José Machado de Miranda e Rita Carolina de Jesus
PS.: O Gráfico acima refere-se aos meus ancestrais (4º avós ou tataravós) pelo lado de meu avô paterno Fortunato Machado Rocha (conhecido como Natim) e o avô materno Aristeu Machado Rocha. O ponto de partida é o pai de ambos Antônio Bonifácio Machado. Nessa sequência siga o gráfico na quinta linha de cima para baixo.
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José Machado de Miranda e Rita Carolina de Jesus
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José Machado de Miranda, meu 4º avô, e que é o avô de Antônio Bonifácio Machado, o famoso vovô Tõe, nasceu em 1817 em Lagoa Dourada, Minas Gerais, provavelmente na Fazenda Monte Alegre, pertencente a seus pais, na comunidade de Curralinho dos Machados. Foi batizado no dia 29 de outubro de 1817 na Capela Nossa Senhora da Lapa de Olhos D’Água, cuja distância do Curralinho, onde fica a Capela Senhor Bom Jesus dos Perdões, é em torno de 23 km, seguindo a pé ou a cavalo. Essa capela ficava justamente na Fazenda Olhos D’Água de propriedade do Padre Gonçalo Ferreira da Fonseca, que realizou o batizado e que era o capelão dessa Igreja naquele tempo. Vale frisar que essa simples e bela capelinha fica solitária na Serra do Camapuã, zona rural, no caminho Religioso da Estrada Real, há 18 km de Entre Rios, Minas Gerais.
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| Capela Nossa Senhora da Lapa de Olhos D'Água- detalhe dos muros de pedra e do cemitério no entorno |
Sobre a Capela Nossa senhora da Lapa de Olhos D’água, onde meu 4º avô José Machado de Miranda foi batizado, já foi dito algo sobre ela na pág. 80, porém vale acrescentar que foi encontrado nessa capelinha um caibro com a data de 1683 o que comprova que foi construída no século XVII. Sobre a história dessa Capelinha, conta-se que os portugueses que estavam a caça do ouro na região, construíram no lugar onde é a capela, uma casa de pedra para se protegerem dos índios. A capela situava-se nas imediações de um dos principais caminhos que ligava São João Del Rei à região de Vila Rica, Caminho Velho da Estrada Real. A capela fica a mais ou menos 23 km do Curralinho dos Machados, onde fica a Capela Senhor Bom Jesus de Perdões. Como já dito antes, a Capela está situada na Fazenda Olhos D’Água, que naquele tempo pertencia ao padre Gonçalo Francisco Ferreira, que era Capelão por volta do início do século XIX e que batizou meu 4º avô José Machado.
Os pais de meu 4º avô José Machado de Miranda, devem ter percorrido os 23 km de Curralinho à capelinha a cavalo para levar o primeiro filho para batizar. Sol quente de outubro em meados de primavera; estradas sinuosas, ladeadas de matas, capoeiras e vales, e lá no monte cercada por muros de pedra, a capelinha de sorriso aberto, pronta para receber quem viesse pelo Caminho Velho da Estrada Real. Na porta o Padre Gonçalo esperando... Seria dia de festa? Teria feito o sino badalar e o eco repercutido por aqueles rincões ermos? Teria vindo ele de sua fazenda caminhando pela estrada de cascalho? A batina esvoaçando no ritmo dos seus passos apressados e do vento... É possível imaginar também, minha 5ª avó Maria Joaquina entregando o filho a alguma escrava e depois descido do cavalo com a ajuda de meu 5º avô Joaquim e ajeitando a saia comprida adentrado na Igrejinha com o primogênito nos braços. Olha eu fantasiando...
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| Parte do livro onde consta o registro de batismo de José Machado de Miranda, meu 4º avô |
Meu 4º avô José Machado de Miranda faleceu no dia 16 de julho de 1883, uma segunda-feira, em Abadia dos Dourados, Minas Gerais, provavelmente na Fazenda da Lacraia, onde vivia. Sobre essa fazenda não se sabe se ainda existe, porém, existe um Rancho de nome Lacraia às margens do Rio Preto naquelas paragens. José Machado era filho de Joaquim Fernandes de Miranda e Maria Joaquina da Silva, já citados em 5º avós. Só relembrando: Joaquim era filho da neta de Helena Maria de Jesus, a Ilhoa, e minha 8ª avó e Maria Joaquina era neta da irmã mais nova de Tiradentes, Antônia Rita de Jesus Xavier, minha 7ª avó. Logo José Machado era bisneto de Antônia Rita e Helena Maria.
Ao longo de sua vida, Jose Machado de Miranda, meu 4º avô, se casou três vezes. A primeira vez com Maria José, mas não tiveram filhos e também não há dados sobre ela. É possível deduzir que faleceu bem jovem por complicações de parto. Isso era comum naquele tempo. Tendo se enviuvado, José Machado, meu 4º avô, casou-se novamente, desta vez, com Rita Carolina de Jesus, minha 4ª avó, legítima, provavelmente por volta de 1846, pois em 1847, já consta o primeiro filho do casal, o meu trisavô Bonifácio Machado de Miranda, pai de meu bisavô Tõe. Ao que tudo indica, José Machado tinha na época 29 anos. Tendo se enviuvado de Rita Carolina de Jesus em 1864, casou-se a terceira vez, agora com Rita Justina de Jesus, provavelmente em 1866, pois em 1867 já consta o primeiro filho do casal. Por esse tempo meu 4º avô já tinha 49 anos. Percebe-se que naquele tempo a fila andava. Mais por necessidade, imagino, pois, o cônjuge viúvo ficava sempre com filhos pequenos para cuidar. E geralmente muitos filhos. Um novo casamento resolvia muitos problemas. Se era mulher era preciso encontrar um novo provedor para a família. O casamento era a principal forma de garantir proteção, sustento e apoio para si e seus filhos. Se era homem, era preciso encontrar uma cuidadora da família, ou seja, era preciso garantir o cuidado doméstico. Enfim...
Rita Carolina de Jesus, segunda esposa de José Machado de Miranda e minha 4ª avó legítima, nasceu provavelmente em Abadia dos Dourados, Minas Gerais, aproximadamente em 1820. Ela faleceu no dia 14 de fevereiro de 1864, um domingo, em Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Seu inventário foi iniciado apenas em 12 de setembro de 1865 e findo em 1866. Na época do inventário, o seu esposo José Machado de Miranda tinha 48 anos. Ela era filha de João Pereira Machado e Joaquina Leocádia de Jesus sobre os quais não há dados.
Rita Justina de Jesus, terceira esposa de meu 4º avô José Machado de Miranda, consta apenas que nasceu em 1846, pois em 1883 quando seu esposo faleceu ela tinha 37 anos. Não há outros dados. Provavelmente nasceu e faleceu em Abadia dos Dourados. Ela devia ter 20 anos quando se casou, praticamente a mesma idade do filho mais velho de meu 4º avô. Esse filho era o Bonifácio Machado de Miranda, pai do vovô Tõe como já dito. José Machado de Miranda tinha 49 anos quando se casou com Rita Justina de Jesus com quem teve cinco filhos. Ele era 30 anos mais velho que a esposa. Esse casamento garantiu o cuidado doméstico da família e o aumento da prole de meu 4º avô.
Sobre a localidade onde meu 4º avô José Machado de Miranda nasceu, vale repetir que Curralinho dos Machados é uma comunidade que pertence à Paróquia de Santo Antônio de Lagoa Dourada, Minas Gerais e fica a 26 km da mesma. Acredita-se que o nome se deve ao fato do Patriarca Antônio Machado de Miranda ter vivido no local com sua família e fundado a fazenda Monte Alegre, bem como a capela Senhor Bom Jesus de Perdões. Enfim continua até hoje a tradição de celebrar o Senhor Bom Jesus dos Perdões nessa capela todos os anos. Quanto à fazenda Monte Alegre, ao que tudo indica não existe mais. Há algumas construções no entorno da Capela, que acredito, não ter nada a ver com a antiga fazenda.
👉Sobre Curralinho dos Machados, Minas Gerais
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Localidade Curralinhos dos Machados, Minas Gerais- imagem Google maps- detalhe da igreja do Senhor Bom Jesus dos Perdões do lado direito. |
Sobre minha 4ª avó Rita Carolina de Jesus, antes de se casar com meu 4º avô José Machado de Miranda, já era viúva, tendo sido casada com Clemente Lopes de Souza, com quem teve uma filha, Joaquina Leocádia de Jesus nascida em 1843, mesmo nome da avó, mãe de Rita. Ainda com a filha pequena, talvez entre 2 ou 3 anos, casou-se com meu 4º avô José Machado de Miranda também viúvo como já dito. Quando Rita Carolina faleceu em 1865 essa filha tinha 22 anos. Interessante frisar que essa sua filha Joaquina Leocádia era casada com Antônio Machado de Miranda que tinha o dobro de sua idade e era irmão de José Machado de Miranda, esposo de sua mãe Rita Carolina. Uma trama bem urdida que chega a confundir.
Bem, Joaquina Leocádia e Antônio Machado viveram em Coromandel, Minas Gerais, na época Sant’Ana do Pouso Alegre de Coromandel, pois consta que ele faleceu nessa localidade em 1868, deixando 2 filhos pequenos Joaquim Machado de Miranda de 4 anos e Maria de 2 meses. Conforme dados de inventário, Joaquina Leocádia, filha de Rita Carolina, minha 4ª avó, casou-se novamente, dessa vez, com Antônio Joaquim de Assunção que também era viúvo e já tinha 4 filhos, sendo a filha mais nova com 17 anos. Portanto, Antônio, o segundo esposo, era bem mais velho que Joaquina Leocádia. Pelo visto ela gostava de homens mais velhos já que o primeiro marido também tinha o dobro da idade dela. Talvez ela visse nos esposos a figura do pai que perdera muito novinha. De qualquer forma, naquele tempo, tudo era uma questão de “arranjo” para facilitar a vida das pessoas.
Bem, com esse Antônio Joaquim de Assunção, Joaquina Leocádia teve apenas um filho de nome Antônio, que em 1876, quando o pai faleceu, tinha apenas 2 anos de idade. Eles tinham partes de terras em várias localidades, mas viviam na Fazenda do Porto do Gabriel no Paranaíba, então distrito de Coromandel, Minas Gerais. Frisando que Gabriel a que esse Porto se refere, provavelmente era meu tataravô e bisavô da Vovó Valdomira, mãe de meu pai Acenion que vivia naquelas paragens de lagamar dos coqueiros.
Quando Antônio Joaquim faleceu, deixou testamento e manifestou o desejo de ser enterrado na Igreja Sant’Ana no então distrito de Coromandel, Minas Gerais. Nos arredores da igreja ainda existia um cemitério. Vale frisar também que Antônio Joaquim era irmão de João José de Assunção, aquele que faleceu apenas 5 dias depois do falecimento de sua esposa Maria Rosa, que era irmã do primeiro marido de Joaquina Leocádia e do marido de sua mãe Rita Carolina, minha 4ª avó, casada com meu 4º avô José Machado de Miranda. Uma história bem complicada, mas é interessante saber que naquele tempo a vida tinha também suas reviravoltas e as pessoas iam se virando como podiam e seguindo em frente com seus arranjos que iam tornando a vida mais leve, talvez. Mal um era levado à cova, outro tomava o lugar. Como dito antes: as mulheres casavam-se novamente para ter quem as amparasse e os homens para ter quem cuidasse dos inúmeros filhos que ficavam e da casa.
Então, voltando agora à Rita Carolina de Jesus, mãe de Joaquina Leocádia: depois que se enviuvou de Clemente Lopes de Sousa, se casou com José Machado de Miranda, meu 4º avô com quem teve 8 filhos. Quando Rita Carolina faleceu, seu filho, meu trisavô Bonifácio Machado de Miranda tinha apenas 16 anos. O filho mais novo era uma bebê que tinha apenas 2 meses e se chamava Maria Rosa, o mesmo nome da tia falecida no dia 1 de janeiro em 1860, irmã de José Machado de Miranda. Arrisco deduzir que Rita Carolina faleceu por alguma complicação com o resguardo do parto dessa bebê. Consta também que a bebê Maria Rosa, sem os cuidados da mãe, faleceu algum tempo depois. Não consta data, contudo, em 1865, quando se abriu o processo do inventário da mãe, a bebê já havia falecido.
Sobre o inventário de Rita Carolina, confesso que o abro com aquela ansiedade que antecede o momento de conhecer alguém especial. E na verdade é especial, afinal era minha 4ª avó. Posso imaginá-la à medida que descrevo seus bens e é como se a tocasse e sentisse seu olhar de tataravó sobre mim. Provavelmente era uma bela mulher que tinha lá suas vaidades, pois o primeiro de seus bens é um par de brincos. Depois vem o ouro e prata em barras. O plural aqui me faz imaginar muitas delas. Enfim... Logo me deparo com um capote de senhora. Sobre esse capote, vale frisar que se trata de uma espécie de vestimenta que cobria o corpo da mulher dos ombros até os pés, era, digamos, uma espécie de casaco, peça geralmente passada de geração em geração. Era um traje tradicional das mulheres açorianas. O que me leva a deduzir que essa minha 4ª avó tinha origem açoriana e recebeu esse capote como herança da mãe ou avó. O capote era uma peça obrigatória do dote da noiva, também servia como traje de casamento. Era também uma vestimenta para ir à missa e às procissões... Impossível saber se minha 4ª avó usava esse capote, pois não há evidências de que o traje tenha se popularizado no Brasil.
Voltemos ao inventário: coisas básicas de casa e fazenda tais como: panelas, bacia de cobre, chaleiras, ferro de engomar, espingarda, ferramentas de trabalho como machado, ferramenta de carpinteiro, enxadas, catres ( camas), mesas, canastras ( caixas de colocar roupas), tear, roda de fiar, tamboretes, bancos, carrinho de cabrito, carro de boi. Desses, passo para os bens semoventes como vacas, novilhas, bezerros, bois de carro, cavalos, éguas e burros. Sobre o carrinho de cabrito, possivelmente era um meio de transporte parecido com carro de boi, mas bem menor e puxado por cabritos.
Meus 4º avós possuíam também alguns créditos a receber. e sobre os bens de raiz constam o sítio da fazenda da Lacraia, com todas as benfeitorias existentes em fazendas naquele tempo, tais como, a casa, o monjolo, o moinho, a casa do engenho, senzala. Tudo coberto de telha. Esse sítio ficava situado em três alqueires ou 14,50 hectares de terra de cultura cercada de valos. Além dessas terras, consta no inventário outras partes de terra em outras localidades como Serrinha, Barreiro, Figueireda. Todas essas localidades ainda existem nos dias atuais no município de Coromandel, Minas Gerais.
Percebe-se, portanto, que, delineia-se aqui, o quadro óbvio de uma vida normal. Até mesmo o fato de possuírem escravos já que não havia ainda sido abolida a escravidão. Dessa forma, entre os bens que constam no inventário, José Machado de Miranda e sua esposa Rita Carolina de Jesus, consta um escravo de nome Antônio de 40 anos e um escravo de nome Joaquim de 30 anos. Interessante ressaltar que o escravo Joaquim faleceu antes de concluir o inventário que se estendeu até 1866, sendo retirado da partilha. Conforme declaração do Padre Domingos José Pimentel Barbosa, vigário do Povoado de Sant’Ana do Pouso Alegre de Coromandel, hoje Coromandel, Minas Gerais, no dia 30 de outubro de 1866, uma terça-feira, ele celebrou a missa de corpo presente do escravo Joaquim Crioulo, na Capela de Sant’Ana do referido povoado. Na época, a capela de Sant’Ana era filial da Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio, Bispado de Goiás, conforme consta nos dados do inventário. Ainda segundo o Padre Domingos, ele encomendou o corpo do escravo Joaquim à sepultura, o qual foi envolto em hábito preto e sepultado nessa mesma Capela de Sant’Ana, pois, nessa época existia um cemitério no entorno. E frisando ainda que esse nome do arraial só foi mudado no dia 7 de setembro de 1923 para Coromandel.
Ao final do inventário de Rita Carolina de Jesus, o Monte-mor foi de 4.591$690(Quatro contos, quinhentos e noventa e um mil, seiscentos e noventa réis). Da metade desse valor, dividido a cada um dos 9 herdeiros, coube a cada um 247$316 (Duzentos e quarenta e sete mil, trezentos e dezesseis réis).
Ao meu trisavô Bonifácio Machado de Miranda, coube mais partes de terras e alguns créditos a receber.
Como já dito, depois do falecimento de Rita Carolina, meu 4º avô se casou de novo, teve mais alguns filhos e veio a falecer em 1883 na Fazenda da Lacraia. Nessa Fazenda da Lacraia, o escrivão e outro oficial, apareceu para fazer a descrição e avaliação dos bens de meu 4º avô José Machado de Miranda, no dia 16 de outubro de 1883, uma terça-feira, pelas 10 horas da manhã, a pedido da viúva, Rita Justina de Jesus, sua terceira e última esposa. Era costume, ou lei, talvez, naquele tempo se deslocarem para fazerem isso. Agora imagine que pendenga, pois com toda certeza foram a cavalo desde Patrocínio, pois era onde ficava a sede da comarca. Imagino também que os oficiais almoçaram por lá nessa fazenda e até tomaram café da tarde, uma vez que coisas relacionadas a inventário são demoradas e complicadas. E também não duvido nada que tenham pernoitado por lá.
Com relação aos bens do inventário de meu 4º avô José Machado de Miranda, na maioria, foram os mesmos relacionados no inventário de Rita Carolina, sua segunda esposa e minha 4ª avó. Contudo, alguns não são os mesmos e considerei interessante frisar como uma forma de se compreender a sua história. Mas o que bens tem a ver com uma história? Eu diria que tem tudo a ver. Os bens podem revelar o modo de vida das pessoas. E o que se percebe no caso desse meu 4º avô é que ele e sua família, levavam uma vida simples e rústica, embora possa ter sido abastado em razão das terras que possuía. Uma prova disso eram as tantas tralhas de casa e de trabalho na roça. Como por exemplo: tachos de cobre; bacias de cobre, de arame e de ferro batido; panelas, caçarolas e caldeirão de ferro; forno de ferro; cunhas de ferro para rachar aroeira, uma ferramenta que serve para dividir troncos e lenha; foice velha; enxada velha; machado e serrote velhos; alavanca; martelo; almofariz, espécie de pilão de metal ou de pedra onde se trituram alimento, tipo alho; candeias velhas; tear com seus pertences; caixas para roupas; mesas pequenas e grandes e com gavetas; bancos estreitos e pequenos e bancos grandes; catres velhos, ou seja camas; esporas de ferro... Ou seja, todos aqueles utensílios necessários à vida das pessoas e em uma fazenda, bem frisado como velhos. De fato, tudo que é velho possui mais história e, portanto, mais essência. Para não dizer do apego, que se percebe na discriminação de cada um, como fossem pedaços da própria carne, razão, talvez, porque às vezes hesitamos em descartar velhas tralhas já sem serventia, mas são frases que completam nossa história que deixa de ser apenas material. O inventário para mim é uma história material carregada de essências espirituais. É o que percebo no velho oratório, provavelmente no canto de uma sala e certamente com variadas imagens de santos. Ali na página amarelada do inventário, o oratório é a religiosidade inventariada de meus 4º avós.
E o que dizer do chapéu preto velho? Do colete novo de veludo e do velho? Do paletó e da sobrecasaca? Seria a roupa de sair de meu tataravô José Machado?
Sigamos para deparar com uma espingarda de 2 canos. Aliás, a espingarda era essencial naquele tempo e nem sei porque digo isso. Mas era. Para caçar, para a defesa e até mesmo para lavar a honra. Isso era comum. De repente deparo-me com um estranho objeto, na verdade uma relíquia, nada mais que uma alabarda, uma antiga arma medieval parecida com uma lança. Dizem que era mais eficaz que as lanças nas guerras. Consta que até o século XVI, essas armas ainda eram usadas, depois disso, apenas em cerimoniais. Onde meu 4º avô teria arrumado essa alabarda? Teria sido passada de geração a geração por sua família?
Voltando ao inventário: não se pode esquecer os bens semoventes tais como bois carreiros de cores variadas como cambraio( branco), barroso ( avermelhado), preto e laranja; vacas paridas; vacas solteiras; novilhas; bezerros; alguns cavalos, inclusive um russo( raça russa), um castanho( avermelhado) e um tordilho( daqueles malhado de duas cores, podendo ser pintas ou manchas); um poldo baio que quer dizer cavalo jovem e na cor bege; três éguas bravas; porcos capados( castrados); cachaço( porco reprodutor); leitões...
Sobre os bens de raiz consta no inventário um sítio com casa de morada, monjolo e outras benfeitorias na fazenda da Lacraia, distrito de Abadia dos Dourados, Minas Gerais e várias partes de terras de campos e cultura nas localidades de Serrinha e Barreiro, nas fazendas Figueireda e Mouras (ainda existem essas fazendas no município de Coromandel, Minas Gerais). As medidas dessas terras não foram especificadas no inventário.
Consta também no inventário algumas dívidas, algumas oitavas de ouro; um trancelim de ouro para relógio, pesando seis oitavas, ou seja, em torno de vinte e uma gramas, ressaltando que oitava era uma medida antiga e equivalia a quase 4 gramas; um colar de uma volta de contas de ouro pesando 12 oitavas ou 43 gramas, 1 par de brincos ( seriam os mesmos brincos listados no inventário de Rita Carolina, minha 4ª avó?)
Apesar de ser ainda tempo de escravidão, não consta que meu 4º avô possuísse escravos nessa época.
Uma observação sobre a descrição dos bens no inventário é que tudo era especificado detalhe por detalhe. Hoje em dia já não se faz a avaliação dessas tralhas de casa, quanto mais a descrição dos detalhes. Pelo menos nos dois processos de inventários de meus pais, não foi especificado móveis, eletrodomésticos, as panelas de minha mãe nem as enxadas de meu pai e a cor de suas vacas e cavalos. Não há essência nos inventários de hoje, quanto mais histórias.
Só ressaltando: meu trisavô Bonifácio Machado de Miranda, o filho mais velho de José Machado de Miranda foi o procurador constitutivo no inventário e na partilha, representando a esposa de seu pai e seus filhos que eram menores de idade em 1883. No caso, os filhos de Rita Justina eram seus meios-irmãos.
Pelo que pude entender o valor total a ser dividido com os herdeiros foi 722$843 (setecentos e vinte e dois mil, oitocentos e quarenta e três réis, o que daria para cada um dos 12 herdeiros a simples quantia de 60$236 (sessenta mil, duzentos e trinta e seis réis). O que não era grande coisa a meu ver. Porém, naquele tempo devia ser uma boa quantia.
Para meu 3º avô Bonifácio Machado de Miranda coube como pagamento da partilha, as 3 cunhas de rachar aroeira, uma caixa velha, o tal colete de veludo, o colar de contas de ouro, parte de terras de campo e cultura na fazenda Lacraia e uma parte dos créditos a receber.
No fundo o que importa é a história que se delineia em torno desses tantos bens, as tantas tralhas necessárias à vida, mas que na verdade fica tudo quando se morre. E no fim são listadas na frieza do inventário, como se a morte se resumisse apenas em dividir coisas materiais. A essência de que falei, na verdade, depende do olhar de pessoas metidas a historiadoras, mas que enxergam tudo sob o olhar poético e inventam de imaginar histórias nas entrelinhas do inventário. Por exemplo, dá para imaginar meu 4º avô José Machado de Miranda, inserindo a cunha de ferro na madeira de aroeira para ser rachada e as lascas voando longe como pedaços de vida ao longo do tempo. Dá para imaginar ele vestido com a velha sobrecasaca e sob ela o velho colete, na cabeça, o velho chapéu preto. Com certeza era a sua roupa de ir ao arraial de Abadia dos Dourados, ou Sant’Ana do Pouso Alegre de Coromandel, montado, quem sabe, no cavalo tordilho. Ou seria o russo? Quem sabe o castanho. Os pés esporeando as ancas do animal com a espora de prata... No bolso o relógio com cordão de ouro marcava o tempo de apear para uma prosa ou comprar alguma mercadoria... Dá para imaginar minha 4ª avó Rita Carolina de Jesus, a saia comprida roçando os pés, a gola alta cobrindo o pescoço, as mangas fechadas nos punhos, sentada no tear tecendo colchas de lã para o inverno frio daqueles tempos. É como se de repente, a gente pudesse ouvir o chiado da linha cardada passando entre o pente liço, indo e vindo... E como bem disse Olavo Bilac, “Passa e repassa a aborrecida trama / Nas mãos do Tecelão indiferente...” Penso que esse processo é tão parecido com o ato de viver.
E ainda dá para imaginar, meu trisavô Bonifácio Machado de Miranda, ainda de luto pela morte do pai, cuidar do inventário como procurador da viúva e dos irmãos menores. Sua assinatura em cada página ir confirmando a materialidade das coisas de seu pai José Machado de Miranda, meu 4º avô ou tataravô, e ao mesmo tempo, criando a memória que agora me deparo: a grafia elegante de mais de cento e quarenta anos. Porque será que ele abreviava o sobrenome Miranda? Coisas simples. Na verdade, as coisas simples é que fazem as histórias mais bonitas.
Sobre meu 4º José Machado de Miranda, vale ressaltar que ao longo de sua vida teve muitas perdas quase seguidas: a primeira esposa Maria José, possivelmente em meados de 1844 ou 1845, com quem não teve filhos, a segunda esposa Rita Carolina de Jesus, falecida em 1864, a irmã Maria Rosa e o cunhado João José, ambos em 1860, com apenas 5 dias de diferença, a filha bebê Maria Rosa, entre os anos de 1864- 1865, a irmã Vicência Joaquina em 1866, o irmão Antônio Machado de Miranda em 1868 e pouco antes dessa data de 1868 perdeu o pai Joaquim Machado de Miranda. Eu diria que a década de 1860 até 1870, foram de muitas perdas para meu 4º avô José Machado de Miranda. No entanto, seguia em frente e depois faleceu em 1883. Imagino que esse meu 4º avô foi um homem de força, garra e coragem.
Bem, frisando novamente, meu 4º avô ou tataravô José Machado de Miranda, casou-se três vezes e teve treze filhos ao todo. Com a primeira esposa Maria José não teve filhos.
Relação dos Filhos de José Machado de Miranda, meu 4º avô, com a segunda esposa Rita Carolina de Jesus, minha 4ª avó legítima. Ressaltando que as idades desses filhos se referem ao ano de 1883, quando José Machado de Miranda faleceu:
1. Bonifácio Machado de Miranda meu 3º avô ou trisavô, 36 anos, casado com Idalina Amada de Jesus;
2. João Delfino Machado com 34 anos;
3. Maria Thomásia, com 32 anos, casada com Francisco Antônio da Silveira;
4. Maria José dos Reis, com 30 anos, casada com Joaquim Gomes de Mello;
5. Vicência Machado de Miranda, com 28 anos, casada com João Antônio Ramos;
6. Maria das Dores de Miranda, com 26 anos, casada com José Machado de Assunção (seu primo) dia 11 de julho de 1874 na Matriz de Sant’Ana do Pouso Alegre de Coromandel, Minas Gerais, hoje Coromandel;
7. José Machado de Miranda júnior ou José Machado das Dores, com 26 anos, casado com Porfíria Maria de Jesus;
8. Maria Rosa, falecida ainda bebê, provavelmente em 1865.
Uma observação: Maria das Dores de Miranda e José Machado de Miranda Júnior, tinham a mesma idade. Teriam por coincidência nascido no mesmo ano, ou seriam gêmeos?
Relação dos filhos de meu 4º avô José Machado de Miranda com a sua terceira e última esposa, Rita Justina de Jesus. Ressaltando que as idades dos mesmos se referem ao ano de 1883, ano em que José Machado de Miranda faleceu.
1. Joaquim Machado de Miranda (Ou João), com 16 anos;
2. Antônio Machado de Miranda, com 14 anos;
3. Manoel Machado de Miranda, com 11 anos;
4. Belarmina Maria de Miranda, com 8 anos;
5. Maria Justina de Miranda (ou de Jesus), com 4 anos.
Sobre Rita Justina de Jesus, a terceira esposa de José Machado de Miranda, meu 4º avô, consta que após enviuvar-se dele, se casou com Antônio José Velloso. Como já foi dito, antigamente as mulheres se casavam de novo para terem um provedor para a família. Em 1925, quando Rita Justina faleceu e foi feito seu inventário, o marido Antônio José Velloso já havia falecido. No arrolamento dos bens consta que Rita Justina e Antônio possuíam terras na Fazenda Rio Preto, no lugar denominado Córrego dos Gomes.
Sobre Rita Justina de Jesus, vale ressaltar ainda que ela era cunhada de Maria José dos Reis, filha de seu primeiro esposo José Machado de Miranda, meu 4º avô, com Rita Carolina de Jesus, a segunda esposa e minha 4ª avó legítima. O esposo de Maria José era irmão de Rita Justina.
É muito fio de meada embaraçado. Mas são esses fios da meada que tecem as tramas mais interessantes.
Para saber sobre Abadia dos Dourados, Minas Gerais, onde meus 4º avós José Machado e Rita Carolina viveram seus últimos dias, acesse os links abaixo:
👉Abadia dos Dourados, Minas Gerais
👉Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Vídeo Youtube
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| Abadia dos Dourados, Minas Gerais |
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| Assinatura de José Machado de Miranda, meu 4º avô |
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| Resumo do Inventário de José Machado de Miranda, meu 4º avô |
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| Resumo do inventário de Rita Carolina de Jesus, minha 4ª avó |
Para acessar o inventário de José Machado de Miranda, meu 4º avô, acesse o link abaixo:
Para acessar o inventário de Rita Carolina de Jesus, minha 4ª avó, acesse o link abaixo:
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