Manuel Paim da Câmara e Apolônia de Merens Pamplona

 

 


  PS.:

O Gráfico acima refere-se aos meus ancestrais (8º avós ou octavós) pelo lado de meu avô paterno Fortunato Machado Rocha (conhecido como Natim) e o avô materno Aristeu Machado Rocha.  O ponto de partida é o pai de ambos Antônio Bonifácio Machado. Nessa sequência siga o gráfico na primeira linha superior.

 


 Manuel Paim da Câmara e Apolônia de Merens Pamplona

 

Manuel Paim de Câmara, meu 8º avô, nasceu na Freguesia de Santa Cruz, município Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores, Portugal. Provavelmente nasceu em junho de 1678, pois consta que ele foi batizado no dia 11 de junho desse ano de 1688, nessa mesma localidade. Ele faleceu com apenas 30 anos ( embora na certidão de óbito conste 40 anos) de idade nessa mesma localidade no dia 24 de fevereiro de 1718 e foi sepultado na igreja de São Francisco. Como ocupação exercia o cargo de Alferes das Ordenanças, que, no contexto histórico de Portugal e suas colônias, referia-se a um sistema de milícia territorial que existiu entre os séculos XVI e XIX. Essas forças eram compostas por homens locais, obrigados a servir militarmente, e tinham a função de manter a ordem interna e defender o território. Manuel, meu 8º avô era filho de João Mendes de Vasconcelos e Tomásia de Sousa.

A Origem e o Prestígio do Sobrenome de Manuel Paim de Câmara
O nome do primeiro esposo de Apolônia, Manuel Paim de Câmara, carrega o peso de duas das linhagens mais influentes da história e da aristocracia dos Açores. O sobrenome Câmara possui origem institucional e remonta a João Gonçalves Zarco, o descobridor da Ilha da Madeira, cuja descendência adotou o apelido devido ao cargo de governança e à "Câmara" administrativa que lideravam, expandindo-se mais tarde para a Ilha Terceira. Já o sobrenome Paim traz uma história fascinante que remonta ao século XIV. O primeiro da linhagem a chegar a Portugal foi o fidalgo inglês Chomaly Paym, que desembarcou em 1387 como secretário particular e homem de extrema confiança na comitiva de Dona Filipa de Lencastre, a nobre inglesa que se casou com o rei Dom João I. Pela proximidade de suas funções na corte, a tradição oral e a semelhança sonora eternizaram o significado popular de Paim como "aquele que pageia a rainha". Na Praia da Vitória, a união dessas duas casas nobres sob o nome Paim de Câmara representava uma elite de grande poder político e econômico, detentora de vínculos, morgadios e capelas institucionais na comunidade.

 

Transcrição do Registro de Batismo de Manuel

 

Em os onze dias do mes de Junho de mil seis centos oitenta e oito annos. Baptizei a Manoel filho de Joam Mendes de Vasconcellos, e sua m.[ulh]er Thomasia de Souza. Foy seu Padrinho o Licen[cia]do Balthazar Cardoso Machado. de q.[ue] p.[ar]a q’ [que] conste fiz este termo die mense era ut supra

Cura Manoel Cardozo Mach.[ad]o

 

  Transcrição do registro de óbito de Manuel

Em os vinte e quatro dias do mez de Fevereiro do anno de mil sete centos e desouto faleceo da vida presente Manoel Paim marido de D. Apolonia moradores em Bello Jardim, fregues[ia] desta Mattriz, de idade de quarenta annos pouco mais ou menos, com todos os Sacram[ent]os, não fez testamento, ficou sua mulher de lhe mandar fazer hum officio em esta Mattriz de anno,e de mez, e que peça elle pella sua alma. Esta sepultadoem a Igreja de Sam Franc[is]co desta Villa; p[ara] constar fiz este termo, q[ue] assigno, dia, mez, & anno ut sup[ra].

O Vig[ari]o Joam Vieira Roza

 

 

Registro de Batismo de Manuel Paim- área circulada

 

Registro de óbito de Manuel- parte I - área circulada

 

Registro de óbito de Manuel parte II- área circulada

 


Apolônia de Merens Pamplona, esposa de Manuel, e minha 8ª avó, nasceu também na Freguesia de Santa Cruz, município Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores, Portugal, provavelmente em outubro de 1683, pois consta que foi batizada no dia 22 de outubro desse ano. Ela faleceu em 23 de agosto de 1756 nessa mesma localidade e foi enterrada na Igreja de São Francisco. Era filha de Lucas Fernandes Linhares e a Marquesa Merens Pamplona. 

Uma curiosidade sobre o nome da mãe e avó de  Apolônia: O nome e o sangue de Marquesa Merens Pamplona

Ao contrário do que o nome sugere, "Marquesa" não era um título de nobreza, mas sim o nome próprio de batismo da mãe e da bisavó de Apolônia de Merens Pamplona, minha 8ª avó. No Antigo Regime, era comum que famílias da fidalguia açoriana utilizassem nomes honoríficos para denotar fidalguia e afirmar o status da linhagem feminina.
Juntavam-se a este prenome os imponentes apelidos Merens — sobrenome de origem flamenga (originalmente Meyrens) trazido por colonos nobres do norte da Europa que se fixaram na Ilha Terceira entre os séculos XV e XVI — e Pamplona, de forte estirpe militar e latifundiária originária de Navarra.
No entanto, carregar esse nome orgulhoso não significava viver em berço de ouro. Devido à cruel Lei do Morgadio — que deixava quase toda a fortuna familiar concentrada no filho homem mais velho —, as mulheres da família frequentemente herdavam apenas o prestígio social.
Essa realidade ficou marcada na história da própria linhagem: em um reflexo claro dessa dinâmica da época, a bisavó de Apolônia, a primeira Marquesa, foi deixada com um amparo no testamento de seu irmão rico, Manuel Vieira Pamplona, que justificou deixar-lhe uma quantia formalmente por ela "ser pobre", por não possuir rendas próprias para manter o seu status aristocrático.
Assim, o nome repetido de geração em geração funcionava como uma preciosa herança simbólica de sangue e resiliência, preservada mesmo quando o ramo da família passou a viver de forma mais modesta no meio rural açoriano, antes que seus descendentes cruzassem o Atlântico rumo ao Brasil.
 

Transcrição registro de batismo de Apolônia (Fiel ao original)

[Margem]: Apollonia

[Texto Principal]: Em os vinte dous dias do mes de Outubro de mil seis centos e oitenta e tres Annos Baptizou de minha licença o P.e [Padre] Fran.co [Francisco] Pamplona Cura do Lugar das Lagens a Apollonia filha de Lucas Frz [Fernandes] Linhares e de sua m.er [mulher] Marqueza Merens Pamplona. Foram padrinhos Mel [Manoel] Frz [Fernandes] e Maria dos Anjos, filhos de Manoel Frz [Fernandes], moradores na Casa da Ribeira desta Matrix Freguezia de q [que] para constar fiz este termo era ut supra.

 

Registro do Batismo de Apolônia- área circulada
  
 
 
Transcrição do Registro de Óbito de Apolônia
 
"Aos vinte e três dias do mês de agosto do ano de mil setecentos cinquenta e seis, faleceu da vida presente Apolonia, mulher de Mathias da Costa, de idade de setenta anos, pouco mais ou menos; recebeu o Sacramento da Penitência, e não recebeu os mais por morrer apressadamente; foi seu corpo envolto em hábito de São Francisco, acompanhado de quatro religiosos do Colégio desta Vila, com assistência de todas as três Confrarias das Almas e missas de São João Evangelista e Baptista. Está sepultada em sepultura da Fábrica, junto ao Altar de Nossa Senhora, à mão direita indo para cima; e para constar fiz este termo e assinei, era ut supra. Vice-Vigário Jose Coelho Sottomayor." 
 
 Sobre o sepultamento de Apolônia, vale entender alguns detalhes interessantes:
  1. A Orientação Geográfica do Texto ("a mão direita para cima"): Na arquitetura das igrejas católicas coloniais, "para cima" significa caminhar em direção ao presbitério (a Capela-Mor). Ao entrar pela porta principal da Matriz de Santa Cruz e caminhar em direção à Capela-Mor, o altar que fica localizado na ala lateral direita (lado da Epístola), imediatamente encostado à Capela-Mor, é historicamente a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Logo, foi ali que minha 8ª avó, Apolônia, foi sepultada.
  2. O privilégio do Sepultamento na Fábrica: O documento cita que ela foi sepultada em uma "Sepultura da Fábrica". No século XVIII, as sepulturas controladas pela Fábrica da Igreja que ficavam localizadas dentro das capelas colaterais (laterais ao altar-mor) eram os espaços mais caros e prestigiosos. Na Matriz de Santa Cruz, esse espaço nobre à direita era justamente a capela institucionalizada pela Confraria de Nossa Senhora do Rosário.
  3. A outra opção disponível (Nossa Senhora da Conceição): A Capela de Nossa Senhora da Conceição possuía o seu altar posicionado do lado esquerdo (lado do Evangelho), o que não bate com a descrição física exata de "mão direita indo para cima" descrita pelo Vigário Sottomayor."
 
 
Registro de óbito de Apolônia- área circulada
  
 

 Manuel e Apolônia, meus 8º avós, se casaram no dia 16/02/1708 na Igreja Matriz de Santa Cruz, pertencente à Paróquia de Santa Cruz em Vila da Praia. Manuel com 17 anos e Apolônia com 22 anos. Conforme certidão de óbito de Manuel, eles viviam na localidade de Bello Jardim, uma aldeota na Freguesia de Santa Cruz, Praia da Vitória. 

O casamento de Manuel e Apolônia durou apenas 10 anos, período em que tiveram seis filhos, entre eles, Josefa Paim Pamplona, a quarta filha do casal e minha 7ª avó, casada com Antônio Machado Fagundes.

 Transcrição do registro de casamento de Manuel e Apolônia

[Página 1 - Início do Registro]: 

Em os dezasseis dias do mes de Fevereiro do anno de mil sete centos e coito nesta Matrix de N. Sra da Vila da Praia Ilha Terceira, feitas as denunciações na forma do Sagrado Concilio Tridentino sem se descobrir impedimento algum... [o Cura] casou solenemente por palavras de presente a Manuel Paim... filho de João Mendes de Vasconcelos e de sua mulher Tomásia de Sousa... com Apolónia de Merens...

[Página 2 - Conclusão do Registro]:

...Apolónia de Merens Pamplona, filha de Lucas Fernandes Linhares e de sua mulher Marqueza de Merens de Castro, naturais da dita Cidade e moradores na dita freguesia desta Matriz. Foram por testemunhas... António de Bettencourt de Vasconcelos... e João dos Reis Antunes natural da Ilha de Santa Maria... e o Capitão Francisco Paim de Aguiar morador na Matriz da Vila de S. Sebastião. De que para constar mandei fazer este termo...

O Cura Manoel Machado de Aguiar

 

Registro de casamento de Manuel e Apolônia- área circulada

 

 

Fachada principal da Igreja Matriz de Santa Cruz, na Praia da Vitória (Ilha Terceira, Açores), um templo quinhentista que ostenta marcas de resiliência. Embora mantenha os seus imponentes portais de estilo manuelino originais, a estrutura que vemos hoje é o reflexo de profundas reconstruções e restauros motivados por sucessivas catástrofes naturais. O impacto mais devastador ocorreu no sismo de 1614, conhecido como a "Primeira Caída da Praia", que deitou por terra grande parte da vila e exigiu a reedificação do templo. Ao longo dos séculos, a igreja resistiu e foi novamente reformada após os terramotos de 1801, 1841 e 1980, além de ter superado a inundação provocada pelo maremoto de 1755. Foi nessa Igreja que Manuel e Apolônia se casaram e onde Apolônia foi sepultada.

 

 Quando Manuel, meu 8º avô faleceu, deixou filhos pequenos, inclusive minha 7ª avó Josefa tinha apenas 6 anos. Menos de um ano depois de enviuvar-se, Apolônia, minha 7ª avó, casou-se novamente por volta de 1719 com Matias da Costa Fagundes. Não foi possível encontrar o registro desse casamento. Com Matias, Apolônia, teve ainda mais três filhos, dois dos quais vieram para Minas Gerais, Brasil, por volta de 1750, o Tomás e o Francisco que se estabeleceram na região da Comarca do Rio das Mortes, nas localidades de Ressaca e Passa Tempo.

 O segundo matrimônio de D. Apolónia de Merens Pamplona com Matias da Costa Fagundes, celebrado por volta de 1719 em Praia da Vitória, representou uma união fundamental de amparo prático e sobrevivência em um cenário de profunda vulnerabilidade. Ao enviuvar precocemente em fevereiro de 1718 de Manuel Paim da Câmara, Apolónia encontrou-se sozinha à frente das terras de Belo Jardim e encarregada da criação de seis filhos menores — entre os quais estava Josefa, minha sétima avó, que contava com apenas seis anos de idade quando perdeu o pai. Diante das severas restrições jurídicas e sociais que a época impunha às viúvas, a chegada de Matias à estrutura familiar assumiu um papel providencial de tutela e proteção. Mais do que um novo consorte, Matias tornou-se o guardião legítimo dos órfãos daquela casa, oferecendo o sustento material, a segurança legal e a estabilidade necessários para que os filhos de Manuel Paim da Câmara crescessem protegidos e levassem adiante o sangue e a linhagem de minha família até os dias de hoje.

 

 

O Cenário de Santa Cruz e Belo Jardim no Século XVIII

Viver na Paróquia de Santa Cruz da Vila da Praia e na região rural circundante de Belo Jardim, na Ilha Terceira, significava fazer parte de um dos pontos mais estratégicos e férteis dos Açores.

  • O Período de Manuel (1708–1718): Quando Manuel faleceu, a Vila da Praia ainda carregava na sua memória urbana e na lenta reconstrução as marcas de sismos do passado, mas mantinha intacta a sua importância militar e comercial. A região era impulsionada por uma forte atividade agrícola baseada no cultivo do trigo e do milho, fundamentais para o abastecimento do arquipélago e do continente, além da intensa movimentação em torno do seu porto. O ambiente era de uma comunidade profundamente religiosa, com o cotidiano ditado pelos sinos da Igreja Matriz de Santa Cruz e pela forte presença da aristocracia local que dominava as terras. 
  • O Período de Apolônia (c. 1756, ano da morte): Próximo ao ano do falecimento de Apolónia, a ilha vivia sob o impacto psicológico e material do terrível maremoto subsequente ao Grande Terramoto de Lisboa de 1755. Nesse contexto, Belo Jardim, com as suas terras férteis e altitude privilegiada voltada para a baía, consolidava-se não apenas como um refúgio bucólico e agrícola pontuado pelas quintas das famílias abastadas, mas também como um local de segurança geográfica, protegido das fúrias do mar que assolavam a costa baixa.
  •  O Impacto do Maremoto de 1755 em Santa Cruz: No dia 1 de novembro de 1755, a calmaria da região foi abruptamente interrompida pelo maior tsunami da história dos Açores. Como o desastre na Terceira foi estritamente marítimo, a altitude de Belo Jardim garantiu a segurança física absoluta de Apolónia, de seu esposo Tomás, de suas habitações e colheitas. No entanto, o impacto psicológico foi profundo: lá do alto da encosta, o casal assistiu impotente ao mar recuar de forma bizarra para depois avançar com ondas monumentais de até 15 metros de altura sobre a paróquia costeira de Santa Cruz. A força das águas invadiu as ruas da vila baixa, destruiu fortificações, arrastou habitações à beira-mar e ceifou a vida de seis moradores. Embora resguardados na colina, Apolônia, minha 8ª avó, e Tomás viram o seu mundo comunitário ser totalmente transformado pelo luto e pela destruição do porto vizinho nos seus últimos meses de vida.

  Para se situar no contexto onde viviam esses meus 8º avós, acesse os links abaixo: 

👉 Santa Cruz, Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores, Portugal 

 


 

 

Santa Cruz, Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores, Portugal

 

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ÍNDICE E APRESENTAÇÃO

8º avós ou octavós pelo lado de meus avós Fortunato Machado Rocha ( Natim), avô paterno e Aristeu Machado Rocha, avô materno, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) e Lídia Fernandes Rocha

3º avós ou trisavós pelo lado de vovô Fortunato (Natim) e vovô Aristeu, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado e Lídia Fernandes Rocha, bem como 3º avós pelo lado de Valdomira Barbosa sucupira, esposa de Fortunato Machado Rocha ( Natim) e 3º avós pelo lado de Divina Frutuoso Soares, esposa de Aristeu Machado Rocha