João de Rezende Costa e Helena Maria de Jesus (a mais nova das 3 Ilhoas)



 

PS.:

O Gráfico acima refere-se aos meus ancestrais (8º avós ou octavós) pelo lado de meu avô paterno Fortunato Machado Rocha (conhecido como Natim) e o avô materno Aristeu Machado Rocha.  O ponto de partida é o pai de ambos Antônio Bonifácio Machado. Nessa sequência siga o gráfico na primeira linha superior.


 

João de Rezende Costa e Helena Maria de Jesus (a mais nova das 3 Ilhoas)

 

 João de Rezende Costa, meu 8º avô, nasceu no dia 2 de novembro de 1696, portanto, dia de finados, conforme consta no FamilySearch, pois não foi possível ter acesso ao registro de Batismo, devido ao mesmo ter deteriorado juntamente com todos os registros do livro. Ele nasceu na localidade denominada de Flor da Rosa Baixa na freguesia de Nossa Senhora da AssunçãoVila do Porto, Ilha de Santa Maria, em Açores, Portugal. Faleceu em 08 de maio de 1758, com 62 anos em sua fazenda em Carandaí, e foi sepultado em Prados, Minas Gerais, Brasil.  Era um dos mais novos dos oito filhos de Manuel de Rezende e Ana da Costa. João tinha um avô (por parte de pai) que era moleiro, ou moedor de cereais. 

 

O que sobrou do suposto registro de batismo de João

 

Registro de óbito + testamento de João- parte 1

 

Registro de óbito + testamento de João- parte 2

  Helena Maria de Jesus, esposa de João de Rezende Costa e minha 8ª avó, era a mais nova das famosas Três Ilhoas, vindas para o Brasil da Ilha de Faial em Açores, Portugal. Helena nasceu no dia 15 de janeiro de 1710, e foi batizada no dia 19 desse mesmo mês e ano, na Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, Vila de Horta, Ilha de Faial, Arquipélago de Açores, Portugal.  Foi batizada em 19 de janeiro de 1710, na Igreja Nossa Senhora das Angústias.  Ela faleceu no dia 29 de março de 1772 em Prados, Minas Gerais.

Helena era filha de Maria Nunes e Manuel Gonçalves Correia, a quem chamavam de " O Burgão". Os registros paroquiais o descrevem como "mareante" (homem do mar, navegador ou marinheiro), uma ocupação comum na Ilha do Faial, que era um importante porto de trânsito no Atlântico. ​ Conformes histórias ele vivia de pescar baleias e morreu em 1722 ou 1724 quando uma baleia destroçou o barco em que estava. Depois disso, a esposa veio para o Brasil com as filhas ajudadas pelo amigo Diogo Garcia que depois casou-se com Júlia irmã de Helena. 

 

Registro do batismo de Helena com transcrição

 

Registro de óbito de Helena- parte I à direita

 

Registro de óbito de Helena- parte II

 

Para acessar o testamento de João de Rezende Costa, meu 8º avô,clique no link abaixo:

👉https://resgatedahistorya.blogspot.com/2016/02/joao-de-resende-costa.html?view=mosaic 

 Para acessar o testamento de Helena Maria de Jesus, minha 8ª avó, clique no link abaixo: 

👉https://resgatedahistorya.blogspot.com/2016/02/elena-maria.html?view=mosaic 

 

O casamento de João de Rezende e Helena Maria

  João de Rezende Costa e Helena Maria de Jesus se casaram em uma manhã ensolarada do dia 13 de outubro de 1726, um domingo, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Prados, comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais. João com 31 anos e Helena com 16 anos. 

 

Parte da transcrição do registro de casamento 
de João e Helena

 

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, Prados, Minas Gerais. Iniciada por volta de 1712 pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, a Matriz ainda era um imenso canteiro de obras em 1726, ano do casamento de João de Rezende Costa e da Ilhoa Helena Maria. Embora o templo tenha sido totalmente concluído apenas em 1770, o matrimônio pôde ser realizado porque a Capela-Mor já estava coberta e pronta para os sacramentos, enquanto o restante da imponente estrutura de pedra ainda seguia em construção.


João de Rezende Costa e Helena Maria de Jesus, meus 8º avós, tiveram 15 filhos. Foram uma respeitada família com forte influência na história política e social do país. Apesar disso, eram pessoas simples, honestas e religiosas.

Seus 15 filhos foram, a saber:

1.     João de Rezende Costa. (Tinha o mesmo nome do pai e foi o primeiro Rezende a nascer no Brasil. Ordenou-se Padre, abençoando toda a descendência da família que viria a seguir. Foi vigário da Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Prados até a data de sua morte em 1788. Adquiriu a propriedade de seus pais em lagoa Dourada);

2.     Capitão José de Rezende Costa, casado com Ana Alves Preta,(foi inconfidente condenado ao degredo em Cabo Verde, onde faleceu três anos depois de partir para o exílio);

3.     Maria Helena de Jesus, casada com o Capitão José Antonio da Silva;

4.     Capitão Antônio Nunes de Resende, casado com Maria Pedrosa de Moraes;

5.     Julião de Resende Costa (faleceu com cinco anos)

        6.    Ana Maria de São Joaquim,(minha heptavô ou 7ª avó), casada com Capitão Manoel da Mota Botelho. Tiveram a filha Ana Joaquina de Rezende que se casou com Antônio Machado de Miranda, meu hexavô;

       7.    Manoel da Costa Rezendecasado com Ana Felipa Ferreira;

 8.    Gabriel da Costa Resende (também foi ordenado padre);

 9.    Helena Maria de Resende, casada com o Alferes Miguel de Souza Ferreira;

 10.  Teresa Maria de Jesus, casada com Caetano Gomes Figueira;

       11.  Josefa Maria de Resende, casada com o Coronel Severino Ribeiro;

       12.  Tenente Julião, da Costa Resende, casado duas vezes: primeira vez com Ana Gonçalves de Moura e segunda vez  com Francisca Teresa de São José;

       13.  Gonçalo Resende (faleceu criança com mais ou menos 4 anos);

       14.  Joaquim José de Rezende ( ao que tudo indica faleceu também quando criança);

1     15.  Ana Joaquina de Resendecasada com o Tenente Joaquim Ferreira da Silva, (tinha apenas 18 anos e 1 ano e meio de casada quando faleceu em 23 de julho de 1767por complicações de parto. Teve uma filha única batizada em 21-07-1767. 

Desses filhos, destaco Ana Maria de São Joaquim, minha heptavó ou 7ª avó, casada com o Capitão Manoel da Motta Botelho. A filha Ana Joaquina de Rezende se casou com Antônio Machado de Miranda, meu 6º avô ou hexavô de quem descende o vovô Tõe.

 

 

 Um pouco mais sobre a vida de João de Rezende Costa

 

A Vida do Camponês na "Ilha do Sol"

Foi na ilha de Santa Maria, chamada de “Ilha do Sol” e que também já foi chamada de “Ilha dos Lobos”, que meu 8º avô João de Rezende Costa viveu como um simples camponês, trabalhando o campo com disposição e dignidade. Certamente plantando milho, trigo, e talvez uvas, com seus pais. Gente disposta e amiga da honra, como bem disse Gaspar Frutuoso em seu livro “Saudades da Terra”, onde o autor também delineia os traços do povo dessa ilha. Assim, pelos olhos de Gaspar Frutuoso, posso imaginar meu 8º avô: alto de corpo, de rosto grave, bela fisionomia e educado.

O Destino Traçado pela Orfandade

Em 1702, meu 8º avô João de Rezende, com 6 anos, já era órfão de pai e, em dezembro de 1717, com 21 anos, perdeu também a mãe. Ele veio para o Brasil no início do século XVIII. Conforme relatos, veio com alguns tios, primos e pessoas de outras ilhas dos Açores. Não se sabe o ano exato.

Alguns relatos dizem que foi em 1716, o que não parece provável, uma vez que sua mãe faleceu em 12 de dezembro de 1717 na Vila do Porto e João veio para o Brasil já órfão também de mãe. Logo, deve ter vindo depois de 1717. Contudo, é fato real que em 1720, João de Rezende, meu 8º avô, já estava na Capitania de Minas Gerais, Brasil, pois encontra-se registrada a sua admissão numa irmandade de Prados, Minas Gerais, no dia 01 de dezembro de 1720.

 

Dados que comprovam que João de Rezende já estava em Minas em 1720.

 

Os Laços Deixados na Vila do Porto

Quanto aos irmãos de João de Rezende, possivelmente ficaram todos na Vila do Porto, exceto sua irmã mais nova, Maria Rosa, que depois do casamento em 1722 na Vila do Porto, teria vindo para o Brasil, pois consta seu falecimento em Prados, Minas Gerais, em janeiro de 1776. Possivelmente João de Rezende, seu irmão, influenciou essa vinda.

As Ilhas da Fome e as Minas de Ouro

É possível dizer que João de Rezende, meu 8º avô, levava uma vida medíocre na Vila do Porto, apesar do paraíso que o rodeava. Órfão, nada mais o prendia ali. Não fosse assim, ele não teria sonhado com algo maior em terras distantes. 

Quanto ao ouro, segundo notícias, ele brotava do chão e boiava nos rios na Capitania de Minas. E claro, também enlouquecia as pessoas, fosse rico ou pobre, fosse negro ou índio... 

A ganância era tanta que cegou as pessoas, criando a maior crise de fome da história da colônia. Durante o que os historiadores chamam de "Grande Fome das Minas" (especialmente entre 1697 e 1701), as pessoas literalmente morriam deitadas em cima de montanhas de ouro porque não havia o que comer. 
A lógica desse mercado era cruel e funcionava exatamente assim:
  • Ouro não se come: Como quase ninguém queria plantar ou criar gado — já que todos estavam obcecados em garimpar —, a comida que vinha de fora (de São Paulo ou da Bahia) chegava em pouquíssima quantidade e por caminhos perigosos.
  • Preços absurdos: Pela lei da oferta e da procura, um queijo, um pedaço de carne seca ou um prato de milho custavam fortunas em gramas de ouro. Um gato para caçar ratos nas minas chegava a valer o preço de um escravizado.
  • A ilusão da riqueza: O pequeno minerador ou o homem livre pobre passava o dia no rio, achava uma pepita, mas tinha que entregá-la inteira para o comerciante em troca de um saco de farinha para não morrer. No fim do mês, o ouro dele tinha sumido e ele continuava miserável.
Quem ficou rico de verdade e "encheu as burras" não foi quem bateu enxada na terra, mas sim os grandes comerciantes (os chamados emboabas) que controlavam o abastecimento de comida, ferramentas e roupas, além dos donos de grandes lavras que usavam a força de centenas de escravizados.
A história das Minas Gerais mostra que a inteligência de mercado e o monopólio da comida lucraram infinitamente mais do que a sorte de achar o metal brilhante.
Mas não foi sempre assim. No início do século XVIII, Portugal desenvolveu uma "cegueira econômica". Com os cofres vazios na Europa, a mentalidade do Rei era puramente mercantilista: "Trabalho na lavoura não gera ouro; se o colono está plantando, ele está perdendo tempo que deveria usar garimpando". Dessa forma impôs restrições  absurdas através de alvarás e ordens régias, proibindo Sesmarias Agrícolas, só eram concedidas terras a quem comprovasse que ia minerar.  O Governador das Minas chegou a ordenar a destruição de roças de subsistência e plantações de cana em áreas próximas aos garimpos, sob o argumento de que a agricultura "desviava a mão de obra escravizada" que deveria estar batendo enxada nos rios.  

Enquanto isso, nos Açores havia uma superpopulação que gerava, inclusive, crises de fome, sem contar os tremores de terra e erupções vulcânicas que aconteciam. Esses fatores animaram alguns habitantes de Açores a solicitar à Coroa Portuguesa autorização para a vinda para o Brasil. A Coroa Portuguesa, por sua vez, estava desesperada para povoar o interior do Brasil e conter invasões espanholas. Como as ilhas dos Açores estavam superpovoadas e em crise extrema, Portugal oferecia passagens de navio de graça e promessas de terras para quem aceitasse se mudar para a colônia. Juntou-se a fome com a vontade de comer.

Foi assim que João de Rezende, meu 8º avô, veio parar no Brasil, deixando para trás o lugar onde nascera e os parentes. O sonho, às vezes, é maior que tudo — e ainda bem que é, pois não fosse assim, talvez eu não existisse.

Um Complô do Destino no Além-Mar

Relata-se no livro “Engenho Velho do Cataguás”, de Climeia Rezende, que, durante a viagem, João de Rezende fez alguns amigos como Diogo Garcia, que se casaria depois com minha 8ª tia-avó, Júlia da Caridade, irmã de minha 8ª avó Helena Maria, a Ilhoa. Com ele veio também Domingos Xavier Fernandes, este que se tornaria meu 9º avô, pois seria o avô de Tiradentes e também o avô de minha 7ª avó Antônia Rita de Jesus Xavier ( a irmã caçula do Alferes). Ou seja, havia todo um complô do destino.

 A Corrida do Ouro: Muito Além de uma Fake News

Sobre o ouro brotar do chão e boiar nos rios da Capitania de Minas, certamente não era fake news. É fato certo e documentado que o ouro fornecido pelo Brasil entre 1700 e 1770 foi o equivalente a toda a produção de ouro do resto da América entre 1493 e 1850. Ou seja, em setenta anos, o Brasil, sobretudo Minas Gerais, produziu o que se produziu em toda a América em 350 anos. Foi uma coisa de louco, o que justificava a loucura das pessoas correndo atrás do pozinho amarelo. Nem o “quinto”, imposto que infernizava a vida das pessoas, era motivo para deter a corrida do ouro, para alegria da Coroa Portuguesa.

 


 Pés no Chão e Estratégia na Terra Nova

Contudo, em meio aos loucos, estão os mais pés no chão. Em 1726, o auge da fome e do caos do abastecimento ainda estava muito fresco na memória da colônia. Enquanto a maioria das pessoas chegava cega pelo brilho do ouro e quebrava a cara, João e seus amigos perceberam que a verdadeira "mina de ouro" estava em alimentar os mineradores

Estavam acostumados a enfrentar uma realidade dura nos Açores. Os açorianos tinham uma tradição agrícola e de criação de gado muito forte nas ilhas. Eles trouxeram essa inteligência prática para o interior de Minas Gerais, onde a terra era fértil e o mercado consumidor estava desesperado por comida. O que viesse era lucro, razão pela qual foram cautelosos e preferiram aliar várias ocupações, dedicando-se não só à mineração, mas também à agricultura e criação de gado. E a estratégia deu certo, pois logo progrediram.

A Longa Jornada pelo Caminho Novo

Assim que chegaram ao Brasil, João de Rezende, meu 8º avô, e toda a turma de portugueses aventureiros se enveredaram pelo Caminho Novo, rumo à Comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais. Era uma longa viagem de mais ou menos 500 km no lombo de mulas e burros encargueirados de tralhas, através de trilhas que serpenteavam, atravessando a densa Mata Atlântica e trechos de Cerrados ainda intactos, sem contar as serras, os vales, os despenhadeiros e rios. Vale frisar que nessa época a região era ainda percorrida por tribos de índios nômades, como os Coroados, que, embora ferozes, viviam guerreando apenas entre si mesmos.

Do Vilarejo Barrento ao Sucesso do Engenho Velho

João de Rezende, meu 8º avô, e seus companheiros chegaram à região do Arraial Velho de Santo Antônio, assim chamado até 1718, quando foi elevado à categoria de Vila de São José Del-Rey, hoje Tiradentes. Era um vilarejo barrento e cheio de pessoas suspeitas e prostitutas mulatas que encaravam os recém-chegados, segundo Climeia Rezende em seu livro “Engenho Velho do Cataguás”. Mas não tinha mais como voltar atrás. Agora era tudo ou nada.

E, felizmente, foi tudo, pois não demorou muito e meu 8º avô João de Rezende Costa construiu o sítio de Carandaí, que se tornou depois a imensa Fazenda Engenho Velho do Cataguás. Nesse sítio, dedicou-se à cultura de subsistência, ou seja, milho, feijão, algodão, cana-de-açúcar. Também se dedicou à criação de gado e cavalos. E também minerou. Sua estratégia deu certo, considerando a necessidade de mercado da época, pois no século XVIII havia surtos de fome, já que nem todas as pessoas pensavam em plantar, mas somente em ir atrás de ouro como já foi dito.

Vale lembrar, contudo, que, ao chegar aqui sem um tostão, o caminho para conseguir uma fazenda envolvia algumas estratégias.  No início, o imigrante pobre não pedia uma sesmaria direto ao Governador porque o processo burocrático era caríssimo. Ele simplesmente entrava na mata "de favor" ou ocupava terras devolutas, começava a roçar e criava um direito de posse. João de Rezende Costa, meu 8º avô, não conseguiu a terra por concessão direta da Coroa Portuguesa. Ele usou a estratégia da Posse de Fato (ocupação primária). Quando chegou aqui, ele simplesmente entrou na mata virgem à margem do Córrego da Boa Esperança (em Lagoa Dourada), limpou o terreno e montou o Sítio Carandaí. Naquela época de caos da mineração, quem plantava e povoava ganhava o direito de posse automática da terra pela utilidade pública de produzir comida. Décadas depois, a terra foi formalizada não como sesmaria, mas sim comprada e herdada entre os próprios filhos e parentes.

 Dessa forma, em poucos anos, meu 8º avô João de Rezende já era um homem bem-sucedido e pôde erguer a belíssima sede da Fazenda Engenho Velho do Cataguás, cujo nome tem a ver com um velho moinho dos índios Cataguases que existia na propriedade — apenas relatos de Climeia Rezende que devem ter seu teor de verdade.

Um Patrimônio que Resiste ao Tempo

A sede da fazenda fica a cerca de 150 metros da margem esquerda do córrego da Boa Esperança, na sua confluência com o ribeirão dos Cataguases, também chamado de ribeirão do Bom Retiro. A sede encanta até os dias atuais com sua bela construção em estilo colonial que resistiu ao tempo, assim como a senzala, a capela e os extensos muros de pedra cercando os pátios e pastos, bem como utensílios e móveis daquele tempo. Resiste, inclusive, uma figueira ao lado do muro de pedra, onde teria sido antes uma porteira.

Atualmente, a fazenda foi tombada como patrimônio histórico de Minas Gerais com o nome de Fazenda do Engenho Grande do Cataguás, sendo famosa pela criação dos jumentos “Pega”. Contudo, a sede da fazenda não é aberta ao público.

O País dos Cataguazes e as Marcas da Colonização

Ainda para se situar no contexto dessa localidade para onde meu 8º avô João de Rezende veio parar e construir sua família, vale frisar que a localidade foi uma das povoadas anteriormente pelos índios Cataguás ou Cataguazes. Essa tribo veio do Sul do Brasil indo para o Norte. No caminho, encontraram-se com os índios Carijós, que, em confronto, saíram vitoriosos, passando a ocupar a região. Bem, os Cataguazes eram uma tribo tão numerosa em Minas Gerais que esta era chamada de “País dos Cataguazes” ou “Campos Gerais dos Cataguazes”. Só para se ter uma ideia, eles ocupavam desde o Sul de Minas até o Triângulo Mineiro.

Para que a povoação dos sertões mineiros pudesse acontecer, os portugueses promoveram o genocídio dos Cataguazes. Foi um massacre violento entre a tropa de um tal Lourenço Castanho Taques e esses índios. Valentes que eram, os Cataguazes resistiram defendendo seu território. E com razão, afinal estavam tomando o que era deles. No entanto, foram vencidos, mortos, expulsos ou escravizados. E assim o povoamento e a colonização de Minas Gerais pôde acontecer de fato, começando especificamente por volta do ano de 1674, com a descoberta de ouro naquelas paragens do Rio das Mortes.

O Fim da Solidão na Paragem dos Cataguases

A febre do ouro que tomava conta dos aventureiros ia transformando as sinuosas picadas abertas por índios e bandeirantes em caminhos reais. Inclusive, o caminho da Estrada Real passava e ainda passa na porta da Fazenda Engenho Velho do Cataguás. Era nesse trecho que parte da história de Minas Gerais ia sendo escrita. E parte da história de meu 8º avô e seus descendentes, entre os quais me incluo, já que sou sua 8ª neta. 

Interessante pensar que, da pacata ilha de Santa Maria nos Açores, Portugal, meu 8º avô João de Rezende Costa se viu transportado para esse sertão praticamente sem lei, a “Paragem dos Cataguases”. E sua solidão só teve fim em 1726, quando finalmente se casou com Helena Maria de Jesus, a bela açoriana loura de olhos verdes, a quem chamavam de Ilhoa, graças a Diogo Garcia, companheiro de aventura para o Brasil e que era, por assim dizer, guardião das Ilhoas.

 O Pressentimento da Morte e as Últimas Vontades

João de Rezende Costa, meu 8º avô, faleceu em 08 de maio de 1758, como já foi dito antes, e foi sepultado dentro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Prados, em Prados, Minas Gerais. Um mês antes, estando gravemente enfermo e acamado, pressentiu a morte, razão pela qual redigiu seu testamento. Era uma sexta-feira, 7 de abril de 1758, quando João, meu 8º avô, já com 62 anos, ditou seu testamento começando assim:

“Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo, que saibam quantos este público instrumento virem, que no ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e cinquenta e oito, aos sete dias do mês de abril, eu João de Rezende Costa, estando doente numa cama de doença que Deus foi servido dar-me; mas, em meu perfeito juízo e entendimento e temendo-me da morte, desejando pôr a minha alma no Caminho da Salvação, por não saber o que Deus nosso Senhor de mim quer fazer, e quando será servido de me levar para Si, faço este testamento...”

Como se sabe, o testamento é a manifestação de última vontade de uma pessoa, através do qual ela estabelece o que deve ser feito com seus bens após a morte. É comum também constar recomendações diversas.

Devoções, Dívidas e o Hábito de São Francisco

Assim, no testamento de João de Rezende, meu 8º avô, ele especificou, por exemplo, algumas dívidas que fizera para utilidades da casa; especificou também o desejo de ser amortalhado, ou seja, envolto no hábito de São Francisco, de quem era devoto desde quando vivia na Vila do Porto, Ilha de Santa Maria, Açores, Portugal; pediu para ser sepultado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Prados, sepultura a que tinha direito como provedor que era da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Vale frisar que João era também devoto da Virgem Maria, do Apóstolo São Mateus, São José, São Joaquim, Santa Ana e Santo Antônio, aos quais pede no testamento que intercedam por sua alma ao Senhor Jesus Cristo.

Generosidade no Cortejo e o Amparo aos Pobres

Bem, além das missas de corpo presente, que seriam oito, rezadas pelo Pároco e demais padres, meu 8º avô João de Rezende manifestou ainda o desejo de que, em seu velório e enterro, estivessem presentes treze pessoas pobres, a quem seria dada, a cada uma, uma vela e, como esmola, a quantia de meia oitava de ouro — ou seja, quase 2 gramas, que na época equivalia a uma moeda de prata ou 600 réis. Em seu velório e enterro deveriam estar também as três irmandades da Igreja das quais ele fazia parte.

Um Legado de Fé para a Salvação da Alma

Em seu testamento, meu 8º avô João de Rezende ainda determina outras missas, como as 52 que deveriam ser rezadas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de cuja confraria fazia parte; outras oitenta pelas almas, em qualquer Igreja; mais 100 missas pela própria alma, em Prados; e 40 missas pelas almas de seus pais, sogros, irmãos e parentes.

Além das missas, meu 8º avô manifestou no testamento o desejo generoso de destinar 40 oitavas de ouro para obras da Igreja de Prados, em torno de 140 gramas; quarenta mil réis para o convento de São Francisco da Ilha de Santa Maria, freguesia de Nossa Senhora da Assunção, em Portugal, onde nascera; 22 oitavas de ouro para a Irmandade das Almas da freguesia dos Prados; 25 oitavas de ouro à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário; e 20 oitavas de ouro à Casa Santa de Jerusalém.

Percebe-se que meu 8º avô João de Rezende era uma pessoa religiosa e temente a Deus, e tudo o que designou em seu testamento como sufrágio de sua alma era o desejo de que a mesma fosse salva.

 

 

Pra saber sobre a localidade onde João de Rezende nasceu, acesse os links abaixo:

👉 Imagens Vila do Porto, Ilha de Santa Maria , Açores Portugal 

👉 Sobre Vila do Porto, Ilha de Santa Maria, Açores, Portugal 

 

Vila do Porto, Ilha de Santa Maria, Açores, Portugal

 

 

 

Um pouco mais sobre a vida de Helena Maria de Jesus

 

A Travessia e o Amparo no Rio das Mortes

Sobre minha 8ª avó Helena Maria de Jesus, a Ilhoa mais nova, veio para o Brasil em 1723 juntamente com sua mãe, já viúva, e o irmão Antônio Nunes, já casado com a sobrinha de Diogo Garcia, amigo de seu pai. Vieram também suas irmãs Júlia Maria da Caridade e Antônia da Graça, esta já casada e com duas filhas.

Manuel Gonçalves, o Burgão, pai de Helena Maria, minha 8ª avó, também viria, incentivado pelo amigo Diogo Garcia que já estava no Brasil. Contudo, foi morto em uma dessas pescarias perigosas: uma baleia varreu com a cauda o barco em que estava, matando-o. A esposa, Maria Nunes, e as filhas, cujo sustento dependia dele, ficaram em uma situação difícil na Ilha de Faial, o que reforçou a vinda para o Brasil com o apoio de Diogo Garcia, amigo de Burgão. Ele instalou toda a família em seu sítio no Rio das Mortes Pequeno, na Freguesia de São João Del-Rey, Minas Gerais, e acabou se casando, em 1724, com uma das Ilhoas, a Júlia Maria da Caridade, irmã de Helena Maria, minha 8ª avó.

A Lenta Conquista da Bela Ilhoa

Helena Maria de Jesus, a Ilhoa mais nova e minha 8ª avó, casou-se com o jovem João de Rezende Costa — uma amizade iniciada na travessia do Atlântico rumo ao Brasil. Naquela época, ele já consolidava suas posses na vasta Fazenda Engenho Velho do Cataguás. 

Conquistar Helena não foi uma tarefa fácil para João de Rezende. Isso segundo os relatos romanescos de Climeia Rezende em seu livro “Engenho Velho do Cataguás” — relatos que, segundo a autora, foram passados oralmente de geração em geração. Pois bem, dizia-se que Helena era muito tímida, mas João era determinado; afinal, se havia atravessado o Atlântico, uma viagem de quase três meses, para construir um futuro tão longe, certamente não seria difícil conquistar a bela loira de olhos verdes. Apesar disso, a conquista foi lenta. Helena Maria passou a admirá-lo ao observar sua coragem e determinação, características somadas à bela fisionomia típica dos moradores da Ilha de Santa Maria, descrita por Gaspar Frutuoso no livro “Saudades da Terra. Assim, em um impulso de coragem, um dia Helena dirigiu a palavra a João.

O Testamento e as Marcas do Luto

Helena Maria de Jesus, esposa de João de Rezende Costa e minha 8ª avó, faleceu no dia 29 de março de 1772 na sede da fazenda do Engenho Velho do Cataguás, quase 14 anos depois do marido. Tinha 62 anos. O seu testamento foi redigido pelo Vigário da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição dos Prados cinco anos antes, no dia 03 de agosto de 1767. Como afirma em seu testamento:

“...eu, Helena Maria, estando alguma coisa enferma, mas de pé, e em meu perfeito juízo, entendendo e temendo-me da morte, por não saber quando Deus será servido levar-me para Si, faço este Testamento...”

Percebe-se que, quando as pessoas adoeciam naquele tempo, certamente tinham a consciência de que não seriam curadas, pois não havia muitos recursos. O testamento, como já foi dito, manifestava a última vontade da pessoa e era uma forma de evitar conflitos entre herdeiros.

Com relação ao fato de Helena Maria, admitir-se enferma em 03 de agosto de 1767, conforme minha dedução, provavelmente seria em razão da tristeza e luto pelo falecimento da filha caçula, Ana Joaquina de Rezende. Não é difícil imaginar a dor de uma mãe amorosa; afinal, essa sua filha — por sinal, minha 7ª tia-avó —, com apenas dezoito anos e casada há apenas um ano e seis meses, havia falecido no dia 23 de julho de 1767, ou seja, 11 dias antes de Helena Maria, sua mãe, redigir o testamento. 

Ao que tudo indica, Ana Joaquina, a filha de Helena, faleceu por complicações no parto da filha, que foi batizada dois dias antes do falecimento da mãe. No mesmo dia do batizado da filha, dia 21, Ana Joaquina redigiu seu testamento. Possivelmente não estava bem e, intuindo sua morte, a jovem também deixou registradas suas últimas vontades antes de falecer, dois dias depois, na sua fazenda na localidade de Ressaca, Minas Gerais, onde vivia. Em seu testamento, determina, entre outras coisas, que seus vestidos e suas saias de seda e veludo, inclusive o seu vestido de casamento, fossem dados a algumas de suas primas, cujos nomes cita — certamente as mais chegadas a ela.


O Reencontro na Capela-Mor de Prados

Helena Maria, minha 8ª avó, em seu testamento manifesta o desejo de ser amortalhada no hábito de Nossa Senhora do Monte do Carmo e sepultada na mesma sepultura onde João de Rezende, seu esposo, fora sepultado quase 14 anos antes, dentro da Capela-Mor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Prados.

Conforme desejo, seu enterro seria acompanhado pelo Pároco e demais padres, os quais rezariam 20 missas de corpo presente. Ainda conforme seu desejo, no dia do enterro seria doada aos pobres que a acompanhassem a quantia de 32 oitavas de ouro. Seria doado ainda 100$000 (cem mil réis) à Irmandade do Santíssimo e à Fábrica (conselho constituído de clérigos e leigos, sujeito à aprovação do bispo, e cujas funções se restringem à administração dos bens de uma paróquia).

Cartas Lacradas e o Destino da Fazenda

No testamento, Helena Maria fala também de uma carta que deixaria lacrada para ser aberta no momento certo. Declara ainda que o sítio onde viviam fora vendido a seu filho, o Padre João de Rezende Costa, desde quando o esposo João de Rezende estava vivo.

Ao que tudo indica, João de Rezende Costa e Helena Maria de Jesus, meus 8º avós, possuíam apenas o usufruto da casa do Engenho Velho do Cataguás, e os filhos padres, João de Rezende e Gabriel, é que ajudavam na manutenção da fazenda, tendo pago algumas dívidas e, com isso, teriam recebido o sítio como pagamento.

 

Para saber sobre a localidade onde nasceu Helena Maria de Jesus acesse os links abaixo:

👉Sobre Freguesia Nossa Senhora das Angústias, Ilha do Faial, Açores, Portugal 

👉Imagens da Freguesia Nossa Senhora das Angústias, Ilha do Faial, Açores, Portugal 

Freguesia Nossa Senhora das Angústias, Ilha do Faial, Açores, Poertugal

 

 

 

Para saber sobre a Fazenda Engenho Velho do Cataguás em Lagoa Dourada , Minas Gerais, onde viveram meus 8º avós João de Rezende Costa e Helena Maria de Jesus acesse o link abaixo:

👉Imagens da Fazenda Engenho Velho de Cataguás, Lagoa Dourada, Minas Gerais 

👉Ainda sobre a Fazenda Engenho Velho do Cataguás, Lagoa Dourada, Minas Gerais

Fazenda Engenho Velho de Cataguás


Detalhes dos muros de pedra da Fazenda Engenho Velho do Cataguás


Fazenda Engenho Velho de Cataguás- Senzala

  


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ÍNDICE E APRESENTAÇÃO

8º avós ou octavós pelo lado de meus avós Fortunato Machado Rocha ( Natim), avô paterno e Aristeu Machado Rocha, avô materno, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) e Lídia Fernandes Rocha

3º avós ou trisavós pelo lado de vovô Fortunato (Natim) e vovô Aristeu, seguindo a linha ancestral de seus pais Antônio Bonifácio Machado e Lídia Fernandes Rocha, bem como 3º avós pelo lado de Valdomira Barbosa sucupira, esposa de Fortunato Machado Rocha ( Natim) e 3º avós pelo lado de Divina Frutuoso Soares, esposa de Aristeu Machado Rocha