PS.:
O Gráfico
acima refere-se aos meus ancestrais (8º avós ou octavós) pelo lado de meu avô
paterno Fortunato Machado Rocha (conhecido como Natim) e o avô materno Aristeu
Machado Rocha. O ponto de partida é o pai de ambos Antônio Bonifácio
Machado. Nessa sequência siga o gráfico na primeira linha superior.

Domingos da Silva dos Santos e Antônia da Encarnação
Xavier
Domingos da Silva dos Santos: O Batismo de meu 8º Avô em 1698
Investigar a genealogia no Portugal do século XVII é mergulhar em um quebra-cabeça de termos geográficos antigos e jurisdições complexas. A história do meu 8º avô, Domingos da Silva dos Santos, nascido em maio de 1698, é o exemplo perfeito de como os documentos originais são fundamentais para corrigir erros históricos.
Se você buscar pela certidão indexada no FamilySearch, constará erroneamente que Domingos nasceu na localidade de Molares, no município de Celorico de Basto. No entanto, quem estuda genealogia sabe que as plataformas colaborativas falham. O historiador Lucas Figueiredo, em seu livro, já apontava para o local correto: Santo André de Codeçoso.
A prova real veio com o próprio documento de batismo de Domingos que consegui acessar. Ele não deixa dúvidas: meu 8º avô nasceu e foi batizado em Santo André de Codeçoso.
O Registro de Batismo e a "Aldeia de Baixo"
No dia 15 de maio de 1698, Domingos foi batizado pelo Padre Antônio Teixeira na Freguesia de Santo André de Codeçoso. O documento traz uma pista importante: seus pais eram moradores da "Aldeia de Baixo".
No século XVII, em Portugal, era muito comum dividir os povoados entre "Lugar de Cima" e "Lugar de Baixo". A Aldeia de Baixo funcionava como um bairro ou núcleo populacional dentro da vasta freguesia, geralmente localizada mais próxima de vales, rios ou terras férteis de cultivo. Isso indica que a família de Domingos vivia na parte mais baixa do relevo daquela aldeia principal. Ele era filho de André da Silva e Mariana da Mota, meus 9º avós.
O "Canto de Nossa Senhora de Oliveira" e a Jurisdição Antiga
Esticando ainda mais o tecido dessa história, ao término do registro, o Padre Antônio Teixeira faz uma designação exata do local:
"Freguesia de Santo André, lugar chamado codusozo (Codeçoso), Canto de Nossa Senhora de Oliveira, do termo da Vila Nova de Frecheiro de Basto, Braga."
Vila Nova de Freixieiro (hoje Celorico de Basto) era o antigo Concelho (município) que englobava Codeçoso e as demais freguesias da região. Mas o que significa "Canto de Nossa Senhora de Oliveira"?
O termo "Canto" (ou Couto) refere-se a uma antiga organização medieval de privilégios religiosos. Um Couto era uma terra que gozava de imunidade e isenção fiscal — a justiça real não entrava ali, apenas a do senhor da terra.
Como a paróquia de Santo André de Codeçoso era o território religioso maior, existiam pequenas "ilhas" de jurisdição dentro dela. A menção a Nossa Senhora da Oliveira indica que aquela área específica pertencia ou era administrada pela Colegiada de Guimarães, a grande dona das terras sob essa devoção na região.
O Destino: Rumo ao Novo Mundo e ao Ouro de Minas
Foi nessa teia complexa de relevos, paróquias e privilégios medievais que Domingos da Silva dos Santos nasceu, foi batizado e viveu. Ele era filho de André da Silva e Mariana da Motta, que nasceram e faleceram em Portugal, naquela mesma região de Celorico de Basto.
Diferente de seus pais, Domingos decidiu cruzar o Oceano Atlântico em meados do século XVIII. Ele deixou para trás as terras minhotas e se estabeleceu na efervescente São José del-Rei (atual cidade de Tiradentes, Minas Gerais), em pleno auge do ciclo do ouro.
Longe de sua pátria natal, meu 8º avô faleceu jovem, no dia 12 de dezembro de 1757, aos 59 anos. Pelo prestígio que conquistou na colônia, recebeu uma honra reservada a poucos na época: foi sepultado dentro da belíssima Igreja Matriz de Santo Antônio, onde os seus restos mortais descansam até hoje, consolidando o início do ramo brasileiro da nossa família.
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| Registro batismo de Domingos da Silva dos Santos, meu 8º avô |
Para conhecer sobre a localidade onde meu 8º avô Domingos da Silva dos Santos nasceu, acesse os links abaixo:
👉Município de Celorico de Basto, Braga, Portugal, onde se situa as freguesias de Molares e Codeçoso
👉Sobre Codeçoso, Celorico de Basto, Portugal
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| Município de Celorico de Basto nos dias atuais - em destaque Codeçoso |
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| Codeçoso, Celorico de Basto, Portugal- detalhe Igreja com parede estilo Chão |
Antônia da Encarnação Xavier, esposa de
Domingos dos Santos da Silva e minha 8ª avó, nasceu em abril de 1721 e foi batizada no dia 12
daquele mesmo mês. Ela era filha de Domingos Xavier Fernandes, que também havia
imigrado da região do Minho, em Portugal, atraído pela corrida do ouro, e de
Maria de Oliveira Colaça (também conhecida como Maria de Sá), nascida no
Brasil.
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| Transcrição do batismo de Antônia da Encarnação- documento do Arquivo Público Mineiro |
Infelizmente, Antônia faleceu muito jovem, com apenas 34
anos de idade. De acordo com os dados do FamilySearch, sua morte teria
ocorrido em 6 de dezembro de 1755. No entanto, os documentos históricos da
paróquia revelam que, na verdade, ela foi sepultada no dia 9 de dezembro
daquele ano.
O Registro e os Detalhes do Sepultamento
O assento de óbito deixado pelo Vigário Barros Teixeira traz
os detalhes exatos desse momento:
"Aos nove de Dezembro de mil setecentos e cinquenta
e cinco falleceo com todos os Sacramentos Antonia da Encarnação Xavier casada
com Domingos da Silva dos Santos... Está sepultada dentro da Igreja na segunda
campa que corresponde à porta principal da parte da Epístola. Era ut supra.
Vigário Barros Teixeira."
A igreja citada pelo vigário é a própria Antiga Matriz de
Santo Antônio (na Vila de São José, hoje cidade de Tiradentes), paróquia da
qual Antônia era devota e onde havia se casado anos antes.
Decifrando o Local do Túmulo na Matriz
Para compreender exatamente onde minha 8ª avó foi sepultada
dentro da Matriz, precisamos traduzir os termos católicos da época:
- "Segunda
campa": Refere-se à segunda fileira ou tampa de madeira numerada
no chão da igreja, contando a partir da parede da entrada em direção ao
interior da nave. Isso confirma que ela foi enterrada logo na entrada do
templo, e não perto do altar principal.
- "Porta
principal": Reforça a localização do sepultamento próxima à
entrada principal da igreja.
- "Parte
da Epístola": Na antiga tradição litúrgica católica (anterior às
reformas do século XX), o lado da Epístola corresponde ao lado direito de
quem entra na igreja e olha em direção ao altar principal (enquanto o lado
esquerdo era o lado do Evangelho).
Para saber sobre São José del-Rei, hoje Tiradentes, Minas Gerais, onde nasceu Antônia da Encarnação
Xavier, onde ela viveu, casou-se com Domingos e onde ambos faleceram, acesse os links abaixo:
👉Sobre Tiradentes, Minas Gerais
👉Imagens Tiradentes, Minas Gerais
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| Tiradentes, Minas Gerais- detalhe Igreja de Santo Antônio |
A Corrida do Ouro e a Grande Migração
Meu 8º avô, Domingos da Silva dos Santos, veio para o Brasil nos primeiros anos dos setecentos, logo após a notícia do descobrimento do ouro em Minas Gerais ecoar por Portugal. Da região do Minho, onde ele vivia, partiram levas imensas de homens que abandonaram tudo para tentar a sorte no além-mar. A debandada foi tão expressiva que a agricultura local minhota chegou a sofrer um verdadeiro colapso devido à falta de braços para o trabalho.
A aldeia de Santo André de Codeçoso, onde meu 8º avô nasceu, era estritamente rural, muito pequena e de pouca relevância econômica. Sem grandes perspectivas em sua terra natal, Domingos decidiu buscar novos rumos, assim como tantos outros patrícios. Não fosse a febre do ouro em Minas Gerais, ele certamente teria tido o mesmo destino de seus pais, avós, bisavós, trisavós e tataravós, vivendo e morrendo em Celorico de Basto. E, por consequência direta dessa escolha, eu simplesmente não teria existido.
A Chegada a Minas e o Mistério do Casamento Tardio
É muito provável que Domingos tenha cruzado o Atlântico antes de 1729 acompanhado de seu irmão caçula, Manoel da Silva dos Santos — isto porque há registros de que Manoel se casou na vila de Prados, em Minas Gerais, já no ano de 1729. Quanto ao restante da família, todas as irmãs de Domingos permaneceram em Portugal e faleceram em Celorico de Basto; nenhum outro familiar veio para o Brasil além dos dois irmãos.
Uma questão intrigante surge dessa cronologia: por que o irmão caçula, Manoel, casou-se cedo em 1729, enquanto Domingos só foi contrair matrimônio em 1738, já maduro, aos 40 anos de idade?
Conforme relata o historiador Lucas Figueiredo em sua obra, Domingos optou por focar os anos de sua juventude exclusivamente na busca pela fortuna, deixando a constituição de uma família em segundo plano. Apesar de focado nos negócios, ele teve uma filha ainda solteiro, a quem assumiu legalmente e fez menção expressa em seu testamento datado de 1751:
" Eu Domingos da Silva dos Santos declaro que tenho uma filha
natural por nome Clara antes do nosso casamento enquanto fui solteiro..."
Mesmo priorizando os negócios na juventude, meu 8º avô garantiu a proteção legal e os direitos de sua filha primogênita antes de seguir com a história da família em solo mineiro.
O Nascimento da Fazenda do Pombal
Ao se estabelecer no solo mineiro, Domingos encontrou uma realidade completamente oposta à agricultura de subsistência de sua infância no Minho. O sistema colonial de concessão de sesmarias (distribuição de terras pela Coroa Portuguesa) aliado à exploração mineral intensa permitiu a ascensão de uma nova elite econômica na colônia.
Foi surfando nessa onda de oportunidades que meu 8º avô ergueu o seu império e construiu a histórica Fazenda do Pombal.
O Complô do Destino: A História dos Pais de Antônia
Para compreender a trajetória da minha 8ª avó, Antônia da Encarnação Xavier, ou talvez para entender o próprio complô do destino que permitiu minha existência, é preciso voltar uma geração e falar de seus pais: meus 9ºs avós.
Seu pai, Domingos Xavier Fernandes, era natural da freguesia de São Tiago da Cruz (ou simplesmente Cruz), no concelho de Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga, em Portugal. Não há uma data precisa de sua chegada à colônia, mas em 1716 ele já se encontrava fincado em solo mineiro, onde contraiu matrimônio no dia 21 de outubro daquele ano.
A Coroa Portuguesa logo reconheceu sua presença: em 1º de fevereiro de 1723, Domingos Xavier foi designado para o temido cargo de Provedor dos Quintos do distrito de Bichinho, em São José del-Rei. Ele era o homem incumbido de cobrar o "quinto real" — a famosa taxa de 20% sobre a produção do ouro, muitas vezes apelidada de "quinto dos infernos". Relatos da época apontam que esse imposto era cobrado quase que à força, com os provedores realizando as incursões acompanhados de soldados e escravizados armados. Ninguém escapava da malha fina da Coroa.
Os "Três Mosqueteiros" e a Chegada da Paulistinha
Segundo dados históricos trazidos pela autora Climeia Rezende no livro "Engenho Velho do Cataguás", Domingos Xavier Fernandes viajou para o Brasil na mesma época e embarcação que outros dois personagens icônicos da nossa árvore genealógica: João de Rezende Costa (meu 8º avô, que viria a se casar com a célebre Ilhoa Helena Maria) e Diogo da Silva (casado com Júlia da Caridade, irmã de Helena Maria).
Enquanto os companheiros de viagem se ligaram às Ilhoas, Domingos Xavier uniu-se a uma "paulistinha": Maria de Oliveira Colaça (também conhecida como Maria de Sá). A família de Maria carregava o sobrenome Colaça, um dos mais antigos e tradicionais da Capitania de São Vicente, em São Paulo. Seus trisavós maternos eram portugueses açorianos, vindos da Ilha de São Miguel nos anos 1600 para se instalar na então pequena e pobre Vila de São Paulo — que, no final daquele século, se tornaria o grande ponto de partida das bandeiras descobridores do sertão mineiro.
O encontro desses mundos aconteceu na Comarca do Rio das Mortes. Os "três mosqueteiros" — Diogo, João e Domingos — chegaram ao Arraial Velho de Santo Antônio (atual Tiradentes) quase ao mesmo tempo em que aportava uma caravana vinda da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Guarulhos, na Capitania de São Paulo. Nessa comitiva viajava Antônio Oliveira Setúbal, trazendo consigo sua filha, a jovem Maria de Oliveira Colaça.
Como bem romantizou Climeia Rezende em sua obra — baseando-se possivelmente em fortes fundamentos da tradição oral —, Maria era uma menina miúda, de aspecto frágil, olhos escuros e cansados, vestida de preto, que venceu os caminhos montada no lombo de uma mula, cercada pelos burros cargueirados de tralhas da família.
A Febre do Ouro e o Encontro na Missa de Domingo
A notícia do ouro abundante fez a família da paulistinha picar a mula de São Paulo. É impressionante como o brilho do metal levava as pessoas às raias da loucura, fazendo-as se aventurarem por rincões de matas fechadas e tenebrosas, arriscando confrontos com tribos indígenas ferozes. A comitiva de Maria Colaça, minha 9ª avó, cruzou enormes planícies, vargedos, montanhas e ribeirões, enfrentando sol, chuva e frio. O objetivo final justificava tudo: eles conseguiram comprar um sítio nas redondezas do Arraial de Santo Antônio para trabalhar com a agricultura. Afinal, em uma terra onde todos buscavam o ouro, alguém precisava pensar na alimentação.
Foi em Minas Gerais que a paulistinha encontrou a "tampa de sua caçarola". Conforme os relatos novelescos de Engenho Velho do Cataguás, Domingos Xavier avistou Maria pela primeira vez durante uma missa de domingo, enquanto ela rezava ajoelhada com devoção. Um véu de renda cobria seu rosto, como mandava o costume, mas o olhar do português a alcançou. Ela não era considerada uma bela jovem, mas as opções naqueles rincões ermos eram escassas. Era preciso agir rápido antes que outro aventureiro se adiantasse. Como se dizia na época: ouro que brota do chão logo arruma dono.
Para Maria, que já estava em idade de casar, as opções naquele vilarejo também eram restritas. Preocupado, seu pai pediu o auxílio do Capitão-Mor Manoel Gonçalves Vianna, que já estava na região há mais tempo e conhecia os rapazes de boa índole. O capitão mexeu seus pauzinhos, conchavou a união e o casamento foi formalizado, unindo Domingos Xavier à moreninha que ele já cobiçava.
A Aliança entre Dois "Domingos" e a Compra do Pombal
Dessa união nasceram cinco filhas, conforme registrado na obra Velhos Troncos Mineiros: Maria, Rita, Catarina, Joseja e Antônia da Encarnação Xavier, minha 8ª avó.
A história familiar ganha um contorno fascinante de amizade e negócios: conta-se que meu 8º avô, Domingos da Silva dos Santos, era muito amigo de seu futuro sogro e xará, Domingos Xavier Fernandes. A diferença de idade entre os dois amigos era de apenas 15 anos.
Essa forte ligação fez com que o experiente Provedor dos Quintos, Domingos Xavier, utilizasse todo o seu conhecimento sobre a região para ajudar o genro, Domingos da Silva, a escolher e arrematar terras valiosas e estratégicas, ricas em veios auríferos. Foi exatamente por meio dessa valiosa mentoria e aliança familiar que nasceu a grandiosa e histórica Fazenda do Pombal.
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| Trecho do livro Velhos Troncos Mineiros, onde consta dados da família de Antônia da Encarnação Xavier, minha 8ª avó |
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| Ruínas da Fazenda do Pombal |
O Casamento e a Vida na Fazenda do Pombal
No dia 30 de junho de 1738, meus 8ºs avós, Domingos da Silva dos Santos e Antônia da Encarnação Xavier, oficializaram sua união em São José del-Rei, muito provavelmente na imponente Igreja Matriz de Santo Antônio. Ela era uma jovem de apenas 17 anos, enquanto Domingos já era um homem maduro de 40 anos — uma diferença de idade de 23 anos que era comum para os padrões da época.
Após o matrimônio, o casal fixou residência na bela e imensa Fazenda do Pombal. Ali, eles desenvolveram uma robusta estrutura voltada para a pecuária, a produção de açúcar e a mineração de ouro. Embora o escritor Lucas Figueiredo aponte em seu livro que, em 1755, Domingos possuísse um rebanho modesto de apenas uma vaca, um bezerro, dois cavalos e dezenove porcos, o seu real patrimônio estava em outra atividade.
Domingos mantinha uma lavra de ouro ativa e possuía um plantel de trinta e cinco escravizados — um número impressionante, que representava o triplo da média dos senhores daquela região. No ano do casamento deles, as Minas Gerais chegaram a render quase onze toneladas de ouro. Embora a maior fatia cruzasse o Atlântico rumo a Portugal, Domingos e Antônia conseguiram abocanhar uma parcela desse quinhão para erguer o patrimônio familiar.
A Arquitetura e a Simplicidade da Fazenda do Pombal
A Fazenda do Pombal situava-se no Campo das Vertentes, bem próxima ao Arraial de Santa Rita do Rio Abaixo [1]. A propriedade era banhada pelo Rio das Mortes pelo seu lado direito, tendo também o Rio Santo Antônio correndo por perto, enquanto a imensa Serra de São José emoldurava o horizonte.
A sede seguia o padrão das grandes propriedades da época: contava com a casa dos senhores em estilo colonial, senzala, engenho e uma capela. Relata-se que a casa da Fazenda do Pombal tinha dois andares, sendo que a parte superior era a residência e a inferior abrigava a oficina, a senzala e o engenho.
De acordo com as pesquisas de Lucas Figueiredo, apesar da beleza e da imponência estrutural da casa, o cotidiano lá dentro era marcado pela simplicidade. Embora houvesse muitos pratos, não existiam talheres para todos os moradores. O mobiliário consistia em uma grande mesa com gavetas, seis cadeiras, dois tamboretes e uma única cama com armação de ferro — os outros meios de dormir eram em esteiras espalhadas pelo chão.
Para a iluminação, contavam com sete candeeiros e dois castiçais para velas. A fazenda era também um ambiente de trabalho rústico e defesa, guardando uma espingarda, trinta enxadas, nove alavancas, doze foices e cinco machados. Na cozinha, os alimentos eram preparados em fornos e tachos, e havia bacias e jarros para a higiene. Não se acumulava muito ouro em pó na casa, mantendo-se apenas o suficiente para comprar noventa porcos e três burros.
Fé Extraordinária, Pulso Firme e "Sangue Limpo"
Se faltava luxo no mobiliário da casa, meu 8º avô Domingos se excedia na devoção religiosa. Para erguer a capela particular da propriedade, ele empenhou mais de cem mil réis — o equivalente a 3% do valor total da fazenda. Esmerou-se também em gastar uma verdadeira fortuna adquirindo as ricas imagens de Jesus Crucificado, duas Virgens Marias, São Francisco, Santo Antônio, São Sebastião e São Gonçalo, acompanhadas de missal, cálice para hóstias e ornamentos para o altar.
Apesar de religioso, Domingos era um senhor duro com seus escravizados. Na fazenda havia também instrumentos de castigo e contenção, como um tronco e um grilhão de ferro, e o patriarca contratava capitães do mato, os temíveis caçadores de negros fugitivos.
As ruínas que existem hoje dessa fazenda, em blocos de pedra, fazem parte justamente do pavimento inferior da sede, ou seja, do engenho, da senzala e dos muros. Tal monumento erguido sobre pedras realça a posição social de meus 8ºs avós. Além da posição social, eles possuíam também uma posição religiosa de prestígio.
De acordo com o escritor Lucas Figueiredo, Domingos e Antônia eram cristãos e mantinham laços estreitos com a Igreja, sendo formalmente ligados à Ordem Terceira da Capela de São Francisco e às Irmandades do Santíssimo Sacramento e das Almas. Frisando que eram “cristãos-velhos” de sangue limpo, conforme os registros oficiais — ou seja, entre seus antepassados não havia judeu, muçulmano, negro ou pardo. Naquele tempo, isso fazia deles uma família considerada "sem mácula".
O Destino das Imagens e das Ruínas do Pombal
Ainda segundo Climeia Rezende, Antônia da Encarnação era uma mulher religiosa e mística, enquanto Domingos era um devoto fervoroso de Nossa Senhora da Ajuda, tendo erguido em sua propriedade a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda. Devido à forte religiosidade e devoção popular que a cercava, essa ermida foi a última construção da fazenda a ser demolida. A derrubada só ocorreu após uma autorização, concedida a contragosto de alguns devotos, pelo Bispo de Mariana.
Contudo, muitas peças religiosas dessa ermida foram resgatadas e hoje fazem parte do acervo da Fundação Museu de Arte Sacra de São João del-Rei. Em meados de 2009, o Monsenhor Paiva construiu uma capela em um terreno livre do museu, onde colocou as peças sacras originais da Fazenda do Pombal: as imagens de Nossa Senhora da Ajuda, Nossa Senhora do Carmo, São José de Botas e São Francisco, além do missal, do altar, de portais, da cômoda, do trono, do sino, de castiçais e de galhetas.
No tempo de Domingos e Antônia da Encarnação, a Fazenda do Pombal pertencia ao Termo de São João del-Rei e, posteriormente, a São José del-Rei (Tiradentes). Hoje, suas ruínas tombadas como patrimônio histórico pertencem ao município de Ritápolis, Minas Gerais.
O Berço de Tiradentes e as Funções Públicas de Domingos
Foi nos domínios da Fazenda do Pombal que nasceram os filhos do casal. Entre eles estava Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o futuro mártir da Inconfidência Mineira. O Pombal foi o berço daquele que morreria pela liberdade do nosso país — um lugar histórico do qual, infelizmente, hoje restam apenas as ruínas de pedra do engenho e os alicerces da casa colonial.
Além dos filhos biológicos, o grande coração de Domingos e Antônia abriu espaço para acolher mais uma vida na fazenda. No dia 29 de junho de 1748, na Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, foi batizada a menina Anna Ferreira. O assento paroquial registra de forma comovente a sua chegada:
"exposta na casa de Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier, em 29 de junho de 1748. Foram padrinhos Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier"
(Livro de batismos da Matriz N.S. do Pilar de S.J.Del Rei para 1742/1749, fls. 213v).
Anna foi acolhida e criada como uma verdadeira filha. Prova desse laço indissolúvel ocorreu décadas mais tarde, em meio à tempestade da Inconfidência Mineira. Segundo as preciosas anotações de um bisneto de bisneto de Maria Vitória de Jesus Xavier), Anna casou-se com Felisberto da Silva Gonçalves.
Em 25 de maio de 1789, em Vila Rica (atual Ouro Preto), no auge do pânico com a prisão dos inconfidentes, foi justamente Anna Ferreira a responsável por enfrentar as autoridades coloniais e fazer a entrega dos pertences de seu irmão, Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), por ocasião do sequestro dos bens dele. O ato dramático ocorreu na casa do Padre Francisco Ferreira da Cunha — o nome adotado pelo próprio Padre Domingos da Silva Xavier, irmão de Tiradentes, para tentar se proteger na antiga capital mineira.
Além de gerenciar os negócios da fazenda, meu 8º avô exercia funções públicas de destaque na colônia. No ano de 1746, ele atuava como Almotacel na Câmara da Vila de São José del-Rei, um cargo de prestígio equivalente ao de um inspetor encarregado da fiscalização de pesos e medidas. Foi justamente nesse ano de 1746 que nasceu o quarto filho do casal, o pequeno Joaquim José (Tiradentes). Mais tarde, por volta de 1755, Domingos também exerceu o cargo de vereador da vila.Outro ponto fora da curva para a época era a instrução do casal: tanto Domingos quanto Antônia sabiam ler e escrever perfeitamente. Eles faziam questão de priorizar a educação dos filhos. Graças a esse ambiente, Tiradentes cresceu dominando a leitura e a escrita melhor do que muitos letrados de seu tempo. Anos mais tarde, ao se envolver com os ideais republicanos, ele revirava livrarias atrás de dicionários e obras políticas, o que lhe rendeu o apelido de "gramaticão".
O Testamento na Cama e a Despedida de Antônia
O destino da família começou a mudar em 1751, quando Antônia da Encarnação ficou gravemente enferma devido a uma febre puerperal (uma infecção comum após o parto). Não há registros de um bebê sobrevivente naquele ano, o que indica que a criança provavelmente faleceu. Temendo a morte iminente, e com Domingos também adoentado, o casal decidiu redigir um testamento em comum. O tabelião da vila precisou ir até a casa onde estavam hospedados em São José del-Rei, encontrando os dois deitados na mesma cama para ditar as regras do documento.
Ambos sobreviveram àquela crise e Antônia ainda deu à luz outros filhos, incluindo a caçula Antônia Rita Xavier, minha 7ª avó. Porém, em 1755, as complicações de um novo parto e uma febre intermitente ceifaram a vida de minha 8ª avó. Ela faleceu com apenas 34 anos de idade, deixando sete filhos menores — o mais velho com 17 anos e a pequena Antônia Rita com pouco mais de 1 ano.
Apesar da partida precoce, Antônia deixou um espólio respeitável para a posteridade: 10:480$000 (dez contos e quatrocentos e oitenta mil réis), um excelente "pé-de-meia" que ficaria retido para os filhos até que atingissem a maioridade.
Dívidas, Créditos e o Labirinto dos Bens
De acordo com as pesquisas de Lucas Figueiredo, Domingos viveu o luto sozinho com as crianças por 46 dias, cuidando da mortalha, do enterro e das missas de corpo presente, até ser intimado pelo Juiz de Órfãos para realizar a abertura do testamento e o inventário dos bens.
O patrimônio era vistoso, mas vinha acompanhado de muitas dívidas. Domingos havia feito investimentos vultosos, como a construção da capela particular da fazenda e a compra de valiosas imagens sacras. Suas dívidas com as irmandades religiosas eram imensas: somente à Ordem Terceira de São Francisco ele devia cem mil réis em esmolas. O montante devido às entidades religiosas era suficiente para comprar 32 bois. Havia também contas pendentes no açougue, com o ferreiro, com compadres e amigos.
Por outro lado, Domingos também operava como uma espécie de agiota na região, emprestando dinheiro a dezenas de pessoas. Os créditos que ele tinha para receber de terceiros somavam um valor equivalente à compra de 27 cavalos.
O Testamento e os Segredos do Patriarca: O Mistério do Mulatinho
O testamento e o inventário de Domingos e Antônia da Encarnação foram redigidos em comunhão no ano de 1751, quando ela estava gravemente enferma, como já foi dito. No documento, eles não deixaram vontades excêntricas, limitando-se ao praxe de designar os filhos como herdeiros legítimos. Eles não estipularam um número fixo de missas em sufrágio de suas almas, deixando essa decisão a cargo de quem ficasse viúvo primeiro. Pediram, contudo, para serem sepultados na Capela da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, pois faziam parte dessa irmandade penitente.
Como último gesto de afeto à sua pátria natal, meu 8º avô Domingos também deixou algum “didim” para as suas três irmãs vivas que residiam em Portugal: Tereza, Luiza e Jerônima. Quanto aos bens arrolados, constavam: ouro em pó, objetos de prata, cobres, bens móveis, semoventes, imagens sacras de valor inestimável, duas casas em São José del-Rei, terras minerais, a própria Fazenda do Pombal e 35 escravizados — uma quantidade de cativos que superava de longe a média local.
No entanto, o testamento guarda detalhes intrigantes e mistérios familiares. Domingos declarou legalmente ter tido uma filha de nome Clara quando ainda era solteiro. Além dela, há fortes suspeitas históricas de que ele tenha sido pai de um menino mulato, filho de uma de suas escravizadas já alforriada, chamada Izabel. O testamento traz o registro de uma esmola ou quinhão deixado a um "mulatinho", o que alimentava as "más línguas" da época sobre a paternidade de Domingos. Relatos contam que esse menino era o companheiro inseparável de Tiradentes durante a infância na fazenda e que, anos mais tarde, teria viajado ao Rio de Janeiro para assistir, em meio à multidão, ao enforcamento do irmão.
O Enigma de Anna Ferreira: A Filha de Criação
Se até o mulatinho recebeu um quinhão de esmola no testamento, torna-se difícil entender, à primeira vista, por que a menina Anna Ferreira ficou de fora do inventário de bens. Batizada no dia 29 de junho de 1748 na Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, o assento paroquial registra de forma comovente a sua condição:
"exposta na casa de Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier, em 29 de junho de 1748. Foram padrinhos Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier"
(Livro de batismos da Matriz N.S. do Pilar de S.J.Del Rei para 1742/1749, fls. 213v).
Sendo uma criança "exposta" (deixada na porta da família), Anna foi acolhida e criada com todo o afeto como uma verdadeira filha, tendo os próprios pais adotivos como padrinhos. Por não ser filha biológica e legítima, as leis coloniais não a incluíam automaticamente como herdeira necessária no inventário principal — o que explica sua ausência na partilha oficial dos bens.
Mesmo sem herança financeira, o laço de criação e amor falou muito mais alto do que o sangue. Anna casou-se com Felisberto da Silva Gonçalves — segundo as preciosas anotações de um bisneto de Maria Vitória de Jesus Xavier) — e guardou uma lealdade inabalável à família.
No dia 25 de maio de 1789, em Vila Rica (atual Ouro Preto), em meio ao terror do confisco dos bens dos inconfidentes, foi justamente a "irmã de criação" Anna Ferreira a responsável por enfrentar os oficiais da Coroa e fazer a entrega dos pertences de seu irmão Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes). O ato de bravura ocorreu na casa do Padre Francisco Ferreira da Cunha — o codinome adotado pelo Padre Domingos da Silva Xavier, irmão de Tiradentes, para tentar se proteger na antiga capital mineira.
"Tá ruim? Pode piorar": A Orfandade Completa
Sozinho e endividado, Domingos, viúvo desdobrou-se para administrar a Fazenda do Pombal e criar os sete filhos menores. Mas o que já estava difícil tornou-se trágico. Apenas dois anos depois, em 12 de dezembro de 1757, o patriarca também faleceu.
Nem bem as crianças haviam colado os cacos da perda da mãe, viram-se completamente órfãs. A responsabilidade de manter a família unida caiu sobre os ombros de Maria Vitória que, com meros 14 anos de idade, teve que assumir a criação dos irmãos mais novos (incluindo o futuro Tiradentes e a minha 7ª avó). Dois anos depois, Maria Vitória casou-se na esperança de aliviar o fardo, mas a realidade da vida colonial e a chegada de seus próprios filhos tornaram a jornada daquela jovem e de seus irmãos ainda mais árdua.
O Destino dos Órfãos e o Caminho da Inconfidência
Apesar da dor da perda precoce dos pais, a vida seguiu em frente aos trancos e barrancos. Os filhos menores passaram a ver-se deslocando entre a casa de tios e os cuidados da irmã mais velha Maria Vitória. Com o tempo, José e Eufrásia seguiram o caminho do matrimônio. José, no entanto, antes de se casar, estudou no Seminário de Mariana, mas não seguiu a carreira eclesiástica como os outros dois irmãos clérigos. Tornou-se fazendeiro e ingressou nas milícias coloniais, alcançando o posto de Capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de São José (atual cidade de Tiradentes).
Quanto ao quarto filho, Joaquim José da Silva Xavier — o futuro Tiradentes —, com apenas 11 anos de idade ficou sob a estrita tutela de seu padrinho, Sebastião Ferreira Leitão. Ao longo de sua vida, Joaquim José atuou como tropeiro, minerador, comerciante e dentista prático — função que lhe rendeu o famoso apelido. Na carreira militar, chegou a alferes e comandou a patrulha do Caminho Novo. Por fim, tornou-se o principal propagandista da Inconfidência Mineira, movimento separatista contra a Coroa Portuguesa, que culminou em seu enforcamento e esquartejamento na manhã ensolarada de 21 de abril de 1792.
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| Batismo transcrito de Tiradentes |
A história dos irmãos padres de Tiradentes guarda curiosidades impressionantes e dramáticas que mostram o impacto da tragédia na família:
- O drama do Padre Antônio: O Padre Antônio da Silva dos Santos acabou fugindo da Capela da Ressaca em uma tarde de 1792. O motivo foi aterrorizante: um soldado do Império chegou ao local trazendo um dos braços de seu irmão, Tiradentes. Por ordem da Coroa Portuguesa, os pedaços do mártir deveriam ser pendurados em postes pelas cidades inconfidentes, e o braço seria exposto justamente na porta da igreja do Padre Antônio. Diante do horror, ele partiu para Barbacena (MG), onde comprou terras e fundou a Fazenda do Castelo. Mais tarde, deixou essa propriedade de herança para seu sobrinho, Domingos Gonçalves de Carvalho, esposo de Maria Vitória (filha de Domingos e Antônia).
- A fuga do Padre Domingos: O Padre Domingos da Silva Xavier também protagonizou uma fuga impressionante, mas por motivos financeiros. Documentos históricos provam que, por volta de 1784, ele fugiu para Cuiabá (Mato Grosso) tentando escapar de pesadas dívidas que acumulou em Minas Gerais. Vivendo sob o nome falso de Joaquim José Ferreira, ele escondeu sua condição de clérigo e trabalhou ilegalmente na região centro-oeste como comerciante e advogado prático (procurador). A farsa durou até o ano de 1790, quando foi preso por suas dívidas comerciais e acabou confessando sua verdadeira identidade na cadeia de Cuiabá.
- 👉Documento de investigação para habilitação dos filhos de domingos à carreira Eclesiástica.
A minha 7ª avó, Antônia Rita de Jesus Xavier, permaneceu sob os cuidados da irmã Maria Vitória até os 14 ou 15 anos. Depois, passou a morar com seu irmão, o Padre Antônio, que acabou arranjando o casamento dela com o português Francisco José Ferreira de Souza, que trabalhava como caixeiro em seu estabelecimento comercial. O Destino da Fazenda do Pombal e os Nós da Herança
Ao que tudo indica, após o casamento de Maria Vitória com o Alferes Domingos Gonçalves de Carvalho, o casal permaneceu residindo na Fazenda do Pombal. É muito provável que Domingos Gonçalves tenha assumido as pesadas dívidas deixadas pelo sogro, tornando-se, assim, o novo proprietário das terras.
Documentos da época comprovam uma manobra jurídica e eclesiástica comum na colônia: o Alferes Domingos Gonçalves doou uma porção da propriedade, chamada de Moinho Velho, ao seu cunhado, o Padre Antônio da Silva dos Santos. Essa doação de terras era uma exigência da Igreja (o chamado "patrimônio") para que o jovem pudesse se ordenar padre. A condição imposta era de que, no futuro, o Padre Antônio deixasse esses mesmos bens como herança para os filhos de Domingos Gonçalves.
Contudo, a roda da fortuna girou e o Alferes Domingos acabou acumulando muitas dívidas. Para saná-las, ele vendeu a Fazenda do Pombal para o seu cunhado, José da Silva Santos (também irmão de Tiradentes). Com essa venda, a doação original que havia sido feita ao Padre Antônio precisou ser repassada aos herdeiros de José da Silva Santos, e não mais aos filhos de Domingos Gonçalves.
Para compensar essa reviravolta, e por nutrir um imenso apreço por seu sobrinho — o Guarda-Mor Domingos Gonçalves de Carvalho (filho do Alferes) —, o Padre Antônio o instituiu como seu herdeiro universal. Foi assim que o sobrinho recebeu a famosa Fazenda do Castelo, a propriedade que o padre fundou em Barbacena (MG) após fugir do horror da execução de Tiradentes.
Quanto à valente Maria Vitória, que assumiu os irmãos na orfandade, ela faleceu seis anos após o martírio de Tiradentes. Sua despedida ocorreu em 1º de fevereiro de 1798, sendo sepultada na Igreja Franciscana de São João del-Rei.
Nos dias atuais, a Fazenda do Pombal pertence ao patrimônio público. A propriedade foi adquirida pelo Ministério da Agricultura em 1948 e, hoje, o sítio histórico e reserva ecológica é tombado pelo IPHAN e administrado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).
A Descendência de Domingos e Antônia: Os Filhos
Em suma, a linha de descendência e criação estabelecida pelos meus 8ºs avós consolidou-se com os seguintes nomes:
- Padre Domingos da Silva Xavier (que usou o codinome de Padre Francisco Ferreira da Cunha e o nome falso de Joaquim José Ferreira).
- Maria Vitória de Jesus Xavier, casada com o Alferes Domingos Gonçalves de Carvalho. (Desta união descenderia o Dr. Major Germano Chaves Tiradentes).
- Padre Antônio da Silva dos Santos.
- Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes - mártir da Inconfidência Mineira e Patrono Cívico do Brasil).
- José da Silva Santos, casado com Joaquina de Proença Goes e Lara e, depois, com Joana Maria de São José.
- Eufrásia Maria da Conceição, casada com Custódio Pereira Pacheco.
- Antônia Rita de Jesus Xavier (minha 7ª avó), casada com Francisco José Ferreira de Souza.
- Anna Ferreira (Filha de Criação), exposta na casa do casal em 1748 e casada com Felisberto da Silva Gonçalves.
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