Antônio Bonifácio
Machado e Lídia Fernandes Rocha
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| Meu bisavô Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe |
PS.: Depois de toda
essa sequência de 8º avós até 3º avós, chega-se finalmente aos seus
descendentes Antônio Bonifácio Machado, o famoso vovô Tõe e Lídia Fernandes
Rocha, estes, pais de Fortunato Machado Rocha, meu avô paterno, conhecido como
Natim e Aristeu Machado Rocha, meu avô materno. Vale ressaltar que vovô Tõe se
casou outras vezes e teve outros filhos, conforme imagens a seguir:
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| Descendência do casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Lídia Fernandes Rocha, sua primeira esposa e minha avó legítima. |
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| Descendência do casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Maria Elódia da Rocha, sua segunda esposa irmã da primeira esposa. |
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| Descendência do suposto casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Maria Gama, conforme relatos. |
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| Descendência de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Helena, sua amante. |
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| Descendência do casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Eudóxia Frutuoso Soares, sua última esposa. |
Antônio Bonifácio Machado, meu bisavô — a quem chamávamos carinhosamente de vovô Tõe —, nasceu provavelmente em Abadia dos Dourados, Minas Gerais, no ano de 1885. Estimamos esse ano porque ele tinha 36 anos quando seu pai faleceu, em 1921, embora não tenha sido possível descobrir o dia exato de seu nascimento.
Vovô Tõe faleceu no dia 21 de abril de 1974, um domingo, às duas horas da madrugada, também em Abadia dos Dourados, aos 89 anos de idade. Conforme seu atestado de óbito, a causa mortis foi insuficiência cardíaca, arteriosclerose e doença de Chagas. Ele partiu em sua própria casa, localizada na "rua de baixo" da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Abadia — a Rua Laurentino Batista Leite. Eu cheguei a conhecer essa casa, pois a visitava com meus pais nas festas de agosto de Nossa Senhora da Abadia, época em que seu filho, o tio Divino, morava lá com a tia Leonor.
Quem atestou o óbito do meu bisavô foi o jovem médico Dr. Jarbas Mundim Porto, de Coromandel, Minas Gerais, mas que na época, morava em Abadia dos Dourados. Hoje ele já é falecido, mas, por uma bonita coincidência do destino, o Dr. Jarbas foi pai do neurologista Dr. Bruno, que atualmente é o médico do meu esposo.
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| Certidão óbito do vô Tõe |
Na data do falecimento do meu bisavô, em abril de 1974, eu tinha apenas 10 anos. Naquela época, eu morava no casarão dos meus avós paternos, na cidade de Coromandel, Minas Gerais, para cursar a quarta série. Por mais que eu me esforce, não consigo me lembrar dele pessoalmente. No entanto, guardo viva na memória a imagem de um quadro na parede da pequena sala do casarão, bem acima da porta pintada de rosa forte que dava para o salão sobre o porão.
Era uma daquelas tradicionais fotopinturas, muito comuns naquele tempo. Eu passava horas olhando para aquele quadro. Meu bisavô Tõe era um homem muito bonito. Na imagem, seus cabelos e bigode já estavam grisalhos, e os olhos eram azuis — uma herança marcante de seus ancestrais açorianos. Ele transmitia um ar sereno e cândido, que parecia o oposto das histórias que contavam sobre ele: a de um homem que, se fosse contrariado, logo apelava para a carabina. Esse quadro acabou sumindo após a demolição do casarão dos meus avós, e ninguém sabe seu paradeiro. Felizmente, minha sobrinha Iara encontrou uma cópia idêntica com um neto dele que, por sinal, herdou o mesmo nome do avô.
Sobre a fisionomia do vovô Tõe, um primo que o conheceu me contou que ele era um homem baixo e que se parecia muito com seu filho Sebastião, meu tio-avô Tião. Ele confirmou que o bisavô era calmo, mas que tinha momentos de extrema braveza.
Um fato muito interessante é que o dia do falecimento do vovô Tõe coincide com o dia do enforcamento de Tiradentes, ocorrido 182 anos antes. E a coincidência histórica vai além: Tiradentes era seu quarto tio-avô (ou tio-tataravô). A irmã mais nova do Mártir da Inconfidência, Antônia Rita de Jesus Xavier, era a tataravó do meu bisavô.
Vovô Tõe era filho de Bonifácio Machado de Miranda e Idalina Amada de Jesus, a quem já citei anteriormente como meus trisavós (ou terceiros avós).
Lídia Fernandes Rocha, esposa do vovô Tõe e minha bisavó, nasceu aproximadamente em 1888. Não foi possível precisar seu local de nascimento: pode ter sido na Fazenda Castelhana, em Monte Carmelo, Minas Gerais, onde seus pais viveram por um período, ou na Fazenda Limoeiro da Samambaia, no município de Guarda-Mor, Minas Gerais — terras que, na época, pertenciam ao Distrito de Santo Antônio do Rio Verde em razão de um litígio territorial entre os estados.
Por dedução, minha bisavó Lídia faleceu entre 1921 e 1923. Relatos familiares contam que sua filha mais velha, Maria Machado Rocha (nascida em 1907), tinha apenas 14 anos quando a mãe partiu. De qualquer forma, documentos de venda de terras dos herdeiros da mãe do vovô Tõe, datados de 1923, confirmam que ele já constava como viúvo. Ela provavelmente está sepultada no antigo cemitério cercado de pedras que existe na Fazenda Pilões, onde ficam alguns jazigos da família. Minha bisavó Lídia era filha de Fortunato Fernandes Rocha e Alexandrina Fernandes Rocha, a quem já citei como meus trisavós.
De acordo com uma prima já idosa, neta da bisavó Lídia, ela faleceu devido a complicações no parto de seu nono filho, o José Machado Rocha — a quem chamavam carinhosamente de Zezinho. Essa prima me relatou um detalhe tocante: alguém, provavelmente sua mãe Alexandrina, que vivia na fazenda vizinha (a Samambaia), foi buscar uma canja de galinha para Lídia na cozinha; ao retornar, a filha já estava morta. Naquele período, a família vivia na Fazenda Pilões (herdada dos pais de Lídia após o falecimento de seu pai, por volta de 1906), embora a região fosse popularmente conhecida pelo nome de Suçuarana.
O recém-nascido Zezinho foi levado pela avó Alexandrina, que cuidou dele até os oito anos de idade, quando o pai, vovô Tõe, o buscou de volta. Contudo, por uma triste ironia do destino, o menino faleceu de tétano logo no ano seguinte, aos nove anos.
Sobre a bisavó Lídia, quase não restaram relatos, exceto a lembrança de que era uma mulher belíssima. Quando ela faleceu, meus avós Fortunato e Aristeu eram muito pequenos e provavelmente não guardaram memórias da mãe. A morte prematura de Lídia trouxe imensos transtornos ao meu bisavô Antônio Bonifácio. Com crianças tão pequenas, ele precisou se desdobrar para cuidar de tudo, contando apenas com o auxílio da filha mais velha, de 14 anos.
O vovô Tõe chegou a se casar novamente, mas sua segunda esposa também faleceu pouco tempo depois, em menos de dois anos. A essa altura, a filha mais velha e uma outra irmã (cujo nome não se recorda) já haviam se casado bem novinhas. Conta-se que, diante da falta de estrutura e do desamparo, as crianças menores chegavam a ficar dias sem tomar banho. Foi por isso que essas filhas já casadas decidiram intervir, levando, cada uma, dois dos irmãos menores para criar até que crescessem.
O Coronel: As Terras e o Poder do Vovô Tõe
Como meus avós já partiram e na juventude não me ocorreu fazer essas perguntas a eles, o que sei hoje sobre o vovô Tõe vem de relatos de outros parentes. E essas memórias pintam o retrato falado de um verdadeiro "coronelão" da época: um homem que andava sempre escoltado por dois jagunços, trazia um revólver Smith na cintura e era dono de uma quantidade impressionante de terras.
Entre as suas propriedades, ele possuía uma fazenda na localidade que hoje se chama Marques, cujas divisas se estendiam até a região do Mangue, no município de Coromandel, Minas Gerais. Vovô Tõe também era dono da Fazenda Pilões, em Guarda-Mor — propriedade que exibia longas cercas de pedras construídas por escravizados. Tudo indica que essa era a mesma área conhecida popularmente como Suçuarana, onde ainda hoje existe uma fazenda com esse nome. Foi ali, naquela imensidão, que nasceu a maioria dos filhos do meu bisavô.
Sobre a Fazenda Pilões, os parentes guardam um causo hilário: uma parte daquelas terras foi vendida a prestações para o cunhado de seu filho, o tio Dário. Segundo contam, o negócio foi tão peculiar que o vovô Tõe aceitou receber a última parcela da dívida inteiramente em frangos.
O Cerco no Casarão e o Tiro na Janela
Outra história marcante, mas de tom bem mais sombrio, aconteceu no antigo casarão que existia na "manga" (uma espécie de pasto), onde hoje fica a fazenda dos filhos do meu tio-avô Dário. Meu pai contava que aquela majestosa casa pertenceu originalmente ao pai do vovô Tõe — o Bonifácio Machado de Miranda, conhecido como "Vô Gordo" —, e que no tempo dele os currais eram construídos em forma de valas. Mais tarde, a fazenda ficou para o vovô Tõe, que residiu ali por um período.
Foi nesse casarão que se desenrolou um triste e violento episódio, narrado por um tio meu, irmão da minha mãe. Vovô Tõe havia contratado um homem para "bater os pastos" (limpar a vegetação), dando como pagamento adiantado um porco gordo. O trabalhador abateu o animal e consumiu a carne, mas não apareceu para cumprir o serviço combinado.
Com o sangue quente diante do prejuízo e do desrespeito, vovô Tõe foi atrás do homem e o trouxe amarrado para a fazenda até que o trabalho fosse totalmente executado. O homem limpou o pasto, mas sentiu-se profundamente humilhado pelo castigo físico — uma afronta que certamente poderia ter sido evitada com o diálogo.
Dias depois, buscando vingança, o trabalhador retornou acompanhado do filho e armado com uma carabina. Diante do grande casarão, gritou em fúria, desafiando o meu bisavô a sair para morrer. Meu avô Fortunato (o Natim), que já era casado mas ainda morava com o pai, segurou firmemente o vovô Tõe dentro da casa, prevendo que uma tragédia maior aconteceria se ele pisasse do lado de fora.
Contido pelo filho, o bisavô não saiu. No entanto, agiu rápido: pegou sua própria carabina e, através de uma fresta da janela semiaberta, disparou um tiro certeiro na testa do cobrador. O homem caiu morto no terreiro, e seu filho, aterrorizado, fugiu correndo. Apesar do desfecho trágico e violento da disputa, os relatos dizem que o próprio vovô Tõe fez questão de arcar e cuidar de todos os detalhes do funeral do infeliz.
 | | Moita da açucena que sobrevive por várias décadas
onde antes fora o casarão da fazenda de meu bisavô Tõe- clicada por mim por
volta de 2016. |
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Fantasmas no Casarão e a Açucena que Sobreviveu ao Tempo
Algum tempo após a tragédia do tiro na janela, meu bisavô Tõe arrumou mala e cuia e se mudou novamente para a Fazenda Pilões. No casarão, ficaram morando meus avós Fortunato e Valdomira. Contava meu pai que, um belo dia, as enormes janelas de aroeira começaram a se abrir e a se fechar sozinhas, sem explicação. Com medo daquela assombração, meus avós também arrumaram mala e cuia e abandonaram o casarão para sempre. Sem moradores, a imponente construção foi se transformando em ruínas, até que não restasse mais nenhum sinal dela.
Conforme meu pai descrevia, o majestoso casarão havia sido erguido sobre alicerces de aroeira — madeira nobre que também dava forma aos altos portais, às pesadas portas, às grandes janelas e ao assoalho. Até os currais eram feitos com tábuas de aroeira.
Hoje, de todos os relatos que envolvem essa antiga morada, restou apenas uma prova viva de sua existência: uma bela e perene moita de açucena branca. Meu pai contava que ela ficava exatamente ao lado da escada da porta da sala do casarão. Incrivelmente, ela floresce até hoje, sempre no mês de setembro. Tive a oportunidade de fotografá-la às margens da estrada quando fui visitar meu pai na fazenda. Eu a vi pela primeira vez em 2008 e achei muito estranho aquela moita de açucena isolada no meio do pasto; foi quando comentei com meu pai e ele me revelou a história do casarão do vovô Tõe.
A açucena é uma planta perene, ou seja, tem um ciclo contínuo e permanente. Suas folhas e o caule morrem na seca, mas o bulbo oculto na terra continua vivo e brota anualmente no tempo certo. Isso justifica como a planta conseguiu sobreviver a tantas décadas, resistindo bravamente até mesmo às arações da terra para o plantio de milho ou formação de pastagens para o gado. O mais bonito é que, a cada ano, seus bulbos se multiplicam e continuam se alastrando pelo solo da antiga fazenda.
Crime em Pilões e um Advogado de Avião
Ainda sobre as histórias trágicas do vovô Tõe, um neto dele, em conversas comigo por telefone, revelou uma passagem marcante. Um vizinho meu também contou exatamente a mesma história: meu bisavô teria dado cabo da vida de um peão em sua fazenda em Pilões, porque o homem havia tentado tomar liberdades com sua esposa. Não sei ao certo qual das esposas era, mas acredito ter sido a Eudóxia — sua última esposa — ou, talvez, uma amante que ele mantinha por lá, chamada Helena. O neto que me narrou o fato tinha apenas oito anos na época, e minhas bisavós Lídia e Maria Elódia (as primeiras esposas) já haviam falecido.
Por conta desse assassinato, vovô Tõe foi a julgamento na cidade de Paracatu, Minas Gerais. Esse mesmo neto se lembra nitidamente do avô ajeitando os pertences para levar para a cadeia, incluindo o próprio colchão.
Contudo, sobre esse julgamento, um bisneto conta uma história diferente: ele afirma que o bisavô foi julgado, na verdade, por tirar a vida de um homem que lhe devia dinheiro. Diante dessas versões, não se sabe ao certo por qual crime ele foi condenado, nem quanto tempo permaneceu detido. O fato é que não foi muito tempo. Segundo os relatos, meu bisavô era um senhor muito ilustre, dono de um nome influente e de muitas propriedades na região. Os advogados "arrancavam o couro" cobrando caro, mas não o deixavam preso por muito tempo.
Sobre os bastidores dessa soltura em Paracatu, outro primo me relatou uma passagem impressionante: um de seus filhos, meu tio-avô Dário, viajou até Patrocínio em busca de defesa. Lá, ele fretou um avião e voou direto para Paracatu para tentar dar um jeito na situação jurídica do pai. O advogado contratado se chamava Dr. Clodoveu. Após muita negociação, finalmente soltaram o vovô Tõe, que prometeu não arrumar mais confusão. Com certeza rolou muito dinheiro e muitos contos de réis nessa transação. Há relatos de que foi preciso inclusive vender terras para arcar com os custos. A fiança e o trabalho do Dr. Clodoveu provavelmente custaram os olhos da cara do meu bisavô.
O Mistério de Helena e os Filhos do Chapadão do Pau-Terra
Diante de tantos relatos, é impossível não se impressionar com o estilo de vida daquela época. Sobre a já mencionada Helena, apontada como amante do vovô Tõe, correm antigos boatos de que ela era casada e que seu marido teria sido assassinado pelo meu bisavô. Sendo boato ou fato, a verdade é que ela se tornou companheira dele — ou já mantinha essa relação antes do trágico ocorrido, algo difícil de precisar.
Com Helena, vovô Tõe teve dois filhos: o Clodoveu, que mais tarde morou em Palmitos, no município de Abadia dos Dourados, e o Salvador. A vida de Salvador foi interrompida precocemente aos 14 anos, vítima de uma bala perdida durante uma caçada. Dizem os relatos que, nesse período, vovô Tõe já havia levado os filhos que teve com Helena para viverem com ele, garantindo que frequentassem a escola no Chapadão do Pau-Terra.
Um tio meu, irmão da minha mãe, compartilhou uma memória comovente sobre essa parte da família. Ele contou que, certa vez, meu tio-avô Clodoveu comentou com ele chorando sobre como as pessoas julgavam severamente a sua mãe, tratando-a como se fosse uma prostituta por ter sido amante do vovô Tõe. Segundo Clodoveu, Helena era uma mulher honesta e muito trabalhadora. Ela havia sido casada legitimamente e tivera dois filhos com esse primeiro marido — justamente aquele que, segundo as histórias que o povo contava, fora assassinado pelo meu bisavô. Sem provas documentais, restam apenas as deduções e os ecos do passado.
O Preço do Sangue e a Queda do Império
Há outras histórias banhadas de sangue que correm na família. Meu pai contava que o bisavô tirou a vida de um homem pelo simples fato de ter sido enganado por ele. Dizia-se que o vovô Tõe jamais comia "carne de bicho" (caça). Um dia, jantando na casa desse amigo, serviram-lhe almôndegas que ele achou deliciosas. Ao perguntar de que carne se tratava, o amigo respondeu que era carne de tamanduá. Mal ouviu a resposta, vovô Tõe puxou a carabina do bolso do paletó e fuzilou o homem ali mesmo. Ele considerou uma desfeita imperdoável ter sido enganado, já que naquela região todos conheciam sua aversão a esse tipo de carne.
Um tio meu, irmão da minha mãe e também neto do vovô Tõe, contava que ele deu cabo de outro homem que lhe acertou uma pedrada. O sujeito jogou a pedra porque o bisavô fazia xixi em um lugar indevido, e o impacto o derrubou e machucou. Dias depois, vovô Tõe foi lá e se vingou. Nessa época ele já era idoso, vivia na cidade de Coromandel e morava no velho casarão que mais tarde pertenceu ao seu filho Fortunato — o mesmo casarão onde eu nasci. Claro que, sendo histórias contadas de boca em boca, elas costumam ganhar novas nuances com o tempo, tornando impossível saber o teor exato da verdade.
O fato é que, depois de uma vida tão turbulenta, meu bisavô foi regredindo. Segundo aquela minha prima idosa, hoje com 93 anos, o motivo era claro: ele era "muito custoso" e, para homens assim, um dia "a casa cai".
Do que restou de suas fazendas, ele dividiu tudo em vida entre os filhos e mudou-se definitivamente para Coromandel com sua última esposa, a Eudóxia. Foram morar no velho casarão da Rua Artur Bernardes, nº 515, bem em frente a onde hoje fica a Biblioteca da Casa da Cultura. Vovô Tõe era o dono daquela propriedade, mas acabou cedendo-a ao filho Fortunato (o vovô Natim) em uma negociação entre os dois.
O Retorno ao Berço: De Grandes Casarões à Casinha de Chão Batido
De Coromandel, ele partiu de volta para Abadia dos Dourados, o berço onde nasceu. O exato lugar onde, no passado, um Machado de Miranda vindo de Curralinho dos Machado (em Lagoa Dourada, Minas Gerais) resolveu fincar as raízes da família.
Foi ali que vovô Tõe viveu até os 89 anos, sofrendo com lapsos de memória e habitando uma humilde casinha de chão batido. Justo ele, que outrora desfrutara dos mais belos casarões e possuíra móveis requintados. Algumas dessas relíquias ainda resistem ao tempo na casa do filho de um grande amigo dele naqueles tempos em Guarda-Mor (cuja Fazenda Pilões pertence hoje à cunhada desse filho): uma belíssima chapeleira de jacarandá e uma cristaleira.
Mesmo na velhice e em Abadia dos Dourados, seu lado mulherengo não se aquietou, facilitado pelas "zonas" de prostituição que existiam na cidade. Como já estava pobre, ele acabou encontrando uma moeda de troca peculiar para pagar suas orgias: as colchas de algodão tecidas no tear da família. Um dia, sua esposa Eudóxia notou o sumiço misterioso das peças. Ela mesma contou essa história divertida, anos mais tarde, durante uma visita à casa dos meus pais, quando o vovô Tõe já havia falecido.
No fim da vida, com a mente fragmentada e agindo feito criança, o antigo coronel passava os dias na rua catando tampinhas de refrigerante. Nos momentos de maior confusão, ameaçava tirar a roupa para nadar no tanque de lavar roupas de casa.
Memórias de Café Fumegante e o Colo do Vovô
Minha irmã mais velha, Célia Maria, lembra-se bem dessa casinha de chão batido em Abadia dos Dourados e da vovó Eudóxia — que já estava velhinha e curvada, usando um vestido de chita comprido até os tornozelos. Ela nos servia um café fumegante em pequenas xícaras esmaltadas verdes, o que parecia deixar a bebida ainda mais "pelando".
Embora nossa bisavó legítima tenha sido Lídia Fernandes Rocha (a primeira esposa), nós e nossos irmãos chamávamos a última companheira dele de vovó Eudóxia. Na verdade, por parte de mãe, ela era nossa tia-avó, pois era irmã da vovó Divina (mãe da minha mãe). É incrível como eu, pessoalmente, não consigo recordar os traços do rosto dela. Quando minha irmã Célia Maria visitou esse casebre, o vovô Tõe já havia falecido; meus pais tinham ido até lá justamente para visitá-la por ser tia da minha mãe.
Quando o vovô Tõe partiu, em abril de 1974, Célia Maria devia ter uns 12 anos e eu tinha 10. Eu não guardei memórias dele ou daquele dia, mas minha irmã se lembra perfeitamente. Ela conta que o vovô Tõe tinha os cabelos branquinhos e continuava sendo um homem muito bonito, mesmo idoso. Lembra-se também de que ele era extremamente amável: adorava colocar os netos no colo e lhes oferecer balas. Célia Maria, sistemática que era desde criança, passava longe dele por pura timidez, pois sabia que, se chegasse perto, não escaparia de ganhar um carinhoso aconchego no colo do avô.
O Desbravador do Sertão e a Verdadeira História das Mulas
Nem todos os relatos sobre o vovô Tõe eram cercados de sombras. Um irmão da minha mãe me garantiu que, na sua visão de neto, o bisavô era uma pessoa muito boa. Ele andava sempre montado em uma mula baia — termo que define a pelagem marrom-avermelhada ou castanha, geralmente acompanhada de crinas e cauda pretas —, já que suas fazendas, como a Marques e a Pilões, eram muito distantes umas das outras.
O fato de o vovô Tõe cortar o trecho no lombo de uma mula me faz recordar o papel crucial desses animais na nossa história. As mulas suportavam longas viagens por rincões antigos marcados por serras, vales e matas fechadas. Dom Pedro I, por exemplo, fazia suas viagens oficiais sobre uma mula. Ao contrário da imagem romântica do belo cavalo branco pintado por Pedro Américo no famoso quadro do Ipiranga, o Imperador montava um muar no dia do famoso "Independência ou morte", e sofria com uma forte dor de barriga por ter comido toucinho demais em Santos.
A verdadeira responsável pela Independência foi a Imperatriz Dona Leopoldina que, como regente, assinou a declaração no Rio de Janeiro e enviou a carta ao marido. A Dom Pedro restou apenas formalizar o ato na estrada. E o grito nem foi exatamente às margens do riacho, mas em uma pousada de beira de estrada onde a dona do estabelecimento lhe preparava um chá para conter o mal-estar.
Explicações históricas à parte, as mulas foram as verdadeiras desbravadoras do Brasil. Elas transportavam o ouro até os portos e abasteciam os povoados com alimentos, consolidando a rica cultura tropeira à qual meu bisavô pertencia.
Terno Xadrez, Balas Chita e o Fogão de Barro Branco
Vovô Tõe cruzava os caminhos sempre elegantemente trajado de terno, com um paletozão xadrez e chapéu na cabeça. Sempre que vinha para os lados do Chapadão do Pau-Terra, hospedava-se na casa do seu filho, o vovô Aristeu (pai da minha mãe), na Fazenda Marques.
Meu tio contava que, quando a silhueta do bisavô apontava no alto da serra, os netos gritavam em festa: "Vovô vem lá!". As crianças saíam correndo e disparavam morro acima para encontrá-lo ainda no sopé da montanha.
Ao avistar os netos, o imponente coronel descia da mula e desarmava-se de qualquer braveza. Enchia as mãos com balas "Chita", que tirava dos bolsos do paletó e das calças, e as distribuía entre a barulhenta algazarra. A partir dali, o retorno para o lar era um rito: vovô Tõe seguia caminhando a pé com as crianças, enquanto os netos disputavam a tapas o cabresto da mula. Conduzir o animal pelo morro abaixo era considerada a maior honra da infância. Conhecendo bem aquelas serras azuladas onde meus avós viviam, não me é difícil imaginar a beleza dessa cena.
Essa casa de fazenda ainda existia quando eu era mocinha e tive a oportunidade de conhecê-la. Naquela época, a propriedade já pertencia ao meu tio-avô Dário (irmão do vovô Aristeu) e quem morava ali era uma senhora chamada Dona Alexandrina. O chão da morada ainda conservava a terra batida e o fogão de lenha era feito de adobe, lustrado com barro branco.
Minha mãe recordava que, em sua infância, uma das tarefas sagradas das filhas do vovô Aristeu em todo final de semana era justamente lustrar aquele fogão com o barro claro moldado nas margens do córrego que corria nos fundos da casa. Era um lugar magnífico, guardado por um quintal repleto de mangueiras e cruzado por uma trilha estreita que levava até as águas limpas do riacho. Lembro-me perfeitamente de cada detalhe de lá.
Segundo o tio que me relatou essa história, os netos gostavam demais do meu bisavô Antônio Bonifácio. Ele era extremamente amoroso com todos eles. "Era gente fina pra caramba!", enfatizou meu tio com carinho.
Ainda de acordo com essas lembranças, quando o vovô Tõe já estava bem mais velho, ele costumava passar longas estadias na casa deles. Durante esses dias, passava o tempo todo fabricando vassouras artesanais com palhas retiradas de uma espécie de coqueiro — que acredito ser o Buriti. Meu bisavô cortava as palhas no mato, colocava-as para secar, tecia as vassouras com paciência e depois saía para vendê-las no Chapadão do Pau-Terra e em Coromandel.
Pelo visto, nessa época o vovô Tõe já não desfrutava mais de nenhuma riqueza. Ele já havia dividido o grosso de suas fazendas entre os filhos e o pouco que lhe restara acabou se esvaindo em negócios mal sucedidos...
O Litígio de Goiás e as Certidões do Rio Paranaíba
Havia algumas lacunas na vida do vovô Tõe que custei muito a compreender. Eu me perguntava: por que sua filha mais velha, Maria, havia sido registrada aos 14 anos em Santo Antônio do Rio Verde, em Goiás, e por que o casamento civil dela tinha sido realizado por lá?
A resposta veio através da geografia e da política da época. Descobri que, na década de 1920, a Fazenda Pilões e a região de Guarda-Mor não pertenciam ao distrito mineiro, mas sim ao Distrito de Santo Antônio do Rio Verde, em Goiás, devido a um antigo litígio territorial entre os dois estados. A Fazenda Pilões ficava a cerca de 60 quilômetros de distância de lá, o que exigia a dura tarefa de atravessar o Rio Paranaíba.
Ficam as perguntas no ar: eles teriam saído de Guarda-Mor, cruzado as águas do Paranaíba apenas para isso? Será que Joaquim Bonifácio Machado, irmão do meu bisavô, ainda era vivo e morava por aquelas paragens para lhes dar apoio? O mais provável é que o vovô Tõe tenha viajado até lá para lavrar a certidão de óbito de sua primeira esposa, Lídia, e aproveitou a ocasião para registrar a filha, retornando algum tempo depois para realizar o casamento dela.
Sobre esse irmão do vovô Tõe, o Joaquim Bonifácio Machado, ele vivia originalmente no Chapadão do Pau-Terra. No entanto, um belo dia, sentindo-se profundamente contrariado após ser flagrado transportando uma boiada sem a guia fiscal, decidiu mudar-se em definitivo para Goiás. Provavelmente na parte que lhe coube na Fazenda Martyrios como herança do Pai que ficava em Santo Antônio do Rio Verde. Um tio meu, irmão do meu pai, contava que Joaquim partiu em uma comitiva monumental de oito carros de boi carregados com sua mudança. Apesar da partida rancorosa com o fisco, ele teve a generosidade de doar um pedaço de suas terras para a Capela do arraial local — templo que resiste até hoje, embora reformado e pintado com novas cores.
"Aqui está a Guia": O Confronto com o Fisco
O ofício de tanger boiadas parecia mesmo correr nas veias da família, e o vovô Tõe também adorava essa lida. Ele passava a vida nas estradas entre Abadia dos Dourados e Paracatu, conduzindo grandes lotes de gado.
Em uma dessas viagens, enquanto transportava uma enorme manada também sem a guia fiscal obrigatória, alguém o dedurou e a fiscalização do estado partiu para cima dele em meio à estrada. Ao ter o gado cercado e receber a exigência de apresentar a guia de transporte dos animais, meu bisavô manteve a frieza dos coronéis: enfiou calmamente a mão no bolso do paletó, sacou o seu revólver Smith e, apontando para os fiscais, sentenciou: "Aqui está a guia!".
O desfecho exato dessa história o neto dele não soube dizer, mas garantiu que, a partir daquele momento, a coisa ficou feia para o lado dos fiscais.
O Encontro na Samambaia e o Mistério do Casamento Sumido
O início da história de amor entre meus bisavós foi resgatado pela memória lúcida daquela prima de 93 anos. Ela me contou que Antônio Bonifácio Machado (o vovô Tõe) e Lídia Fernandes Rocha se conheceram na casa de uma das irmãs dela. A prima não soube precisar qual irmã era, mas revelou que ela era casada com um rapaz da região de Coromandel, e Lídia tinha ido até lá para passear.
Após analisar o inventário da mãe de Lídia, juntei as peças e levantei a possibilidade de essa irmã ser a Sara, que era casada com Antônio da Silveira Machado — sobrenome muito tradicional e numeroso em Coromandel. Lídia vivia com os pais na Fazenda Limoeiro da Samambaia, que ainda resiste na região, embora não exista mais a imensa casa colonial com porão, piso de assoalho e janelas tão grandes quanto portas. Hoje, a propriedade deu lugar a imensas lavouras; desapareceram até os antigos mangueirais e jabuticabeiras que cresciam fartos até o fundo das grotas.
Cruzando os dados do inventário, o cenário exato onde o casal se conheceu deve ter sido a Fazenda Santo Antônio da Boa Vista, que também pertencia à família e onde a irmã Sara vivia. Para completar o quebra-cabeça geográfico, os pais do vovô Tõe também possuíam terras naqueles rincões — a Fazenda Pilões e a Fazenda Félix Simão —, que faziam vizinhança direta com as terras dos pais de Lídia e de sua irmã. Suas maiores propriedades, contudo, ficavam em Abadia dos Dourados (a Monte Alvão) e em Santo Antônio do Rio Verde (a Martyrios).
Juntando as evidências, tudo indica que o vovô Tõe e a bisavó Lídia se casaram na região de Guarda-Mor. Os relatos antigos falam de famosas festas religiosas em Pilões, para onde os devotos viajavam em grandes comitivas de carros de boi; era muito comum que os casamentos fossem celebrados nesses períodos festivos. Infelizmente, o registro oficial dessa união permanece um mistério. Os livros paroquiais da época simplesmente "tomaram chá de sumiço" em Paracatu, e o Cartório de Registro Civil de Guarda-Mor só passou a existir anos mais tarde, a partir de 1915.
Amor à Primeira Vista e a Moça da Venda
O fato é que, assim que colocou os olhos em Lídia, Antônio Bonifácio apaixonou-se perdidamente pela bela moça e tratou de agilizar o casamento. A prima idosa recorda que ele ficou tão encantado que nem sequer voltou para a casa do pai em Abadia dos Dourados antes de selar o compromisso. Estima-se que eles tenham se casado em 1906, já que a primeira filha do casal nasceu em 1907. Na ocasião, ele deveria ter por volta de 21 anos, e ela, uns 17 ou 18 anos.
Essa pressa em se casar não espanta quem conhecia o perfil do vovô Tõe: com ele não tinha "trelelê", gostava de resolver as coisas rápido e, além do mais, a beleza de Lídia era afamada. Quando ele cismava com um objetivo, lutava com todas as forças para conquistá-lo.
Reforçando essa faceta obstinada e conquistadora, um tio meu (irmão do meu pai) guardou um causo curioso. Em uma de suas andanças conduzindo gado pelas estradas, vovô Tõe parou em uma pequena venda de beira de estrada e encantou-se por uma moça morena que trabalhava ali. Mal entregou a boiada em seu destino final, ele deu meia-volta e refez todo o caminho apenas para reencontrá-la. O desfecho dessa aventura meu tio não soube dizer. Fica a dúvida no ar: teria sido aquela jovem morena a tal Helena de Guarda-Mor com quem teve dois filhos? Enfim...
O "Bando de Gatinhos" e a Tragédia de Maria Elódia
Antônio Bonifácio Machado (o vovô Tõe) e Lídia Fernandes Rocha, meus bisavós, tiveram nove filhos juntos. Contudo, ao longo de sua vida, meu bisavô Tõe foi pai de mais outras seis crianças, fruto de seus quatro casamentos e também de alguns filhos naturais, concebidos fora do matrimônio legítimo.
Quando vovô Tõe ficou viúvo da minha bisavó Lídia, viu-se sozinho com uma casa cheia de filhos pequenos, incluindo o bebê Zezinho. Diante do desamparo daquela família, uma irmã de Lídia, Maria Elódia da Rocha — a quem todos chamavam carinhosamente de Nega —, prontificou-se a ajudar. Ela assumiu de perto a criação das crianças, descritas pela nossa prima idosa como "um bando de gatinhos" necessitados de cuidados.
Com o passar do tempo, vendo a dedicação da cunhada, vovô Tõe propôs que os dois se casassem, já que ela já exercia o papel de mãe de seus filhos. Relatos antigos a descrevem como uma morena muito bonita, cujos traços guardavam grande semelhança com uma de suas netas (filha do meu tio-avô Dário). Um neto da família afirma que existe guardada uma carta da época detalhando esse pedido de casamento, embora eu não tenha conseguido ter acesso a ela.
O casamento entre meu bisavô e Maria Elódia ocorreu supostamente por volta de 1924 (ou talvez um pouco antes), pois em outubro de 1925 nasceu o único filho do casal: meu tio-avô Dário. Contudo, a felicidade da nova união durou muito pouco. Essa segunda esposa do vovô Tõe faleceu no dia 5 de agosto de 1926, quando o pequeno Dário tinha apenas nove meses de vida.
O diagnóstico por trás de uma tragédia materna em 1926
Conforme o livro de sepultamentos de Paracatu, Maria Elódia faleceu aos 36 anos de idade, às seis horas da manhã. A causa mortis atestada pelo renomado Dr. Sérgio Ulhôa foi cachexia nervosa. Na década de 1920, esse diagnóstico significava que o paciente havia definhado de magreza até a morte devido a um severo colapso emocional e físico. Não havia câncer ou infecção generalizada; o sistema nervoso simplesmente "desligava" o instinto de sobrevivência e a fome por causa do esgotamento extremo (o que hoje a medicina entende como uma mistura de depressão profunda, anorexia severa e o ápice do Burnout parental).
A história de Maria Elódia ilustra perfeitamente esse drama. Após a morte de sua irmã Lídia, ela assumiu voluntariamente um verdadeiro orfanato em casa. O peso do luto, as obrigações do casamento com o cunhado, uma gravidez recente e a jornada exaustiva de cuidados com tantos sobrinhos órfãos e o próprio bebê de 9 meses drenaram totalmente suas forças.
Nossa prima idosa recorda dos relatos de que Maria Elódia acabou ficando muito doente. Provavelmente a mãe dessa prima — que era a filha mais velha da irmã de Maria Elódia — presenciou o doloroso definhamento da madrasta e transmitiu essa memória adiante.
O estado de desnutrição e fraqueza de Maria Elódia ganhou proporções tão alarmantes que o vovô Tõe a levou às pressas para tratamento médico em Paracatu. Infelizmente, já era tarde demais. Como ela faleceu na cidade, foi sepultada ali mesmo pelo administrador do cemitério, o Sr. Antônio da Motta Bastos, sendo impossível transladar o corpo de volta para o cemitério da família na fazenda devido à enorme distância e às limitações de transporte da época. Com a sua partida, mais um bebê indefeso — o pequeno Dário — acabou ficando sob os cuidados da avó Alexandrina, repetindo o triste destino do pequeno Zezinho, que perdera a mãe pouco tempo antes.
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| Recorte do livro de sepultamentos de Paracatu que atesta o sepultamento de Maria Elódia, a segunda esposa de meu bisavô Antônio Bonifácio |
O Desquite com Maria Gama e as Tramas de Guarda-Mor
Não
foi fácil estabelecer a linearidade de todos os acontecimentos da vida
do vovô Tõe. No entanto, tudo indica que, após ficar viúvo pela segunda
vez, ele uniu-se a uma mulher chamada Maria Gama. Essa relação gerou um
filho, o Raimundo, que foi devidamente reconhecido pelo pai. Contudo, a
convivência durou muito pouco: de acordo com a nossa prima idosa, vovô
Tõe simplesmente a "devolveu" grávida para a casa do pai dela por
considerá-la preguiçosa demais.
Não
há certezas se eles eram casados de papel passado, mas há fortes
indícios de que sim. No inventário de sua ex-sogra (mãe de sua primeira
esposa, Lídia), o vovô Tõe consta oficialmente com o estado civil de
"desquitado". Como o desquite havia se tornado legal no Brasil com o
Código Civil de 1916, a única pessoa de quem ele poderia ter se separado
judicialmente naquele período era, de fato, Maria Gama.
Paralelamente
a essas idas e vindas, vovô Tõe manteve em Guarda-Mor o já mencionado
romance com Helena. É difícil precisar se nessa época ele ainda estava
viúvo ou se já havia se casado com a última esposa e estava apenas
"pulando a cerca" — o que seria bem provável, já que meu bisavô era
mestre nessas artes.
Como
citei anteriormente, com Helena ele teve dois filhos. Ela era viúva de
um homem negro, com quem já tivera duas crianças antes de se envolver
com o bisavô. Os velhos boatos do sertão insistem que o primeiro marido
dela foi assassinado pelo próprio vovô Tõe, e algumas línguas mais
afiadas diziam que o crime foi cometido justamente para que ele pudesse
tomar Helena para si. O enredo real dessa trama nunca ficou claro, pois
histórias que correm de boca em boca pelas décadas sempre mudam de teor.
Eudóxia: O Último Casamento e o Encontro de Famílias
A quarta e última esposa do meu bisavô foi Eudóxia Frutuoso Soares.
O casamento deles provocou um curioso nó na árvore genealógica da
família: Eudóxia era irmã da vovó Divina — que, algum tempo depois,
viria a se casar com Aristeu, justamente um dos filhos do vovô Tõe.
Com
a vovó Eudóxia, meu bisavô teve seus dois últimos filhos: o Divino
Amado e a Luzia. Nascida em 17 de fevereiro de 1914, Eudóxia faleceu em 9
de junho de 1985, na cidade de Abadia dos Dourados. Ela era
impressionantes 29 anos mais nova que o marido. Estima-se que, quando
subiram ao altar, ela tivesse por volta de 18 anos, enquanto vovô Tõe já
passava dos 40 anos de idade.
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| Jazigo de Eudóxia Frutuoso Soares, última esposa do bisavô Tõe |
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| Eudóxia com os filhos que teve com meu bisavô Antônio Bonifácio: Divino e Luzia |
O Crepúsculo do Coronel: Perdas, Respeito e a Memória que Fica
Com a vovó Eudóxia, meu bisavô Tõe morou na Fazenda Pilões, na Fazenda do Mangue, no imponente casarão da Rua Artur Bernardes, nº 515, em Coromandel, antes de finalmente se mudarem para Abadia dos Dourados, em Minas Gerais. Como mencionei anteriormente, nessa última mudança ele já não era mais o "coronelão" dono de terras a perder de vista. O grosso de seu patrimônio havia sido dividido em vida entre os filhos e o dinheiro escasseara a ponto de faltar até para as suas "pinguinhas" e "escapulidas". Seus dias terminaram em uma rotina simples, com a mente fragmentada pelos lapsos de memória, agindo feito criança.
Como essas passagens foram transmitidas de boca em boca através das gerações, não há como assumir responsabilidade sobre a exatidão de cada causo, uma vez que não restaram provas documentadas — exceto pela sua emblemática fotopintura, sua certidão de óbito e os inventários de seus pais e de sua ex-sogra. Inclusive, esses próprios papéis oficiais guardam uma pequena divergência histórica: o inventário de seus pais aponta que ele nasceu em 1885, enquanto a certidão de óbito sugere o ano de 1887.
Apesar de todas as lendas e contradições que cercam a sua figura, ao analisar o passado com maturidade, compreendo que meu bisavô Tõe foi um homem marcado por perdas profundas e precoces. Antes mesmo de completar 40 anos, ele já havia sepultado a primeira esposa e os pais. Por volta dessa mesma idade, perdeu também a segunda companheira, Maria Elódia. Viu-se sozinho, obrigado a criar um verdadeiro batalhão de crianças e adolescentes sob seus cuidados. É nobre notar que, apesar de sua rigidez rústica, ele acolheu sob sua proteção e deu o sobrenome da família até mesmo aos seus filhos naturais.
Diante de tudo o que se conta a respeito de Antônio Bonifácio Machado, a lembrança que resiste ao tempo é a de um homem ilustre. Quem o conheceu e ainda se lembra de seus passos sempre cita o seu nome com profundo respeito, recordando que, no final da vida — antes que a caduquice lhe roubasse a lucidez —, o velho coronel desarmava-se de suas carabinas para se tornar um homem amável, que gostava de acolher os netos no colo e distribuir sábios conselhos.
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Filhos de Antônio
Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Lídia Fernandes Rocha, sua primeira esposa e
minha bisavó legítima eram 9 a saber:
1.
Maria Machado
Rocha,
casada com seu primo Joaquim Machado de Miranda, o Joaquim da máquina de pilar
arroz;
2.
Fortunato Machado
Rocha (pai de meu pai), casado com Valdomira Barbosa Sucupira;
3.
Ladi Machado Rocha, casada com Amado
Sebastião Machado;
4.
Bonifácio Machado
Rocha, conhecido
como Sinhô, casado com Maria Luiza Rocha;
5.
Aristeu Machado Rocha
(pai de minha mãe), casado com Divina Frutuoso Sores;
6.
Dirceu Machado
Rocha, faleceu
por picada de cobra;
7.
Lísia Machado de
Miranda
(chamada de Fia), casada com Amadeu Machado de Miranda, seu primo que foi delegado e Juiz de paz em Abadia dos Dourados. No inventário de sua avó consta como Elisa;
8.
Sebastião Machado
Rocha,
morava em Paracatu;
9.
José Machado Rocha (chamado de
Zezinho) em cujo parto perdeu a mãe. Ele faleceu aos 9 anos de tétano)
Filhos
de Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Maria Elódia da Rocha, sua segunda
esposa e irmã da primeira esposa Lídia Fernandes Rocha:
1.
Dário Machado
Rocha, casado
com Angélica Maria da Silva;
Filhos de Antônio
Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Maria Gama, supostamente sua terceira
esposa:
1.
Raimundo Machado
Filhos de Antônio
Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Helena, sua amante de Guarda-Mor:
1.
Clodoveu Amado Machado,
casado
com Valdami Machado de Miranda, provavelmente sua prima (moravam em Palmitos,
Abadia dos Dourados Minas Gerais);
2.
Salvador Machado (falecido com 14
anos vítima de uma bala perdida em uma caçada).
Filhos de Antônio
Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Eudóxia Frutuoso Soares (irmã da vovó Divina,
mãe de minha mãe):
1.
Divino amado, casado com Leonor
Amado dos Santos;
2.
Luzia Soares
Ferreira,
casada com Miltom Ferreira Martins;
Fotos de 10 dos 15 filhos de Antônio Bonifácio Machado, o bisavô tõe:
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| Filha mais velha de Antônio com Lídia: Maria Machado Rocha. ao lado, seu esposo e primo Joaquim Machado. |
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| Filha de Antônio com Lídia: Ladi Machado Rocha |
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| Filha de Antônio com Eudóxia: Luzia Soares Ferreira e seu esposo Miltom |
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| Filha de Antônio com Lídia: Lísia Machado de Miranda ( conhecida como Fia), casada com Amadeu Machado de Miranda, seu primo( foto)
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| Filho de Antônio com Helena: Clodoveu Amado Machado |
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| Filho de Antônio com Maria Elódia: Dário Machado Rocha |
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| Filho de Antônio com Lídia: Sebastião Machado Rocha |
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| Filho de Antônio com Lídia: Fortunato Machado Rocha, meu avô paterno |
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| Filho de Antônio com Lídia: Aristeu Machado Rocha, meu avô materno |
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| Filho de Antônio Bonifácio com Eudóxia: Divino amado com sua esposa Leonora |
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| Eudóxia Frutuoso Soares, última esposa de Antônio, o bisavô Tõe | | |
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| Recorte do livro de sepultamentos em Paracatu da Maria Elódia, segunda esposa de Antônio Bonifácio |
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| Assinatura vô Tôe, 1941 na fazenda Pilões- inventário de sua sogra Alexandrina |
Para saber sobre os lugares por onde Antônio Bonifácio Machado, o bisavô Tõe possuiu fazendas acese os links abaixo:
👉Coromandel, Minas gerais
👉Coromandel, Minas Gerais. Vídeo Youtube
👉Coromandel, Minas Gerais. Vídeo Youtube
%20Coromandel%20-%20MG.%20Imagens%20a%C3%A9reas.%20Dezembro%20de%202024.%20-%20YouTube.png) |
| Coromandel, Minas Gerais. Nesse município, o bisavô Tõe possuiu a fazenda que hoje se chama Fazenda Córrego da Cruz na localidade de Marques |
👉Abadia dos Dourados, Minas Gerais
👉Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Vídeo Youtube
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| Abadia dos Dourados- anos 50- detalhe fundos da Igreja |
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| Abadia dos Dourados anos 1950- largo da Igreja, festa de agosto |
%20Abadia%20dos%20Dourados%20MG%20%E2%80%93%20Cidade%20para%20passear%20morar%20e%20investir.%20-%20YouTube.png) |
| Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Não foi possível saber o nome da Fazenda, mas provavelmente estava inserida na f;azenda Monte Alvão, parte da herança de seus pais. |
👉Guarda- Mor, Minas Gerais
👉Guarda-Mor, Minas Gerais. Vídeo Youtube
%20Guarda-Mor%20MG%20%E2%80%93%20Cidade%20para%20passear%20morar%20e%20investir.%20-%20YouTube.png) |
| Guarda-Mor, Minas Gerais, onde Antônio possuia fazenda na localidade de Pilões, provavelmente a fazenda Suçuarana |
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| Imagem Satélite localidade de Pilões onde o bisavô Tõe possuia Fazenda |
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| Localidade de Pilões onde o bisavô Tõe possuia Fazenda |
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