion e Tereza- Ano de 1969 ou 1970. Da esquerda para a direita: Suelene, Sônia de Fátima, Célia Maria, Adilson, Nária Regina, Afrânio. Detalhe: o Afrânio na foto foi uma montagem, pois ele nasceria apenas em 1972.


Filhos de Acenion e Tereza- Ano Novo de 2021 ou 2022- Mais informais. Da esquerda para a  direita Nária Regina, Sônia de Fátima, Suelene, Célia Maria, Adilson e Afrânio


Filhos de Acenion e Tereza- 2021. Mais formais. Da esquerda para a direita Afrânio, Nária Regina, Célia Maria, Adilson, Suelene e Sônia de Fátima


Algumas fotos da Fazenda da Croa, onde viveu Acenion e Tereza 


Como era a casa da Fazenda de meus pais Acenion e Tereza


Casa da fazenda de meus pais Acenion e Tereza alguns anos depois


Vista geral da Fazenda de meus pais Acenion e Tereza


Algumas relíquias de meu tempo de infância na roça e que ainda resistem ao tempo
 
 
Tacho de fazer doce ou cozinhar carnes - jacá 

Foice de bater pastos e pá

serrote, peneira e chuveiro de balde

ruínas do Engenho de moer canas, carrinho de ferro ou de mão

Máquina de moer carne, ferro a brasa para passar roupas

Ralo de ralar queijo e milho, frigideira de ferro

Roda de fiar lã e algodão, máquina de costura. Relíquias de minha mãe


Arreio de montaria e carroça puxada a cavalo

Caldeirão esmaltado, onde minha mãe colocava doce de leite em pasta - galão de alumínio que meu pai enviava com leite para nós na cidade, todos os dias através do lateiro que buscava leite nas fazendas

pote de louça onde minha mãe geralmente guardava coalhada - pote de barro onde minha mãe ia guardando as cartinhas e bilhetes dos filhos



Trio de panelas de ferro de minha mãe. A maior era usada para esquentar água para o banho, ficava sempre em cima do fogão a lenha. As outras para cozinhar legumes








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ÍNDICE E APRESENTAÇÃO

8º avós ou octavós pelo lado de meus avós Fortunato Machado Rocha ( Natim), avô paterno e Aristeu Machado Rocha, avô materno, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) e Lídia Fernandes Rocha

7º Avós ou heptavós pelo lado de vovô Fortunato (Natim) e vovô Aristeu, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado e Lídia Fernandes Rocha