Fortunato Machado Rocha e Valdomira Barbosa Sucupira



    


      
  








Fortunato Machado Rocha e Valdomira Barbosa Sucupira

meus avós paternos 

 

Meus avós paternos Fortunato e Valdomira

Fortunato Machado Rocha, meu avô paterno, a quem chamavam de “Natim”, nasceu no dia 17 de setembro de 1909. Nada consta com relação ao local de nascimento, mas é certo que foi na Fazenda Suçuarana, na localidade de Pilões, em Guarda-Mor, Minas Gerais, onde viveu sua infância e provavelmente a adolescência. Pelo menos até o início da segunda década do século XX, quando sua mãe Lídia faleceu no parto do nono filho.

 Fortunato Machado Rocha meu avô paterno, faleceu no dia 22 de fevereiro de 1986, um sábado, com 77 anos, de Enfisema pulmonar, pois fumou muito durante um tempo de sua vida. Embora tenha deixado o vício, as sequelas foram irreversíveis. Ele fumava o tal “pito de palha” em que o fumo puro era picado e enrolado dentro de palha de milho. Seu pulmão não aguentou.

 Um fato interessante que aconteceu no dia de seu falecimento, foi que minha irmã Suelene tinha vindo com o esposo de Vazante, Minas Gerais para visitá-lo, pois vovô, muito querido dos netos, não estava muito bem. Minha irmã e seu esposo entraram no quarto para vê-lo. Quando saíram, vovô Natim pediu ao esposo de minha irmã, o Ali, que chamasse a vovó Valdomira porque precisava falar com ela. Ficaram um tempo com as portas fechadas e poucos minutos depois meu avô faleceu. Com toda certeza ele pressentiu sua morte. Foi sepultado no Cemitério Municipal, o cemitério velho em Coromandel, Minas Gerais.

Vovô Fortunato era o segundo filho de Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) e Lídia Fernandes Rocha, já citados antes em bisavós. 

 Valdomira Barbosa Sucupira, esposa de Fortunato Machado Rocha, e minha avó paterna, nasceu no dia 02 de março de 1914, uma segunda-feira, no município de Coromandel, Minas Gerais, provavelmente na região do Bonito de Baixo, onde seu pai possuía terras. Pelo menos há relatos de que os primeiros filhos de seus pais nasceram naquela localidade e minha avó Valdomira parece-me ser a filha mais velha, embora eu não tenha muita certeza. Vovó Valdomira faleceu no dia 06 de junho de 2002, uma quinta-feira na Santa Casa de Misericórdia de Coromandel, Minas Gerais, com 88 anos e foi e sepultada no mesmo túmulo do esposo, meu avô Fortunato, no Cemitério Municipal de Coromandel, Minas Gerais.

 Ela já estava bem velhinha e com demência e para piorar a situação levou uma queda e quebrou algum osso da bacia que a deixou acamada até seus últimos dias. Ela era filha de Bartolomeu Mateus Barbosa e Maria Felizardo Sucupira, já citados em bisavós. 

 Meus avós Fortunato Machado Rocha e Valdomira Barbosa Sucupira se casaram no dia 29 de setembro de 1933, no pequeno povoado do Chapadão do Pau -Terra, município de Coromandel, Minas Gerais.  Meu avô Fortunato (Natim) tinha 24 anos e vovó Valdomira tinha 19 anos. O dia do casamento era um dia Santo, pois se comemorava o dia de São Miguel Arcanjo, padroeiro da localidade, juntamente com São Sebastião. Havia inclusive festejos no dia, como era tradição, festejos aliás, que duravam dez dias e o povo aproveitava para batizarem os filhos e se casarem.

   Conforme relatos desses boca a boca, o casamento de meus avós foi arranjado pelos pais. Conta-se que meu bisavô Antônio Bonifácio Machado, o vovô Tõe, pai do vovô Natim, seguia com uma boiada e passou pela fazenda do pai da vovó Valdomira, provavelmente a tal Fazenda do Ataque. É provável também que o vovô Tõe ainda tinha a fazenda perto de Abadia dos Dourados, Minas Gerais, e estava levando gado de lá para a fazenda onde hoje é dos filhos do tio Dário. Nessa época ele morava em um casarão que já não existe mais e já era casado com a Eudóxia. Podia ser também que ele estava levando gado para a sua fazenda de Pilões em Guarda-Mor. Geralmente ele cortava esse trecho levando gado e passava pelo porto da Vita no rio Paranaíba que era ali naquelas paragens onde os   pais da vovó Valdomira viviam. Frisando que Vita era Vitalina irmã do vovô Tõe. Com toda a certeza, meu bisavô Tõe era conhecido dos pais da vovó Valdomira e deve ter apeado da mula para um dedo de prosa, enquanto a boiada descansava à sombra da gameleira que existia lá na fazenda de acordo com tia Zilda, irmã de vovó Valdomira.

Bem, meu bisavô Bartolomeu deve ter pedido que viesse um cafezinho lá da cozinha e quem veio servir foi a filha, vovó Valdomira. Dedução minha, claro. O fato é que vovô Tõe gostou da bela morena de cintura fina e ancas largas e pediu-a em casamento para o filho Fortunato, o vovô Natim. A mão foi concedida. Possivelmente meu avô Fortunato também estava nesse dia ajudando o pai com a boiada, pois a própria vovô relatou que enquanto combinavam o casamento, ela espreitava o vovô pela fresta da porta. Possivelmente sondando o futuro marido. Ela também relatou um dia, para minha irmã Célia Maria, que depois só foram se ver no dia do casamento. Não tinha essa coisa de namorar.

O fato é que logo estavam casados e foram morar com o vovô Tõe, pai do vovô Natim. Por esse tempo moravam em um casarão, que não existe mais, nas terras que, tempos depois foram do tio Dário, irmão do vovô Natim e nos dias atuais é de um filho do tio Dário. 

 O nome da Fazenda hoje é Córrego da cruz na localidade de Marques. O nome da fazenda se originou de dois córregos que se cruzam dentro da propriedade. Não sei se antes era esse nome. Bem, algum tempo depois, vovô Natim e vovó Valdomira se mudaram para outra sede de fazenda próximo dali. Essa fazenda era o mais lindo paraíso que eu conheci. Mas vovô Natim tinha fazendas também em outras localidades, como uma nos Coqueiros, próximo a Lagamar dos Coqueiros e outra na localidade de Cachoeira mais perto da cidade de Coromandel. Inclusive, meu pai contava, que quando eles estudavam na cidade, nos fins de semana iam a pé para essa fazenda na Cachoeira.

 

Sede da fazenda onde meus avós moravam e onde vovó Valdomira fazia seus presépios, na localidade de Marques. Essa foto, no entanto, é da época que tio Bertim morava lá.

 

Vovô Natim na sua Fazenda, que por ocasião dessa foto, era onde residia meu tio Adalberto (Bertim). Ao fundo a porteira que dava para o pasto onde tinha coco macaúba. À esquerda os galhos de uma gameleira da qual me lembro tanto. à direita, o canavial...
 

 Sobre meu avô Fortunato Machado Rocha, o vovô Natim, eu posso dizer que era uma pessoa calma e boa. Tinha um olhar meio que tímido, pelo menos sob meu ponto de vista. Morei com eles em 1974 no casarão da cidade para cursar a quarta série do primário e garanto que nunca o vi sair das estribeiras, nem sequer falar alto. Nesse casarão, lembro-me dele, na vendinha pequena que ficava depois da despensa. Ele ficava lá sentado atrás do balcão o dia todo. 

Algumas coisas sobre meu avô me marcaram, além dos seus últimos dias de vida com todo aquele sofrimento no início do ano de 1986. Sua falta de ar, o calor insuportável... Aquilo acabava comigo. A gente relembra essas coisas porque a vida é feita não só de momentos bons. Enfim...

Mas ainda bem que as outras memórias que tenho do vovô Natim são boas. Por exemplo, me lembro como se fosse hoje, o vovô a cavalo subindo a encosta ao lado do pé de óleo lá da fazenda onde vivi minha infância. O cavalo a passo lento. O sol já quase descambando pelo lado da região do Trombetas. Vovô vinha para pernoitar em nossa casa. Eu o via da janela da cozinha, pois o Bob, nosso cachorro negro e peludo já tinha dado o alarme. Vovô, vestindo o inseparável colete de flanela xadrez, na cabeça o chapéu de lebre. Sempre que vinha da cidade para sua fazenda, ia nos ver. Por esse tempo, era seu filho Adalberto, o tio Bertim, que morava na fazenda dele.

No outro dia no almoço era certo que mamãe ia preparara frango com molho de açafrão, pois vovô adorava, especialmente os que mamãe fazia. Aliás ele gostava muito de mamãe e ela adorava fazer esses mimos para o vovô Natim, como o franguinho caipira. A gente pegava o frango na hora ali na horta. Primeiro, mamãe pegava milho debulhado e atraía as galinhas. Depois com todas juntas nos dizia qual seria a vítima e a gente partia para cima. Era um fruzué danado. Penas voando, o Bob latindo... Não era fácil pegar rápido, pois, as galinhas adivinhando o que ia acontecer, embrenhavam-se pelo mandiocal apavoradas. Nesse ponto, ainda bem que nosso cachorro policial de pelo sedoso e preto, o Bob, entrava em cena. Inteligentíssimo que só ele, já tinha também entendido qual seria a vítima daquele dia e partido para cima. Apesar dos nossos joelhos arranhados do cai aqui, cai ali, a vitória final era sempre de Bob. Era ele quem conseguia pegar o frango e o segurava com as patas enormes até a gente chegar.

Bem, depois mamãe matava o frango, passava na água fervendo para depená-lo, sapecava na chapa com palha de milho, picava e lavava bem e afogava com gordura de porco em uma panela de ferro grande. Era um processo bem demorado que precisava começar bem cedo senão o almoço não saia para as 10 horas, horário que naquele tempo a gente almoçava.

Mamãe preparava também mandioca cozida que papai arrancava na horta. As tais mandioca cacau que desmanchava. Mandioca era o que a gente mais tinha em nosso quintal, pois fazíamos farinha e polvilho para o ano todo. Bem, mamãe fazia também para o almoço, tutu de feijão, angu de fubá, sopa de farinha de mandioca com o caldo do frango, molho de pimenta também com o caldo do frango e cebolinha verde separado em um prato, pois as crianças não comiam pimenta. Meu avô amava esses pratos. Meu pai também. Aliás toda a família amava esses pratos de minha mãe. Até hoje gosto de fazer tentando imitá-la.

Vovô Natim sempre dormia lá em casa e isso era o máximo porque à noite era certo que nos contaria histórias de onças e tesouros assombrados, sobretudo de um tal de Torra que vivera por aquelas bandas. Segundo vovô Natim, o tal Torra, era muito rico e escondia suas riquezas, como ouro, em tachos debaixo de gameleiras. Sempre tive um pé atrás com gameleiras depois dessas histórias.  Na verdade, isso foi há muito tempo.  Hoje não ligo para essas coisas. Mas naquele tempo eu e meus irmãos íamos dormir e embrulhávamos até a cabeça, mesmo que fizesse calor e nada de deixar o dedão do pé de fora.  A gente não ousava nem se virar na cama até o dia amanhecer, o que era um alívio. Os casos de onça eram mais tranquilos, embora de arrepiar.

Vovô Natim com seu inseparável colete xadrez de flanela
 

 Outro fato marcante de meu avô Natim é que ele vivia sempre com o tal colete de flanela xadrez. Não desgrudava dele por nada. Recordo-me dele com seu colete xadrez sentado no sofá da casa onde viveu seus últimos dias. Magro, meio curvado, os pés inchados calçados com sandálias de couro. Estava sempre lendo um livro grosso de Alan Kardec, um francês pioneiro na pesquisa científica sobre fenômenos paranormais e mediunidade. Vovô gostava dessas coisas de espiritismo e quando mais novo frequentava um Centro Espírita. Enfim...

Em junho de 1979, meus pais fizeram uma festa de Santos Reis e meu avô Natim foi o porta-bandeira.  Para quem não sabe, a bandeira é um símbolo máximo da folia de Reis e abre os caminhos para que os foliões, representando os Reis Magos, possam anunciar o nascimento do Menino Deus.

Então já curvado, vovô Natim, peregrinou por uma semana com os foliões de casa em casa. Ele tinha muita devoção a Santos Reis, assim como meu pai. Eu gostava de vê-lo se dobrar em um joelho e beijar a bandeira com a Imagem do Menino Jesus e os Três Reis Magos. Vovô Natim também gostava de tomar vinho com suas netas. Escondido da vovó Valdomira, claro. Ele tinha sempre um semblante sorridente e tímido e é esse semblante que guardo até hoje em minhas lembranças e saudades.

 

Vovô Natinho curvando-se diante da bandeira de Santos Reis. Só que essa festa não foi a de meu pai em 1979, mas a festa de meu tio Zezé em 1981

 

Sobre minha avó Valdomira Barbosa Sucupira, esposa do vovô Natim, era uma senhora muito vaidosa, conforme minha mãe contava. Ela não gostava de repetir roupa. Queria sempre uma roupa nova para ir nos terços ou festas, nem que fosse de chitinha. Depois que mamãe se casou com seu filho, meu pai Acenion, era ela quem costurava as roupas da vovó Valdomira. Eram vestidos, às vezes conjuntos de saia e blusa. E quase todos com mangas três quartos. Vovô adorava esse tipo de manga.

Sempre achei mesmo vovó Valdomira uma mulher muito vaidosa. Mas era elegante e discreta. Educada. Uma mulher morena de uma personalidade forte. Empoderada para seu tempo. Aliás seu nome Valdomira é um nome forte como ela era, e significa governante, o que vovó fazia muito bem: governar a família.

Vovó fazia questão de tratar os outros muito bem e até exagerava no famoso “tratar na palma da mão”. Inclusive se preocupava com a netas mais tímidas que, segundo ela, não sabiam conversar com os outros, o que com certeza dificultaria encontrar bons partidos para se casarem já que os supostos futuros sogros poderiam não gostar. “Vocês vão ficara pra titias”, ela falava sem dó de nós. Eu não gostava de fingir. Sempre quis ser o que sou e pronto e ficava triste pensando que ia mesmo ficar para titia porque sempre fui muito tímida. Na verdade, minha timidez me fez perder um namorado que eu namorava sério, pelo menos da minha parte. Da parte dele não era sério porque me trocou por uma professora e ainda saiu falando de minha timidez. Pra ele moça tímida era moça boba. Enfim... Águas passadas. Confesso que algumas vezes fiquei magoada com as falas da vovó. Para ela, 20 anos de idade já estava passando do ponto de se casar. E acho que passei, pois me casei com 26 anos.

 Bem, até mesmo depois de mais velha, vovó ainda era vaidosa e tinha a cintura bem fina e seios enormes, os cabelos puxados para trás e curtos. O ar sério. Mas sabia dar boas risadas, das quais me lembro muito.  Era uma risada que parecia vir arrastada lá de dentro, prolongada e ruidosa, tipo raspando a garganta. Eu diria que era uma risada casquinada, porque acontecia sempre com um tom meio que irônico.


Vovó Valdomira descendo a rampa da cozinha do velho casarão. Alguém tirou a foto da janela do salão que ficava em cima do porão

Ainda sobre minha avó Valdomira, convivi muito com ela. Inclusive morei com ela no casarão da Rua Artur Bernardes, número 515. Isso foi no ano de 1974 quando eu tinha dez anos e estava cursando a 4ª série do primário. Até já falei sobre isso quando falei do vovô Natim. Do outro lado da rua era o antigo ginásio Coromandel que tomava todo o quarteirão e na esquina de cima ainda era um cerradão. Lembro, inclusive de uma porteira e um pé de Pau-Terra enorme ao lado do mourão. De lá da porteira era um pasto onde os parentes deixavam os cavalos quando vinham à cidade.

Foi um tempo inesquecível. Lembro-me dos doces de leite ou de amendoim em pedaços que vovó fazia todos os dias para colocar na vendinha onde meu avô passava o dia todo atrás do balcão. Quando ia cortar os pedaços de doces bem quadradinhos, ela sempre me dava as “rebarbas”, ou sobras. Sobre cortar os doces ‘bem quadradinhos”, lembro-me que ela media 2 ou 3 dedos no comprimento e na largura do tabuleiro com o doce e riscava com a ponta da faca, depois os cortava de forma que os quadrados ficavam todos exatamente do mesmo tamanho.

Meus avós Fortunato e Valdomira e a neta Luciana na rampa que saia da cozinha do velho casarão

 

Vovô Valdomira também guardava os vales para pão que papai comprava para mim. Sempre que vinha à cidade, papai comprava vales para pães que dava para muito tempo, pois ele demoraria a voltar. Todo dia vovó me dava um vale para eu buscar o meu pão do dia. A padaria que ficava no quarteirão de baixo, ainda se chama Padaria São João nos dias atuais, mas naquele tempo a gente chamava de padaria do Jeová. Aliás houve um tempo que todo o quarteirão onde ficava o casarão de meus avós pertenceu aos meus avós. Ia da esquina onde ficava o casarão até à padaria do Jeová.

Sobre esse casarão de meus avós, eu sempre o achei incrível desde menina, embora tivesse receio do porão que ficava ao lado da rampa que saia da cozinha. Eu amava também o alpendre, o pé de manacá com suas flores lilases e brancas bem ao lado da escada do alpendre. E também tinha o fato de o alpendre ser uma arquibancada perfeita para assistir os desfiles de 7 de setembro que subiam a rua. Era algo que não existe palavras para descrever de tão bonito. Meu coração até pulava do peito com o batidão da fanfarra. O que mais me lembro era meu primo Valterson (o Valtinho), alto e loiro e de olhos azuis, na fila do meio com um bumbo que quase encostava no chão. Agora que penso nele, tenho a impressão que devia parecer com algum de nossos ancestrais que vieram de Portugal. Era tão diferente de todos os primos. Bem, eu também amava o quintal do casarão, com o pé de amora, o pé de figo, os pés de laranja e até mesmo a casinha da privada.

Vista de Coromandel, Minas Gerais, por volta dos anos 70. O casarão de meus avós Natim e Valdomira ficava na esquina de baixo, conforme seta apontando para esquina de baixo. De frente era o ginásio que ocupava todo o quarteirão, onde hoje é a Escola Estadual Alírio Herval e na parte inferior da imagem o imenso cerrado que ainda existia naquele tempo.

 

Voltando às coisas que vovó fazia, lembro-me bem dos molhos de chuchu. Ela sempre picava bem pequeno os quadradinhos. Aliás chuchu era o que não faltava no velho casarão. O pé se alastrava pelos muros, pelos telhados...

Eu achava vovó muito séria e muito pulso firme. Chamava a atenção da gente se fosse preciso. Fazia questão da gente saber tratar os outros bem. Cuidou muito de mim quando eu e meu primo Elias tivemos catapora. Ele também ficava no casarão para fazer a quarta série do primário. Meu primo ficou bem pior que eu. Chegava a delirar de febre. Nessa época meu primo Elias sempre dizia que ia se casar comigo. Mas não nos casamos. Acho que não fazia parte de nosso destino.

Bem, a vovó sempre cuidava de todo mundo. Minha irmã mais velha Célia Maria, por exemplo, com apenas sete anos, ficou morando com ela na cidade, pois na roça, a escola era muito longe para ela ir sozinha.

Vovó cuidava também de todas as noras quando elas ganhavam seus bebês. E olha que foram muitos. Na verdade, da tia Elma, esposa do Tio Aldeiron e mamãe. Cuidava como fosse mãe delas. Cuidava das roupinhas dos bebês, da canja de galinha no pós-parto, do chazinho de funcho para os bebês chorões ou com prisão de ventre ou dor de barriga. A mãe de mamãe já tinha falecido quando ela tinha dezessete anos ou dezoito anos. Então vovó Valdomira era de fato uma mãe para ela. Mas tia Elma ainda tinha mãe, mas ia ter bebê na casa da vovó Valdomira.

Eu e meus irmãos, exceto um que nasceu na roça, nascemos todos no casarão de meus avós Fortunato (Natim) e Valdomira, aos cuidados da vovó e de uma enfermeira parteira. Inclusive quando meu irmão caçula nasceu, o Afrânio, quem disse de encontrar a tal enfermeira parteira? Tio Donizete e tia Terezinha vasculharam a cidade atrás dela e graças a Deus foram encontrá-la em um forró.  Papai estava na roça com os outros filhos. O parto foi feito às pressas e quase passou da hora. Desses nascimentos na cidade eu só me lembro de um. Se não me engano de minha irmã Nária Regina. lembro-me que naquele dia eu estava subindo no pé de amora da horta quando ouvi o chorinho do bebê e desci correndo. Lembro-me depois de mamãe sentada na cama comendo canja de galinha feita pela vovó Valdomira. Jamais esqueço o pedacinho de carne que ela me deu. Lembro também das roupinhas da nenenzinha esvoaçando no varal, cueiros de flanela estampadas de bichinhos, fraldinhas branquinhas, pagãzinhas com rendinhas nas bordas e bordadinhos delicados. Vovó que lavava tudo com carinho e   esmero. Inclusive tratava de nos manter afastados do quarto onde estava a mamãe e o bebê e também ir buscar funcho na casa da Tia Ricardina para fazer chá. Era quando a notícia do nascimento se espalhava.

Uma história interessante, foi quando morei no casarão para fazer a quarta série como já contei. Vovó Valdomira frequentava o Centro Espírita com meu avô e sempre me levava. Eu tinha muito medo das seções que eles faziam porque tinha um momento que eles ficavam em círculo na penumbra e ficavam convocando espíritos de pessoas que já tinham falecido. Como eu não entendia nada daquilo, a sensação era de que a qualquer momento ia aparecer algum ali no meio e meu coração quase saltava do peito.  Mas eu tinha que ir porque vovó não me deixava sozinha mesmo sendo com Maria, a mulher que eles criaram desde pequena.

Bem, eu vivia imaginando um jeito de me livrar dessas idas ao Centro Espírita. Então um belo dia inventei que não podia ir porque precisava estudar para uma prova no outro dia cedo. Era uma prova bem difícil. Vovó acreditou e deixou eu ficar. Passei a inventar desculpas para não ir e vovó aceitava. Não sei se ela percebia minhas desculpas esfarrapadas. Contudo, nunca mais me obrigou a ir.  Entretanto, nem sempre estudava, mas ficava lendo as revistas de fotonovela da minha tia Terezinha que ficavam escondidas debaixo do colchão e eu descobri. Mas eu gostava também de um Atlas enorme de meus tios. Era fascinada pelas imagens de cidades, imagens da natureza. Eles tinham também um livro de bichos que eu adorava. Inclusive andei recortando algumas imagens e guardando no meio de meus cadernos. Eu tinha essa mania. Coisas de criança. Além disso, naquele tempo tinha a tal novela, “Fogo sobre Terra” e “Selva de Pedra” que eu não perdia por nada na casa do vizinho, o Sr. José do ônibus. Na casa da vovó não tinha televisão ainda, mas vovó me deixava e meu primo Elias irmos para o vizinho todo dia. Isso era sagrado para mim. Pelo visto os vizinhos não se importavam com nossa presença lá.

Ainda sobre vovó Valdomira, a Nicinha, uma antiga companheira minha de aula de costura, relatou-me que foi minha avó quem a ensinou a fazer bordados em ponto de cruz e crochê. Elas eram vizinhas e primas em segundo grau. A avó da Nicinha, a tia Ricardina era irmã do Bartolomeu, pai de vovó. O casarão de vovó era na esquina da Rua Artur Bernardes e depois do Casarão tinha a casinha de D. Ricardina, a tia da vovó e avó da Nicinha. A próxima casa era a da Nicinha.

Segundo a Nicinha, um dia vovô Valdomira chegou lá com um pedaço de pano, algumas linhas e uma amostra de cacho de uva em ponto de cruz e foi logo dizendo: “você fica aí à toa o dia inteiro. Pode não. Vai aprender a bordar e fazer crochê”.  Sabendo o gênio da vovó, Nicinha pensou “estou perdida”. Mas a contragosto aprendeu e, por sinal, muito bem. Sobre o crochê, Nicinha relatou-me que um dia, orientada por vovó Valdomira, comprou quinze novelos de linha Cleia para fazer uma colcha. Ela achou um absurdo, mas vovó sabia por experiência a quantidade de novelos necessária para fazer coisas de crochê.  Meio desanimada começou a fazer os quadros e pensando “nunca vou dar conta de fazer essa colcha”. Mas foi fazendo, fazendo quadros e mais quadros, e colocando dentro de uma caixa. Quando resolveu emendá-los, deu colcha, trilho e muito mais, me contou rindo.

Nicinha e vovó eram grandes amigas e, inclusive já ouvi assuntos de que o sonho da vovó era tê-la como nora, o que não aconteceu. Nicinha era filha única e bem rica. E falando em crochê de novo, vovó adorava mesmo crochetar.   Lembro-me dela sempre com novelo e agulha nas mãos, mesmo quando ia nos visitar na roça. Ia conversando e crochetando sem parar, sentada no banco na cozinha, enquanto mamãe fazia almoço ou janta.

Em uma das visitas de meus avós Fortunato e Valdomira na fazenda de meus pais. Meus pais à esquerda, depois meus avós, minha irmã Célia Maria, meu irmão caçula Afrânio e eu, em um dia de visita de meus avós. Ainda existia o enorme pé de abacate, o ranchinho de despejos, a cerca de pau a pique ou lancer e um velho jacá pendurado...



 

Outro momento de visitas de meus avós Fortunato e Valdomira na fazenda de meus pais

 Falar da vovó Valdomira é relembrar seus presépios de Natal. Eram enormes e lindos. Ocupavam o canto inteiro de uma sala. Eu era fascinada por eles. Às vezes ela fazia na cidade, no velho casarão, bem no canto da sala de assoalho que ficava em cima do porão. Às vezes fazia o presépio na roça, quando resolviam passar as férias na fazenda.  Na roça, a sala também era enorme e de piso de assoalho. Recordo-me com saudade daquela fazenda de quintais enormes cheios de bananeiras e pés de laranja; o mangueiro enorme cercado de madeiras tipo lancer, uma juntinha da outra. Era onde ficavam os porcos, mas que tinha mangueiras e goiabeiras e era nossa selva; o rego d’água  onde se buscava água límpida e onde tinha bem ao lado da bica um pé de laranja-lima; o pé de hibisco vermelho bem de frente à porta da cozinha e de lá dele, o pé de tangerina e o pé de flor Beladona; o enorme pé de jenipapo ao lado da porteira de tábuas do curral, os cocos macaúba lá perto do córrego...

Bem, eu adorava quando vovó fazia o presépio na fazenda, pois assim eu tinha mais chance de vê-lo já que meus pais moravam na roça.  Nunca me esqueço de uma vez que mamãe fez casinhas de papel para colocar no presépio, as estrelas cobertas de brocados dourados. Lembro-me de tia Teresinha colher uma planta no brejo às margens de um pequeno córrego que passava no fundo da fazenda. Era uma folhagem longa e que tinha tipo uma espiga na ponta parecida com uma salsicha. Tempos depois descobri que se chamava Taboa, uma planta aquática e perene. Minha tia enfeitava com essas plantas, os vales entre as rochas da gruta que, falando sério, eram montanhas perfeitas. Não me lembro como ela fazia, o material que usava, mas parecia uma espécie de papel grosso que ela ia moldando como se fossem rochas.  Depois espalhava areia formando as trilhas, distribuía as imagens de Nossa Senhora, São José, o Menino Jesus, os Reis Magos, os animais. Ficava perfeito.  Depois rezava-se o terço. Meus pais, eu e meus irmãos dormíamos por lá e íamos embora no dia seguinte. Desde então sou apaixonada por presépios graças a minha avó. Infelizmente não tem sequer uma foto desses lindos presépios. Eles ficaram apenas em minha memória.

Dessas belas lembranças, vale recordar dos encontros em família que a vovó promovia. Ela gostava de ver a família toda reunida e de fato, nesses encontros não faltava um. Os primos, inclusive eram como irmãos. Em particular, houve um Natal, se não me falha a memória, foi em 1977, pois eu tinha 14 anos. Foi o melhor Natal de minha vida. Estava todo mundo lá, primos, tios... A festa corria solta. Porém antes, as primas foram ao cinema debaixo de uma garoa fina. Aliás foi a primeira vez que fui ao cinema e até hoje me lembro do filme “A última neve da primavera”. Foi a primeira vez também que ouvi falar de câncer, que era o tema do filme, e a primeira vez que vi uma imagem de neve. E foi a primeira vez que usei jeans, só que era uma saia. Depois fomos à Missa do Galo que era a meia noite em ponto.  Só depois foi a ceia que acabou com todos dançando discotheque no salão de assoalho em cima do porão. Até os tios mais tímidos rebolaram ao som de Gengis Kam, Abba... Só não entendo como o salão não desabou.

Como já relatei antes, em junho de 2002, vovó Valdomira partiu com 88 anos.  Pouco tempo antes disso, ela tinha sofrido uma queda na calçada da sala e quebrou o osso do quadril. Ficou acamada e sua saúde foi só piorando e nos últimos dias de vida até sua memória estava lhe pregando peças. A memória presente, por exemplo, já não existia, apenas lapsos de tempos mais antigos. Assim, um pano enrolado passou a ser um bebê no canto de sua cama e quando o portão se abria, ela já pensava ser a velha porteira da fazenda e dizia; “vai abrir a porteira, é o Bertim chegando”. Bertim era o apelido de Adalberto seu filho. 

 Na verdade, o tempo de meus avós Natim e Valdomira foram os melhores que vivi. Era um tempo de família reunida que depois foram se distanciando. Mas dizem que isso é comum acontecer. Sendo assim...

Um fato interessante: Já idosos, vovô Fortunato (Natim) e vovó Valdomira passaram a se tratar carinhosamente de “Vei” e “Veia”.

 

 
Jazigo de meus avós Fortunato e Valdomira no cemitério de Coromandel, Minas Gerais, o Cemitério velho. Com eles foi enterrada também a menina que eles criaram, a Maria do Sr. quim: última foto.


 

Meus avós Fortunato e Valdomira em Belo Horizonte. Conforme relatos, foi por ocasião do casamento do filho Clodoveu
 

O pequeno baú de fotos e também um álbum de capa verde sumiu depois que vovó Valdomira faleceu. Nele existiam muitas histórias nas entrelinhas das fotos, mas ninguém sabe onde foram parar. Na verdade, tudo que é sólido um dia se dissolve. Enfim...

Meus avós tiveram 10 filhos, dos quais seis também já partiram entre eles, meu pai. Um inclusive, o João, partiu ainda pequeno com uma doença viral chamada de crupe, também conhecida como laringotraqueobronquite, uma doença respiratória comum em crianças.

Meus avós Fortunato e Valdomira com quatro de seus 10 filhos. Da direita para a esquerda: tia Lídia, tio Aldeiron, tia Maria ( Fiica) e meu pai no colo da menina que eles criavam, a Maria do Sr. Quim. Meu pai provavelmente ainda não tinha um ano, e como ele nasceu em agosto de 1939, essa foto deve ser de 1940. 


   Meus avó também criaram uma menina, que era afilhada deles, a Maria, filha de um tal Sr. Joaquim que era chamado de Sr. Quim, era viúvo e muito pobre. A gente só chamava a Maria de “Maria do Sô Quim”. Maria parecia possuir alguma deficiência mental. Mas era uma pessoa muito doce. Depois que vovó partiu, uma tia cuidou dela. Depois quando essa tia faleceu, levaram Maria para o Asilo, onde terminou seus dias. Enfim...

 

Maria do Sô Quim, que meus avós criaram. Pose na rampa que saía da cozinha do casarão

 

Descendência de meus avós paternos Fortunato Machado Rocha e Valdomira Barbosa Sucupira



 1.     Lídia Machado David, nascida em 1935, falecida em 2023, casada com Elmiro de Souza David, nascido em 1932, falecido em 2018. Tiveram os filhos: Walterson, Antônio, Teresinha e Celma;

2.     Maria Machado Lemes (chamada de Fiíca), nascida em 1936 e falecida em 2007, casada com Digerme da Rocha Lemes, nascido em 1931 e falecido em 2015. Tiveram os filhos: Luiz, Luzia, Célio e Mauro;

3.     Aldeiron Machado Rocha, nascido em 1938, falecido em 1994, casado com Elma Maria de Jesus, nascida em 1943, falecida em 2025. Tiveram os filhos: Elias, Zélia, Eliane, Ilma e Aparecida (ou Maria Aparecida?);

4.     Acenion Machado Rocha (meu pai), nascido em 1939, falecido em 2020, casado com Tereza Machado Soares Rocha, sua prima em primeiro grau (minha mãe), nascida em 1944, falecida em 2017. Tiveram os filhos: Célia Maria, Sônia de Fátima, Suelene, Adilson, Nária Regina e Afrânio;

5.     João (falecido em criança);

6.     José Machado Rocha (chamado de Zezé do Natim), nascido em 1942, casado com Maria Barbosa Machado, sua prima em primeiro grau, nascida em 1948. Tiveram os filhos: Kelle Cristina e Claúdio Humberto;

7.     Clodoveu Machado Barbosa (meu padrinho), nascido em 1945 e falecido em 2025, casado com Vanilda Ferreira Machado, nascida em 1952. Tiveram os filhos: Erika, Érida e Éllen;

8.      Adalberto Machado Barbosa (chamado de Bertim), nascido em 1946 e falecido em 2025, casado com Luzia de Oliveira Machado, nascida em 1949 (não tiveram filhos);

9.     Terezinha Gláucia Machado Silveira, nascida em 1953, casada com Cleumildo Francisco da Silveira, nascido em 1948. Tiveram os filhos: Leonardo, Luciana e Viviane;

10.  Donizete Bartolomeu Machado (o Bartolomeu em razão do nome de seu avô, pai de vovô Valdomira), nascido em 1955, casado com Humbelina Marques Machado, nascida em 1957. Tiveram os filhos: Andressa e Adriel;

11.  Maria do Sr. Quim, afilhada de meus avós e criada por eles. Não se sabe o ano em que nasceu, mas é provável que tenha sido por volta de 1935 e falecida antes de 2016. 

 

Meus avós Fortunato e Valdomira no centro e os filhos em volta. Foro mais antiga

  Fotos mais atuais dos filhos de  meus avós Fortunato e Valdomira
 
 
Filha Lídia Machado David e seu esposo Elmiro de Souza David- Falecidos

 
 
Filha Maria Machado Lemes( conhecida como Fiica) e o esposo Digerme da Rocha Lemes( conhecido como Fio)- falecidos


 
Filho Aldeiron Machado Rocha e a esposa Elma Maria de Jesus- falecidos


Filho Acenion Machado Rocha e esposa Tereza Machado Soares Rocha- meus pais já falecidos

Filho José Machado Rocha e esposa Maria Barbosa Machado

Filho Clodoveu Machado Barbosa( já falecido) e  esposa Vanilda Ferreira Machado

Filho Adalberto Machado Barbosa e esposa Luzia de Oliveira Machado

Teresinha Glaúcia Machado Silveira( falecida) e esposo Cleumildo Francisco da Silveira

Filho Donizete Bartolomeu Machado e esposa Humbelina Marques Machado

 
Maria do Sr. Quim, criada pelos meus avós Fortunato e Valdomira

 
 
Outras fotos
 
Encontro da família de Fortunato e Valdomira em agosto de 2023- praticamente a metade da família não esteve presente

Netas de Fortunato e Valdomira presentes no encontro de agosto de 2023

Netos de Fortunato e Valdomira presentes no encontro de agosto de 2023



Bisnetos de Fortunato e Valdomira presentes no encontro de agosto de 2023

Encontro da família de Fortunato e Valdomira em setembro de 2024- filhos e netos de Fortunato e Valdomira presentes nesse dia

Filhos e bisnetos de Fortunato e Valdomira presentes no encontro de setembro de 2024. Detalhe: uma pequena trineta de Fortunato e Valdomira

A seguir um vídeo- relíquia sobre velhos tempos
 

 
 
Outra relíquia de meus avós Fortunato e Valdomira: uma carta, pelo visto escrita por meu avô Fortunato( Natim) a seu filho caçula Donizete
 

E agora voltando a meus avós Fortunato e Valdomira, eu diria, assim como certo Ket, que “Quando somos crianças, achamos que o melhor lugar do mundo é na casa dos nossos avós. E quando nos tornamos adultos, continuamos achando a mesma coisa!”  E também tem outra frase, agora de certa Tábita. Ela disse que “Amor dos avós nunca envelhece. E, mesmo quando precisa partir, nunca vai embora”, porque a meu ver ficam as lembranças vivas e isso é tudo...


 



 

Sobre Coromandel, Minas Gerais, onde esses meus avós Fortunato e Valdomira viveram, tiveram seus filhos e faleceram, vale ressaltar que é um município localizado na região do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Sua história remonta do final do século XVIII, às margens do córrego Pouso Alegre, no rancho de mesmo nome. Conforme tradição oral, o proprietário desse rancho recebia todos os viajantes que seguiam para a Vila de Paracatu e para a Província de Goiás através da Picada de Goiás que passava justamente dentro do povoado. Esse senhor, proprietário do rancho Pouso Alegre, contava muitas histórias e uma delas referia-se ao Capeta como Carabandella, um espírito do mal que habitava as matas da região. Outros relatos indicam que o nome Carabandella vem de um dialeto africano, trazido pelos escravos que trabalhavam nessa região, cujo significado é semelhante a “bagunça” ou “confusão”.


O fato é que, mineradores portugueses também buscaram essa região à procura de diamantes. Conforme tradição local, eles vieram da Costa do Coromandel na Índia e se aportaram por aqui e influenciaram o nome do povoado.  Contudo, é importante ter em mente que não há evidências históricas concretas que comprovem essa relação entre a Costa do Coromandel e o nome da cidade de Coromandel em Minas Gerais, embora a tradição oral e a história local apontem para essa origem. De qualquer forma é fato que a Costa do Coromandel, na Índia, foi um importante entreposto comercial para os portugueses durante o período colonial, e o contato com essa região pode realmente ter influenciado a escolha do nome para a cidade. Vale ressaltar que a Costa de Coromandel é a faixa litorânea do sudeste da Índia, banhada pelo Oceano Índico na Baía de Bengala. O nome "Coromandel" tem origem no termo tâmil "Chola Mandalam", que significa "Reino dos Cholas", uma antiga dinastia que governou a região.

Bem, no início do século XIX, o lugarejo que se chamava apenas Pouso Alegre, passou a se chamar Arraial de Sant’ Ana do Pouso Alegre, depois foi acrescido Carabandela ficando Sant’Ana do Pouso Alegre de Carabandela, modificado depois para Sant´Anna do Pouso Alegre de Coromandel. E, finalmente, quando foi criado o distrito no ano de 1870, para Coromandel, sendo elevado à categoria de município em 7 de setembro de 1923.

Por volta de 1819, o povoado contava apenas com umas seis choupanas, uma ponte sobre um córrego e o início da construção de uma capela dedicada à Sant’Ana, segundo August de Saint Hilaire, um botânico, naturalista e viajante francês que veio para o Brasil com a comitiva de D. Leopoldina, noiva de D. Pedro I. Esse botânico, conforme consta em seus escritos que tive a oportunidade de ler, passou por Coromandel, na época chamado de Arraial do Pouso Alegre, e inclusive assistiu a primeira missa na Capela cercada de folhas de palmeira.

já por volta de 1824, quando um tal General Cunha Mattos passou pelo arraial já havia umas quarenta casas e a capela de Sant´Anna, próximo ao córrego Pouso Alegre. Segundo escritos desse general, habitavam o lugar, um sacerdote, o dono de uma estalagem, os vendeiros, o escrivão e algumas meretrizes. Durante a semana o restante da população ficava nas fazendas.

Coromandel é conhecida por sua história ligada à exploração de diamantes.

Os maiores diamantes do Brasil foram encontrados por aqui. Vale ressaltar o famoso Diamante Getúlio Vargas, um dos maiores do mundo, de 726 quilates encontrado em 1938. O Diamante Darcy Vargas de 460 quilates encontrado em 1939 era o segundo maior até maio de 2025, quando foi encontrado um de 647 quilates, avaliado em R$ 16 milhões de reais.

Além disso, Coromandel possui uma rica tradição cultural, com personalidades como o cantor e compositor de fama nacional, Gerson Coutinho da Silva, conhecido como Goiá e o Clarinetista Abel Ferreira, conhecido no Brasil e exterior.

 Atualmente, Coromandel também se destaca na pecuária, laticínios e agricultura, sendo produtor de café, soja, milho. E claro ainda se destaca na mineração com destaque não só de diamantes, mas também de calcário.  

Para saber mais sobre Coromandel clique nos links abaixo:

👉Coromandel, Minas Gerais. Vídeo Youtube 

👉Coromandel, Minas Gerais. Vídeo Youtube 

 

Coromandel, Minas Gerais. Destaque: Igreja Santana, marco do início da Cidade

 


 




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ÍNDICE E APRESENTAÇÃO

8º avós ou octavós pelo lado de meus avós Fortunato Machado Rocha ( Natim), avô paterno e Aristeu Machado Rocha, avô materno, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) e Lídia Fernandes Rocha

7º Avós ou heptavós pelo lado de vovô Fortunato (Natim) e vovô Aristeu, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado e Lídia Fernandes Rocha