Antônio Machado de Miranda e Catharina Maria de Jesus

 

  PS.:     

O Gráfico acima refere-se aos meus ancestrais (7º avós ou hepatavós) pelo lado de meu avô paterno Fortunato Machado Rocha (conhecido como Natim) e o avô materno Aristeu Machado Rocha.  O ponto de partida é o pai de ambos Antônio Bonifácio Machado. Nessa sequência siga o gráfico na segunda linha de cima para baixo.

 

 Antônio Machado de Miranda e Catharina Maria de Jesus

 

 Antônio Machado de Miranda, meu 7º avô nasceu no dia 23 de dezembro de 1713 na freguesia de Ribeirinha no município de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira de Açores, Portugal. Foi batizado no dia 28 de dezembro de 1713 na Igreja São Pedro da Ribeirinha. Ele faleceu no dia 18 de fevereiro de 1784 com 71 anos, embora no registro tenham colocado 65 justificado para mais ou menos. Conforme consta no registro ele morreu de repente, ou seja, teve morte súbita, não havendo tempo para receber o sacramento da confissão ou unção dos enfermos. Era filho de Manoel Machado de Miranda e Apolônia de Mendonça Machado, já citados antes em 8º avós.


Registro de batismo de Antônio- área circulada

 

Transcrição do Documento

Antônio filho de Manoel Machado de Miranda e de sua mulher Apolônia de Mendonça, fregueses  dessa Paróquia de São Pedro da Ribeirinha .... Angra , nasceu aos vinte e três dias do mes de dezembro de mil e setecentos e treze anos, foi batizado por mim....  em os  vinte e oito dias do dito ano, foram  padrinhos Matheus Machado  e... todos desta dita freguezia... de que fiz este assento que assinei... data ut supra.

O Vigario Manoel da Sylva Cardozo
O Coadjutor Manoel de Oliveira


 

Registro de óbito de Antônio- área circulada

 

Transcrição do documento

Antônio Machado de Miranda, casado com Catarina Maria

Aos dezoito dias do mês de fevereiro de mil setecentos e oitenta e quatro anos, faleceu Antônio Machado de Miranda, da idade de secenta e cinco anos, mais ou menos, casado com Catarina Maria.

Não recebeu os sacramentos por morrer de repente. Seu corpo, envolto em hábito [de belfre] de São Francisco, foi acompanhado com o Colégio desta Paróquia e mais seis ministros de fora, com a Irmandade do Santo Cristo com as suas cruzes, e assim também [os ministros] da mesma Igreja e da Ordem Terceira de que era irmão.

Teve ofício de corpo presente no dia de seu enterro. Foi sepultado nesta mesma Igreja em sepultura da Fábrica. Não fez testamento e, para constar, fiz este termo fiz este termo de dia, mês e ano como acima.

O Vice-Vigário Antônio Rodrigues Coelho

 



Catharina Maria de Jesus, esposa de Antônio e minha 7ª avó, nasceu no dia 24 de novembro de 1717 também na Freguesia de São Pedro da Ribeirinha, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, Portugal. Foi batizada no dia 30 de novembro desse mesmo ano de 1717. Ela faleceu no dia 5 de janeiro de 1785, quase 11 meses depois do falecimento do esposo e foi sepultada em sepultura de fábrica na  Igreja de São Pedro da Ribeirinha, mesma localidade onde foi batizada. Era filha de José Fernandes e Ângela Maria de Jesus, já citados em 8º avós.

 

Registro de batismo de Catarina- área circulada

 

Transcrição do documento

Catarina, filha de José Fernandes natural desta Freguesia de São Pedro da Ribeirinha e de sua mulher Ângela Maria, natural desta freguesia de São Pedro da Ribeirinha, nasceu no dia 24 de novembro de 1717 e foi batizada no dia 30 desse mês.

Foram padrinhos João Machado filho de Maria da Rocha viúva de Antônio de Aguiar, todos desta Freguesia....

E para constar que isso aconteceu, fiz este registro que assinei junto com o dito Padre.

Vigário Inácio Cardoso Velho

 

 

Registro de óbito de Catarina- área circulada

Transcrição do documento

1785
Catarina Maria, viúva de Antônio Machado de Miranda

Aos cinco dias do mês de janeiro de mil setecentos e oitenta e cinco, faleceu Catarina Maria, viúva de Antônio Machado de Miranda, da idade de sessenta e oito anos, pelo mais ou menos, freguesa desta Paróquia de São Pedro, do lugar da Ribeirinha.

Recebeu todos os sacramentos. Seu corpo foi envolto em hábito de São Francisco e acompanhado pelo Colégio desta Igreja e mais [ministros] de fora, e com os irmãos da Irmandade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesta mesma Igreja foi sepultada, em sepultura da Fábrica. E para constar, fiz e assinei este termo, data como acima.

O Vigário Antônio Rodrigues Coelho

Nota na margem esquerda:

"Paga o q devia em 2 de Junho de 1785"

 

  • Por que a taxa do funeral demorou tanto para ser paga?
    Uma das maiores curiosidades do registro de óbito de Catarina Maria é a anotação na margem esquerda, que indica que as taxas do funeral (os direitos paroquiais) só foram quitadas em 2 de junho de 1785, quase cinco meses após o seu falecimento, ocorrido em 5 de janeiro. Esse intervalo de tempo não era um descaso, mas sim o retrato fiel da realidade da época. Com dois de seus filhos já estabelecidos no Brasil (na próspera região das Minas Gerais), a notícia do falecimento precisava cruzar o Oceano Atlântico a bordo de navios, uma viagem que levava facilmente de dois a três meses. Apenas após receberem a correspondência é que os filhos podiam providenciar o envio dos recursos — em ouro ou letras de câmbio — de volta à Ilha Terceira para que os parentes locais ou procuradores pudessem, finalmente, saldar as dívidas com a Fábrica da Igreja.

  • Os Sacramentos: Diferente de Antônio, que "morreu de repente", Catarina "recebeu todos os sacramentos" (confissão, comunhão e extrema-unção) antes de morrer, o que indica que ela teve uma doença ou agonia prolongada, dando tempo de o padre assisti-la em seu leito de morte.
  • O Sepultamento: Ela teve exatamente o mesmo prestígio social e religioso do marido: foi amortalhada com o hábito de São Francisco e enterrada nas sepulturas da "Fábrica" (o chão interno) da própria Igreja Matriz de São Pedro da Ribeirinha.

O que significa "Sepultura da Fábrica"?
Nos registros antigos, o termo "Fábrica" não se refere a uma indústria, mas sim à tesouraria ou caixa financeiro que administrava os fundos para a manutenção e obras da paróquia. Até o século XIX, antes da criação dos cemitérios públicos, os sepultamentos eram feitos dentro dos próprios templos. Ser enterrado em uma "sepultura da Fábrica" significava que a pessoa recebia uma cova sob o chão de madeira ou pedra no interior da igreja matriz, mediante o pagamento de uma taxa específica a essa tesouraria. Esse tipo de enterro era reservado a famílias com melhor condição financeira e prestígio social, diferenciando-se dos sepultamentos gratuitos que ocorriam nos adros (os quintais de terra ao redor da igreja). 




Antônio Machado de Miranda e Catarina Maria de Jesus, meus 7º avós se casaram em agosto de 1743, quase dois anos depois de ele ter se enviuvado. Com Catharina Antônio teve alguns filhos, conforme consta no FamilySearch:
 
1. Antônio Machado de Miranda, nascido em julho de 1744, porém faleceu um mês depois;
 
2. Francisco Fernandes de Miranda, nascido em outubro de 1745;
 
3. Ângela Maria, nascida em março de 1747 
 
4. Antônio Machado de Miranda, nascido em 1749 e veio para o Brasil na década de 1770; 
 
5. Manoel Fernandes de Miranda, nascido aproximadamente em 1752 e veio para o Brasil. 
 
Entre eles destaco Antônio Machado de Miranda, meu 6º avô, casado com Ana Joaquina de Rezende, neta de Helena Maria de Jesus, a mais nova das Três Ilhoas.
 
 
Parte do livro de registros de casamento de Ribeirinha, Ilha Terceira, Açores, onde consta o casamento de Antônio Machado de Miranda e Catharina. no lugar onde aparece o dia, está manchado, mas o mês e o ano estão legíveis

 
 Transcrição do documento
 

Aos [data] de Agosto de 1743, nesta Paroquial Igreja de São Pedro da Ribeirinha, termo da Cidade de Angra, por ordem do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo... na presença das testemunhas abaixo assinadas, José Machado Miranda e Manuel Martins, naturais e moradores nesta mesma freguesia, e na presença de outras mais pessoas, se casaram com palavras de presente em face da Igreja:

Antônio Machado de Miranda, viúvo que ficou de Antônia da Conceição, com Catarina Maria, filha de José Fernandes e de sua mulher Ângela Maria, já falecida; ambos os contraentes são naturais e batizados nesta mesma freguesia e nela moradores.

E não lhes sendo detectado nenhum impedimento [legal ou religioso], os recebi e em tudo observei as Constituições do Bispado e a forma do Sagrado Concílio Tridentino. E para constar, fiz este termo que assinei.

O Vigário Domingos da ...

 

 

A primeira esposa de Antônio Machado de Miranda

Antes de se unir a Catarina Maria de Jesus, Antônio Machado de Miranda casou-se pela primeira vez no ano de 1741 com Antônia da Conceição, na Freguesia de Ribeirinha. Essa união, contudo, seria tragicamente breve, deixando-o viúvo logo no ano seguinte, em 1742.

A tragédia que abalou o primeiro casamento de Antônio

Antônio e Antônia trocaram votos na tarde do dia 5 de novembro de 1741. Ela era filha de Antônio Gomes (já falecido desde 1736) e de Marta Evangelho. O matrimônio durou apenas um ano e dez dias: em 15 de novembro de 1742, Antônia faleceu.

O ano de 1742 foi um período extremamente severo na Ilha Terceira. Sob os efeitos da Pequena Idade do Gelo, o clima desfavorável arruinou as plantações, deflagrando uma grande fome generalizada. Para agravar o cenário, uma forte epidemia de gripe assolou a ilha. Conforme pesquisas que realizei diretamente no Livro de Registro do Tombo de Ribeirinha, algo avassalador aconteceu na paróquia: em menos de três meses, cerca de 30 pessoas perderam a vida na freguesia. Ao que tudo indica, essa crise de saúde e abastecimento durou o ano inteiro.

Além da família de sua esposa, a tragédia também bateu à porta do próprio Antônio. Na mesma época, registrou-se o falecimento de alguns membros da família Machado de Miranda. Embora a falta de documentos detalhados impeça a comprovação exata do grau de parentesco de todos eles, a ligação de sangue é certa. Entre eles, destaca-se um tio de Antônio e sua respectiva esposa, que faleceram juntos por volta de abril daquele ano — uma perda dupla que reforça como a crise ceifava casais inteiros e já se arrastava desde o início de 1742.

Ao que tudo indica, a família de Antônia da Conceição foi duramente castigada por essa crise sanitária. Algo muito sério ocorreu, pois nenhuma estrutura familiar desmorona em um "efeito dominó" tão rápido sem que haja uma catástrofe por trás.

Essa dolorosa sequência de perdas começou no dia 21 de outubro de 1742, com a morte de Marta, a mãe de Antônia. A partir daí, o luto avançou de forma avassaladora pela casa: no dia 5 de novembro, Antônio, o irmão mais velho de Antônia, partiu. Apenas quatro dias depois, em 9 de novembro, foi a vez de sua irmã Joana falecer. A tragédia atingiu o ápice quando a própria Antônia da Conceição veio a falecer no dia 15 de novembro. E a dor da família ainda não havia terminado: sua cunhada Margarida faleceu no dia 18 de novembro, e Manuel, outro irmão de Antônia, partiu no dia 30 do mesmo mês. Em um único e terrível mês de novembro, Antônio Machado viu quase toda a família de sua esposa ser levada.

Vale notar que a tragédia já rondava os parentes meses antes, com os falecimentos de uma tia de Antônia e seu respectivo marido em maio, seguidos por outra tia e o cônjuge em agosto.

É imensurável a quantidade de lutos que Antônio Machado de Miranda teve que enfrentar e superar em um intervalo tão curto de tempo. Apesar da profunda dor, a vida precisava seguir o seu curso, e ele refez sua história oito meses mais tarde, ao casar-se com Catarina, embora no primeiro de casamento tenha sofrido outro baque com a morte do primeiro filho de apenas um mês.

 

Registro do batismo de Antônia da Conceição- área circulada

 Transcrição do documento

Antônia, filha de Antônio Gomes e de sua mulher Marta Evangelho, natural desta paróquia de São Pedro da Ribeirinha, termo da Cidade de Angra da Ilha Terceira.

Nasceu no dia 4 de abril de 1712 e foi batizada no dia 18 do mesmo mês por mim, Manuel d'Azevedo, Vigário dela.

Foram padrinhos... Desses ditos padrinhos recebi os devidos compromissos na presença das testemunhas abaixo assinadas e de muitas outras pessoas que eram moradoras na dita paróquia desta dita Cidade.

E em fé do que, para constar, fiz este termo que assinei junto com as ditas testemunhas moradoras na dita freguesia.

Vigário Manuel d'Azevedo
Pedro Pinheiro

 

 

Registro de casamento de Antônia e Antônia da Conceição- área circulada

 Transcrição do documento

No dia cinco de novembro de 1741, à tarde, nesta Igreja Paroquial de São Pedro da Ribeirinha, termo da Cidade de Angra, na presença das testemunhas abaixo assinadas ... e de muitas outras pessoas, se casaram por palavras de presente in facie Ecclesiae [em face da Igreja] como marido e mulher, segundo os mandamentos da Santa Madre Igreja Romana:

Antônio Machado de Miranda, filho de Manuel Machado de Miranda e de sua mulher Apolônia Machado, ambos já falecidos; com Antônia da Conceição, filha de Antônio Gomes, já falecido, e de sua mulher Marta Evangelho. Todos são naturais e moradores desta referida freguesia.

E não lhes sendo detectado nenhum impedimento [estando desobrigados], os recebi conforme as Constituições do Bispado e as regras do Sagrado Concílio Tridentino. Para constar, fiz este termo e assinei junto com as testemunhas.

Vigário Inácio Cardoso Velho


Registro de óbito de Antônia da Conceição- área circulada

 

 Transcrição do documento

Antônia Mª, mulher de Antônio Machado Miranda, de idade de 30 anos e pouco mais ou menos, faleceu no dia 15 de novembro de 1742.

Morreu com os Sacramentos na forma da Santa Madre Igreja, e a mesma não fez testamento.

E para constar, eu, o dito Vigário, assinei este termo. O seu sepultamento foi realizado na dita Igreja e levou todas as cruzes, sendo sepultada na fábrica da Ermida de Santo Antônio.

Vigário Inácio Cardoso Velho

 


  

 

 

Sobre Ribeirinha, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, Portugal

Como era viver na Ribeirinha no Século XVIII?

 

Para compreender a trajetória dos nossos antepassados, precisamos olhar para o chão que eles pisaram. No século XVIII, a freguesia de São Pedro da Ribeirinha, localizada na costa sul da Ilha Terceira, era um cenário de contrastes: uma beleza natural impressionante, uma fé comunitária inabalável, mas também uma rotina de isolamento e extrema dureza.

O cotidiano da localidade dividia-se em duas épocas muito distintas:

 


Primeiro Período (1712 a 1743): O Isolamento e a Subsistência Bruta

 Nesta primeira metade do século, a Ribeirinha era uma típica comunidade rural açoriana, profundamente dependente dos ciclos da terra e do mar. Viver ali significava enfrentar desafios diários:

 

  • Geografia Isolada: Situada nas encostas da Serra da Ribeirinha, a freguesia ficava a cerca de 4 quilômetros de Angra. Embora pareça perto hoje, na época o trajeto era feito a pé ou em carros de boi por caminhos de terra íngremes e difíceis. Isso criava um isolamento que forçava os moradores a depender quase exclusivamente do que produziam localmente.

 

  • A Economia da Encosta: A vida girava em torno do cultivo de subsistência nas terras férteis alimentadas pela ribeira local (que deu nome ao lugar). Plantava-se trigo, milho, vinhas e criava-se gado. Quem vivia mais perto do litoral dependia da pesca e da perigosa colheita de urzela nas rochas marinhas para a indústria de tinturaria. 
  • A Velha Igreja de São Pedro: O centro espiritual e social era a antiga paróquia do século XVI. Foi ali que as famílias se uniram para enfrentar as terríveis crises agrícolas que culminaram na grande tragédia de fome e epidemia de 1742. A igreja não era apenas um templo; era o local onde as confrarias (como a do Santíssimo Sacramento e a das Almas) organizavam o amparo social mútuo quando o governo falhava.

 


O Ano que Parou a Freguesia: O Trágico Outono de 1742

Fazer pesquisa genealógica vai muito além de amontoar nomes e datas em uma árvore decorativa. O verdadeiro valor de resgatar o passado está em mergulhar nos livros de registro paroquial e compreender as dores, os cenários e a resiliência daqueles que nos antecederam. Recentemente, analisando os Livros de Óbitos da Paróquia de São Pedro da Ribeirinha, na Ilha Terceira (Açores), deparei-me com um cenário devastador que marcou profundamente a minha própria história familiar.

Os meus antepassados viveram e resistiram na Ribeirinha em um período conturbado, documentado entre 1712, 1743 e 1785. Contudo, um ano em específico saltou das páginas amareladas do Livro do Tombo como um grito de socorro: o terrível ano de 1742.

A Devastação de um Outono Sombrio

Folheando os registros daquele período, um dado estatístico me chamou a atenção pela sua gravidade. Entre os meses de outubro e novembro de 1742, a freguesia da Ribeirinha registrou um surto brutal de mortalidade. Em apenas um único mês, contabilizam-se mais de 30 registros de mortes — um número assustadoramente alto para uma pequena comunidade rural e litorânea da época.

Foi exatamente nesse trágico outono que o meu sétimo avô testemunhou uma tragédia pessoal avassaladora: ele viu morrer, uma a uma, muitas das pessoas da família de sua primeira esposa.

O Contexto Histórico: O "Ano da Fome" nos Açores

Para quem lê o livro hoje, o pico de mortes pode parecer apenas uma estatística fria, mas a história contextualiza o tamanho do sofrimento. Os anos de 1742 e 1743 ficaram conhecidos no arquipélago açoriano por uma das maiores crises agrícolas e de subsistência do século XVIII.

A quebra total na produção de trigo espalhou a fome generalizada pelas ilhas, enfraquecendo o sistema imunológico da população. Com a chegada do frio e da umidade em outubro, doenças oportunistas e altamente contagiosas da época — como o tifo exantemático (as chamadas "febres malignas"), a disenteria e as pneumonias — varreram a ilha. Sem isolamento ou medicina moderna, as epidemias dizimavam famílias inteiras em questão de dias.

Essa crise de miséria e mortandade iniciada em 1742 foi tão severa na Ilha Terceira que, poucos anos depois, a Coroa Portuguesa começou a incentivar fortemente a emigração em massa de casais açorianos para o Brasil (principalmente para Santa Catarina e Rio Grande do Sul), como uma tentativa de salvar aquela população da extrema pobreza.

  


Segundo Período (A partir de 1785): Reconstrução e Mudança de Cenário

Quatro décadas após a devastadora crise da fome dos anos 1740, a Ribeirinha que encontramos na década de 1780 apresentava profundas mudanças em sua estrutura. A antiga igreja medieval fora substituída pela nova e imponente Igreja de São Pedro da Ribeirinha, e o lugar da Feteira expandia-se com novas casas e vinhas sobre o solo de "biscoito".
A vizinha cidade de Angra, elevada a capital da Capitania Geral dos Açores em 1766, movimentava a economia local, consumindo o leite, a carne e a lenha produzidos na freguesia. No entanto, a calmaria durou pouco, e o destino reservava um último teste de sobrevivência para aquela geração.
Porém, o ano de 1785 ficou tristemente gravado nos anais da Ilha Terceira como o "ano de fome". Uma quebra severa e generalizada nas safras de trigo e milho lançou a ilha em uma nova e dramática crise de subsistência. A escassez foi tão extrema que a desnutrição abriu portas para epidemias que dizimaram famílias inteiras. A situação foi tão desesperadora que o Capitão-Geral da época precisou intervir às pressas, importando cereais de fora para evitar o extermínio completo da população.
Foi exatamente no epicentro dessa tempestade que a jornada dos meus antepassados na Ribeirinha chegou ao fim. Após cruzarem quase todo o século XVIII resistindo a isolamentos e intempéries, o casal se despediu do mundo com poucos meses de diferença. O meu sétimo avô faleceu em 1784, às vésperas da crise. Já a minha sétima avó, Catarina, faleceu em 1785, partindo no auge daquele trágico "ano de fome".
Ela, que na juventude testemunhara o horror do outono de 1742 na Ribeirinha, encerrou seus dias vendo a terra fechar-se em escassez mais uma vez. Um desfecho doloroso, mas que sela o tamanho da força e da resiliência da linhagem que nos trouxe até aqui.

Revisitar a Ribeirinha entre 1712 e 1785 é compreender uma comunidade que passou por um ciclo completo: do isolamento agrário severo à provação extrema da peste, desaguando em uma fase de reconstrução paroquial e expansão no final do século.

 

Para saber mais sobre Ribeirinha, acesse o link abaixo: 

  👉 Sobre Ribeirinha, Ilha Terceira, Açores, Portugal

 👉 Sobre Ribeirinha, Ilha Terceira, Açores, Portugal- YouTube

👉 Serra da Ribeirinha, Terceira, Açores 


 
 
Vista aérea de Ribeirinha, Ilha Terceira Açores, Portugal
 

 

Criação de gado em Ribeirinha, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, Portugal- detalhe das cercas de pedra, tradição da ilha

 

Serra da Ribeirinha

 

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