Antônio Bonifácio Machado e Lídia Fernandes Rocha
Antônio Bonifácio Machado e Lídia Fernandes Rocha
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| Meu bisavô Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe |
PS.: Depois de toda essa sequência de 8º avós até 3º avós, chega-se finalmente aos seus descendentes Antônio Bonifácio Machado, o famoso vovô Tõe e Lídia Fernandes Rocha, estes, pais de Fortunato Machado Rocha, meu avô paterno, conhecido como Natim e Aristeu Machado Rocha, meu avô materno. Vale ressaltar que vovô Tõe se casou outras vezes e teve outros filhos, conforme imagens a seguir:
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| Descendência do casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Lídia Fernandes Rocha, sua primeira esposa e minha avó legítima. |
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| Descendência do casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Maria Elódia da Rocha, sua segunda esposa irmã da primeira esposa. |
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| Descendência do suposto casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Maria Gama, conforme relatos. |
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| Descendência de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Helena, sua amante. |
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| Descendência do casamento de Antônio Bonifácio Machado, o vô Tõe, com Eudóxia Frutuoso Soares, sua última esposa. |
Antônio Bonifácio Machado, meu bisavô, a quem chamávamos também de vovô Tõe, nasceu provavelmente em Abadia dos Dourados, Minas Gerais, no ano de 1885, pois quando seu pai faleceu em 1921, tinha 36 anos. Não foi possível descobrir o dia. Ele faleceu no dia 21 de abril de 1974, um domingo, às duas horas da madrugada, em Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Tinha 89 anos. A causa mortis, conforme atestado de óbito foi insuficiência cardíaca, arteriosclerose e chagas. Faleceu em casa, na rua de baixo da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Abadia, a Rua Laurentino Batista Leite em Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Conheci essa casa, pois fui algumas vezes lá com meus pais quando seu filho, o tio Divino casado com tia Leonor, moravam lá. Isso acontecia sempre nos dias de festa de Nossa Senhora de Abadia em agosto.
Quem atestou o óbito do meu bisavô foi o jovem médico Dr. Jarbas Mundim Porto de Coromandel, Minas Gerais, hoje já falecido, e que por sinal foi pai do médico neurologista Dr. Bruno, médico de meu esposo.
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| Certidão óbito do vô Tõe |
Bem, nessa data do falecimento de meu bisavô, em abril de 1974, eu tinha 10 anos e morava no casarão de meus avós paternos na cidade para cursar a quarta-série. Mas por mais que eu me esforce não me lembro dele pessoalmente. Mas lembro-me que na pequena sala do casarão, tinha um quadro com a foto dele na parede, bem acima da porta pintada de rosa forte e que dava para o salão em cima do porão. Era dessas fotografias chamadas de fotopintura que se usava muito naquele tempo. Eu ficava horas olhando esse quadro. Meu bisavô Tõe, era um homem bonito. No quadro, seus cabelos e bigodes já estavam grisalhos e os olhos eram azuis, herança de seus ancestrais açorianos. Tinha um ar sereno e cândido. Na verdade, a imagem do quadro me parecia o contrário do que falavam dele, um homem que se fosse contrariado apelava para a carabina. Esse quadro sumiu depois que demoliram o casarão de meus avós paternos e ninguém sabe onde foi parar. Felizmente minha sobrinha Iara encontrou uma cópia desse quadro com um neto dele, que por sinal tem o mesmo nome.
Mas sobre meu bisavô Tõe, um primo meu que o havia conhecido, disse-me que ele era um homem baixo e que se parecia muito com seu filho Sebastião, meu tio-avô Tião. Disse que era um homem calmo, mas que ficava muito bravo às vezes.
Interessante ressaltar que o dia do falecimento do vovô Tõe, foi também o do enforcamento de Tiradentes 182 anos antes. E interessante frisar também que Tiradentes era seu tio- tataravô ou 4º tio-avô. A irmã mais nova de Tiradentes, a Antônia Rita de Jesus Xavier era sua tataravó.
Vovô Tõe era filho de Bonifácio Machado de Miranda e Idalina Amada de Jesus, já citados antes em 3ºavós ou trisavós.
Lídia Fernandes Rocha, esposa do vovô Tõe e minha bisavó legítima6, nasceu aproximadamente em 1888. Não foi possível saber o local de nascimento, que tanto pode ter sido Monte Carmelo, Minas Gerais, na Fazenda Castelhana ou na tal Fazenda Samambaia, onde os pais viviam, e que não foi possível ter certeza se era em Catalão, Goiás ou Guarda-Mor, Minas gerais. Por dedução, minha bisavó Lídia faleceu entre 1921 e 1923, pois, conforme relatos, sua filha mais velha, Maria Machado Rocha, que nascera em 1907, tinha 14 anos quando a mãe faleceu. De qualquer forma, em 1923, conforme documentos de vendas de terras dos herdeiros da mãe do vovô Tõe, consta que ele já estava viúvo.
Minha bisavó Lídia era filha de Fortunato Fernandes Rocha e Alexandrina Fernandes Rocha, já citados como trisavós.
De acordo com uma prima já idosa e neta de minha bisavó Lídia Fernandes Rocha, ela faleceu por complicações de parto do seu nono filho, o José Machado Rocha, a quem chamavam de Zezinho. Relatou-me também que alguém foi buscar uma canja de galinha para ela na cozinha e quando voltou já estava morta. Ainda de acordo com essa minha prima, por esse tempo a família vivia em uma fazenda denominada Suçuarana. A irmã mais velha de meu pai relatou-me poucos dias de falecer, que minha bisavó Lídia foi sepultada no cemitério de Lagamar dos Coqueiros, distrito de Coromandel, Minas Gerais, e que ela chegou a ver o local da sepultura. Dessa forma, supõe-se que por esse tempo eles moravam nas redondezas de lagamar dos Coqueiros. Mas não foi possível comprovar, e há até uma contradição nesses dados, pois Fazenda Suçuarana não existe na região de Lagamar dos Coqueiros, mas no município de Guarda-Mor existe uma nos dias atuais e sabe-se que meu bisavô Tõe morou naquelas paragens. Logo fica a dúvida de quem contou a história mais certa. Enfim...
Sobre minha bisavó Lídia Fernandes Rocha não há mais relatos sobre ela. Quando ela faleceu, meus avós Fortunato e Aristeu eram pequenos ainda e provavelmente não guardaram muitas lembranças da mãe. No entanto, sobre seu esposo Antônio Bonifácio Machado, o vovô Tõe, há muitas histórias contadas de boca em boca. Histórias de bondades e histórias de ruindades segundo uma neta que era também sua afilhada.
Relatos de parentes afirmam que Antônio Bonifácio Machado, o vovô Tõe, era um coronelão que andava sempre com dois jagunços e um revólver Smith e possuía muitas fazendas. Uma delas em Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Ele possuía também uma fazenda na localidade, onde hoje se denomina Marques, fazenda essa que chegava até à localidade do Mangue, município de Coromandel, Minas Gerais. Possuía também uma fazenda em Pilões, município de Guarda-Mor, fazenda essa, que segundo relatos, possuía cercas de pedras construídas pelos escravos e algo me diz que essa fazenda era a tal que se chamava Suçuarana, pois existiu e ainda existe naquelas bandas uma fazenda com esse nome. Ao que tudo indica, foi nessa fazenda que nasceu a maioria dos filhos de meu bisavô Tõe.
Um fato hilário sobre essa fazenda de Pilões, é que uma parte dela foi vendida a prestações para o cunhado de seu filho Dário. Conforme relatos, a última parcela meu bisavô Tõe recebeu frangos como pagamento. Enfim... Outra história dessas, foi um triste episódio que parece ter acontecido no casarão que existia na manga (espécie de pasto), onde hoje é a fazenda dos filhos de meu tio-avô Dário. Segundo meu pai esse majestoso casarão teria sido do pai do vovô Tõe, o Bonifácio Machado de Miranda, o vô gordo, e que no tempo dele, os currais eram uma espécie de vala. Certamente depois a fazenda foi deixada para o filho, o vovô Tõe, que viveu por lá um tempo. Mas sobre o triste episódio que aconteceu nesse casarão, segundo um tio, irmão de minha mãe, foi que o vovô Tõe contratou um homem para bater os pastos, dando como pagamento um porco gordo. No entanto, esse homem matou o porco para comer, mas não foi cumprir o combinado, ou seja, bater os pastos. De forma que vovô Tõe já com o sangue quente foi buscar ele e o levou amarrado para cumprir o combinado. O homem bateu os pastos. Entretanto, sentiu-se humilhado por ter sido levado amarrado e de fato foi uma humilhação já que havia a opção de resolver no diálogo. O fato é que o homem voltou outro dia com o filho e armado de uma carabina. Diante do casarão, gritou para meu bisavô Tõe sair para morrer. Meu avô Fortunato, o Natim, já casado, mas que por esse tempo morava com o pai, o segurou para não sair, já prevendo a tragédia. Meu avô não saiu, claro, mas pegou sua carabina, uma espécie de espingarda, e da janela semiaberta, deu um tiro certeiro na testa do homem que morreu ali na frente da casa. O filho do homem saiu correndo de medo. Apesar de tudo, meu bisavô Tõe, cuidou do funeral do infeliz, conforme relatos.
Conforme meu pai contava, o tal casarão foi erguido sobre o alicerce da aroeira, cuja madeira estava presente também nos altos portais, nas pesadas portas e grandes janelas, além de forrar o assoalho. Os currais também eram de tábuas de aroeira. Vale ressaltar que desse casarão, dos relatos que o envolvem, restou apenas uma prova de sua existência, uma bela e perene moita de açucena branca, que conforme relatos de meu pai, ficava ao lado da escada da porta da sala do casarão. Ela ainda floresce até hoje em setembro e tive a oportunidade de fotografá-la quando fui visitar meu pai na Fazenda, já que fica às margens da estrada. Eu a vi a primeira vez em 2008 e achei estranho uma moita de açucena no meio do pasto. Foi então que comentei com meu pai sobre isso e ele me contou do casarão de meu bisavô Tõe.
Vale frisar que a açucena é uma planta perene, ou seja, seu ciclo é contínuo e permanente. As folhas e o caule morrem, porém, o bulbo que fica na terra continua vivo e brota anualmente no tempo certo. O que justifica a açucena ter sobrevivido tantas décadas e até mesmo às arações da terra para plantar milho ou pastagens para o gado. E o mais interessante é que a cada ano multiplica-se seus bulbos que vão se alastrando pelo solo.
Ainda sobre essas histórias trágicas de meu bisavô Tõe, um neto dele e um vizinho meu, me contaram que ele deu cabo da vida de um peão em sua fazenda em Pilões, pois o tal havia tentado tomar liberdades com sua esposa. Não sei qual das esposas, mas acredito ser a Eudóxia, ou talvez, uma amante que tinha por lá, uma tal Helena. O tal neto que me contou a história, na época tinha apenas oito anos de idade e a vovó Lídia e Maria Elódia, as primeiras esposas, já tinham falecido. Com relação a esse assassinato, meu bisavô Tõe foi julgado em Paracatu, Minas Gerais. Esse neto lembra-se de vovô ajeitar as coisas de levar para ficar na cadeia, até colchão.
Não se sabe por quanto tempo ficou preso. Mas não foi muito, porque segundo relatos, meu bisavô era um senhor muito ilustre. Tinha um bom nome, muitas propriedades e os advogados arrancavam o couro, mas não deixaram ele preso muito tempo. Inclusive sobre esse episódio de sua prisão em Paracatu, outro primo relatou-me que um filho seu, meu tio-avô Dário, foi a Patrocínio buscar um advogado. Lá ele fretou um avião e foram para Paracatu tentar dar um jeito na questão. O tal advogado se chamava Clodoveu. Depois de muita negociação, soltaram vovô Tõe que prometeu não arrumar mais confusão. Com certeza rolou muitos contos de réis nessa soltura. Inclusive há relatos de que foi preciso vender terras. A fiança e o trabalho do advogado provavelmente custou os olhos da cara de meu bisavô Tõe.
Sobre a tal Helena que era amante de vovô Tõe, há boatos de que ela tinha um marido e que ele foi assassinado por meu bisavô Tõe. Boato ou fato, a verdade é que Helena, tornou-se amante de meu bisavô Tõe, ou já era antes do ocorrido. Difícil saber. Com Helena, vovô Tõe teve dois filhos, o Clodoveu que morou em Palmitos, município de Abadia dos Dourados, Minas Gerais e o Salvador que morreu aos 14 anos, vítima de uma bala perdida em uma caçada. Por esse tempo, vovô Tõe já havia levado seus filhos com Helena para viverem com ele e frequentarem a escola no Chapadão do Pau-terra, dizem...
Segundo um tio, irmão de minha mãe, um dia meu tio-bisavô Clodoveu, filho da tal Helena, comentou com ele chorando que as pessoas julgavam sua mãe como se ela fosse uma prostituta por ter sido amante do vovô Tõe. Segundo Clodoveu, meu tio-bisavô, sua mãe era uma mulher honesta e trabalhadora e fora casada, tendo dois filhos com o primeiro marido, o tal que fora assassinado, conforme relatos, por meu bisavô Tõe. Não há provas, apenas deduções. Enfim...
Há outras histórias banhadas de sangue, como uma que meu bisavô matou um homem apenas pelo fato de ter levado uma pedrada quando fazia xixi em um lugar indevido. Por esse tempo ele já vivia na cidade de Coromandel, Minas Gerais e provavelmente morava no velho casarão que depois fora de seu filho Fortunato. De qualquer forma, eram histórias contadas de boca em boca que costumam ganhar outras nuances, sendo impossível saber o teor verdadeiro.
Conforme relatos de uma neta já idosa, depois desses assassinatos, meu bisavô Tõe foi só regredindo na vida e morreu pobre, sem nada. Na visão da neta, “ele era muito custoso, de estopim curto e mulherengo e um dia a casa cai”. De fato, caiu, pois ao invés dos belos casarões, no final de sua vida, vovô Tõe morava em uma casinha de chão batido em Abadia dos Dourados, Minas gerais. Às vezes é difícil acreditar que um proprietário de grandes fazendas terminou seus dias em uma casinha de chão batido. Justo vovô Tõe, acostumado às grandes casas de assoalho de aroeira. Não foi tão firme quanto essa madeira. Enfim...
Minha irmã Célia Maria se lembra dessa casinha de chão batido em Abadia dos Dourados, Minas Gerais e da última esposa do vovô Tõe, a Eudóxia, já velhinha e curvada, com um vestido de chita comprido até os tornozelos, servindo café fumegante em pequenas xícaras esmaltadas verdes, o que mantinha o café mais “pelando” ainda. Apesar de não ser minha avó legítima, eu e meus irmãos a chamávamos de vovó Eudóxia. Porém é incrível como não me recordo de seus traços.
Nossa bisavó legítima foi Lídia Fernandes Rocha, a primeira esposa do vovô Tõe, como já dito antes. Na verdade, Eudóxia era nossa tia-avó porque era irmã da vovó Divina mãe da mamãe. Bem, quando minha irmã Célia Maria conheceu esse casebre, vovô Tõe já tinha falecido na verdade. Meus pais foram visitar vovó Eudóxia que era tia de mamãe.
Vovô Tõe, antes de voltar definitivamente para Abadia dos Dourados, morou em Coromandel, Minas Gerais, no velho casarão da rua Artur Bernardes nº 515, de frente onde é hoje a Biblioteca da Casa da Cultura. Vovô Tõe era o dono do velho casarão, mas depois o cedeu ao filho Fortunato, o vovô Natim, em uma negociação entre ambos. Depois disso, vovô Tõe se mudou para a Abadia dos Dourados, que na verdade, era o seu berço de nascimento, porque um dia, um Machado de Miranda, vindo com a família do Curralinho dos Machado em Lagoa Dourada, Minas Gerais, escolheu aquele lugar para viver.
Quando vovô Tõe faleceu, minha irmã mais velha, Célia Maria, devia ter 12 anos. Eu tinha 10 anos, mas não me recordo dele e nem desse dia. Célia Maria se lembra bem do vovô Tõe com os cabelos branquinhos e era muito bonito, mesmo já velho, segundo ela. Ela se lembra também que ele era muito amável e gostava de colocar os netos no colo e lhes oferecer balas. Ela mesma era uma, mas sistemática que era, passava longe dele, porque se passasse perto não escapava do colo.
Algo de bom de meu bisavô Tõe quem me relatou foi um tio, irmão de minha mãe. Ele me garantiu que vovô Tõe era uma pessoa muito boa. Pelo menos na sua visão de neto. Contou-me que ele andava sempre em uma mula baia, pois suas fazendas eram distantes umas das outras: Abadia dos Dourados, Marques, Pilões. Sobre a mula, vale frisar que baia é uma cor marrom-avermelhada, também chamada de castanha e geralmente tem as crinas e cauda pretas.
O fato de vovô Tõe andar em uma mula me fez relembrar algo que li a respeito das viagens sobre mulas. É que elas suportam longas viagens. Naqueles tempos antigos iam-se longe no lombo de mulas, pois os rincões eram marcados por serras, vales, matas, montanhas. D. Pedro I, imperador do Brasil, por exemplo, no início do século XIX, fazia suas viagens em cima de uma mula. Ao contrário do que pensamos, quando gritou “Independência ou morte” às margens do Ipiranga, ele estava montado em uma mula e não em um belo cavalo branco que vemos no tal quadro de Pedro Américo. Aquele quadro é apenas uma imagem romântica que criaram para romantizar o evento que na verdade não teve nada de romântico, pois D. Pedro estava com dor de barriga por ter comido toucinho demais em Santos. E depois foi D. Leopoldina a responsável principal do evento, pois foi ela que, como regente do Brasil naqueles dias, já que D. Pedro I estava viajando, assinou a carta com a decisão da Independência, enviando-a a D. Pedro, que estava na estrada, voltando de Santos. A ele restou apenas gritar o famoso” Independência ou Morte” só para formalizar e mesmo assim nem foi às margens do Ipiranga, mas em uma pousada de beira de estrada, onde a dona do estabelecimento lhe preparou um chá para conter a dor de barriga.
Explicações sem necessidade à parte, voltemos às mulas que foram, portanto, as desbravadoras do Brasil. Elas é que eram responsáveis pelo escoamento da produção de ouro para os portos de onde saiam os navios para Portugal. Além disso, as mulas é que transportavam os alimentos que abasteciam povoados. Ou seja, a cultura tropeira está ligada a esses belos muares.
Então meu bisavô Antônio Bonifácio, o vovô Tõe, cortava o trecho sempre em uma mula baia. Segundo meu tio, andava todo de terno, paletozão xadrez, chapéu na cabeça. Sempre que vinha por esses lados do Chapadão do Pau- Terra, ele ficava na sua fazenda pelos lados do Guarda-mor, uma localidade chamada Pilões, com já dito. Por essas vindas ia à casa do filho, o vovô Aristeu, que é pai de minha mãe, e ficava hospedado lá. Segundo meu tio, quando ele apontava no alto da serra, os netos diziam: “vovô vem lá”. E saiam correndo para se encontrar com ele ainda lá no sopé da serra.
Bem, quando vovô Tõe descia da mula para abraçar os netos, ia logo tirando balas “chita” dos bolsos do paletó e das calças e distribuindo com eles. Era uma festa a chegada do avô. Então os netos pegavam o cabresto da mula e iam acabando de chegar. Eles desciam o morro puxando a mula pelo cabresto e vovô Tõe ia caminhando com os netos até chegar em casa. Aliás puxar o cabresto da mula era a maior honra e um feito muito disputado entre os netos, segundo meu tio. Não é difícil imaginar a cena, até porque conheço bem aquelas serras azuladas que ficavam bem próximo de onde os pais de minha mãe viviam. Essa casa, inclusive ainda existia quando eu era mocinha e a conheci, mas por esse tempo quem morava lá já era uma tal D. Alexandrina e as terras já eram do tio-avô Dário, irmão do vovô Aristeu. O piso da casa ainda era de terra batida, o fogão de lenha feito de adobe lustrado com barro branco. Aliás me lembro de mamãe contar que, todo final de semana, uma das tarefas das filhas do vovô Aristeu era lustrar o fogão com barro branco do córrego que passava nos fundos da casa. Era um belo lugar, o quintal com muitas mangueiras, uma trilha pelo quintal levava ao córrego. Lembro-me bem de lá.
Segundo o tio que me relatou essa história, os netos gostavam muito do meu bisavô Antônio Bonifácio, o vovô Tõe. Era muito amoroso com eles. “Era gente fina pra caramba”, disse-me meu tio. Ainda, segundo esse tio, depois que meu bisavô Tõe ficou bem mais velho, ele ficava também com eles muitos dias e, nessas estadias, ficava o tempo todo fazendo vassouras de palha tiradas de uma espécie de coqueiro, acho que o Buriti. Segundo meu tio, meu bisavô cortava a palhas, secava, fazia as vassouras, depois vendia no Chapadão do Pau - Terra e Coromandel. Pelo visto, por esse tempo, vovô Tõe já não devia ser mais rico. Já tinha dividido tudo com os filhos e o que restou acabou em negócios mal feitos....
Tem algumas lacunas na vida de vovô Tõe que ainda é difícil compreender. Porque sua filha mais velha, a Maria, foi registrada com 14 anos em Santo Antônio do Rio Verde, Goiás e porque o casamento civil dela foi realizado lá? A fazenda que ele tinha em Pilões, Guarda-Mor, ficava há uns 60 km, porém era preciso atravessar o rio Paranaíba. Teriam ido a Santo Antônio do Rio Verde saindo de Guarda-mor e atravessado o Paranaíba? Será que seu irmão Joaquim Bonifácio Machado ainda era vivo e ainda morava naquelas paragens? Será que foi visitá-lo e aproveitou para registrar a filha e também casá-la? E falando nesse irmão do vovô Tõe, O Joaquim Bonifácio Machado, ele vivia antes era no Chapadão do Pau-terra, mas um dia, contrariado por ter sido pego transportado boiada sem guia, se mudou para Goiás definitivamente. De acordo com um tio, irmão de meu pai, ele partiu com oito carros de bois cheios de mudança. Contudo, ao partir, doou um pedaço de terreno para a Capela. E voltando a Guarda-Mor, foi nessa localidade que o nascimento de meus avós, Fortunato e Aristeu foram registrados depois de grandes. Será que vovô Tõe viveu um tempo com os filhos na Fazenda em Pilões? Possivelmente ele vivia para lá e para cá.
O que sei é que muitas brumas ainda cobrem o passado e nem mesmo o sol das tecnologias atuais é capaz de atravessá-las.
Segundo uma prima já com 92 anos e ainda lúcida, Antônio Bonifácio Machado, o vovô Tõe, e Lídia Fernandes Rocha, meus bisavós, se conheceram na casa de uma das irmãs de Lídia. Essa minha prima não soube me dizer onde era essa localidade, porém deixou claro que essa irmã da minha bisavó Lídia era casada com um moço dessas bandas de Coromandel, Minas Gerais e minha bisavó Lídia teria vindo passear na casa dela. Isso me fez levantar a possibilidade de que talvez meu bisavô Tõe e minha bisavó Lídia tenham se conhecido em Guarda-Mor, porque quando falei dos pais de Lídia, levantei a probabilidade de que seus pais Fortunato e Alexandrina talvez tivessem fazenda naquelas paragens em razão de alguns indícios. E de fato, um tio, irmão de meu pai confirmou essa versão, ao afirmar que vovô Tõe havia lhe contado que suas terras em Guarda-Mor eram heranças do sogro, o Fortunato pai de Lídia, sua esposa. Logo os pais de Lídia tinham sim, fazenda em Guarda-Mor. Provavelmente a Samambaia que ainda existe pela região, conforme alguns conhecidos que confirmaram a existência dessa bela fazenda de meus ancestrais, com mangueirais, jabuticabais e cercas de pedra, além de uma casa que existiu até pouco tempo com porão, piso de assoalho e enorme janelas, tão grandes quanto uma porta. Nos dias atuais, porém, só há lavouras. Nem mesmo resquício de passado.
Além disso, o tio de Lídia também tinha fazenda naquelas paragens, conforme inventário dos pais, e possivelmente a irmã de Lídia também morava na região. E para completar, os pais do vovô Tõe também tinham fazenda naqueles rincões, a Fazenda Pilões e a Fazenda Félix Simão, que provavelmente eram vizinhas da fazenda dos pais de Lídia ou de sua irmã. Logo basta juntar as evidências. Se assim foi, meu bisavô Tõe e minha bisavó Lídia se casaram com certeza naquelas paragens de Guarda-Mor, Minas Gerais, em alguma festa local, pois há relatos de festas em Pilões, uma famosa festa onde os devotos iam com carros de boi. Antigamente as pessoas se casavam nesses dias. Contudo, não foi possível ter acesso ao registro de tal casamento, pois, justo os livros paroquiais desse período que deviam existir em Paracatu, tomaram chá de sumiço e Cartório de Registo Civil não existia em Guarda-Mor naquele tempo, tendo sido criado a partir de 1915.
Se antes eu tinha apenas deduções, agora tenho esses argumentos. Vale frisar que um argumento dedutivo só é válido quando a conclusão segue a lógicas das premissas. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão pode ser verdadeira. Enfim...
O fato é que mal se conheceram, Antônio Bonifácio Machado, o vovô Tõe, e Lídia Fernandes Rocha se casaram, possivelmente em 1906 já que a primeira filha nasceu em 1907. Ele com, talvez, uns 21 anos e ela, talvez com 17 ou 18 anos.
Sobre o fato de vovô Tõe ter se casado logo com minha trisavó Lídia não é de se espantar, pois com ele não tinha trelelê e gostava de conchavar essas coisas de casamento. E quando queria algo lutava por ele. Digo isso porque um tio irmão de meu pai contou uma história interessante sobre ele. Quando vivia levando gado de lá para cá, passou em uma localidade onde tinha uma venda e viu uma moça morena e se encantou com ela. O fato é que depois de entregar o gado ele voltou lá para vê-la. O desfecho desse caso meu tio não soube dizer. Será que era a tal Helena de Guarda-Mor? Enfim...
Antônio Bonifácio Machado, o vovô Tõe, e Lídia Fernandes Rocha, meus trisavós tiveram nove filhos, conforme gráfico da pag. 320. Contudo, meu bisavô Tõe teve mais outros seis filhos, pois se casou mais duas ou três vezes e teve também alguns filhos naturais, ou seja, fora de casamento legítimo.
Quando vovô Tõe ficou viúvo de Lídia, minha bisavó, ficaram muitos filhos pequenos, inclusive o bebê Zezinho. Relata-se que uma irmã de Lídia, Maria Elódia da Rocha, a quem chamavam de Nega, ajudava a cuidar dos filhos dele. “Um bando de gatinhos”, disse-me a tal prima idosa. Um dia vovô Tõe sugeriu que ele e Maria Elódia se cassassem já que ela estava mesmo cuidando dos filhos dele. Há relatos de que era uma morena muito bonita e se parecia muito com uma neta sua, filha do meu tio-avô Dário. Sobre esse pedido de casamento existe uma carta, segundo um neto, mas que não me foi possível ter acesso.
Bem, então meu bisavô Tõe e Maria Elódia se casaram supostamente por volta de 1924, ou até antes, pois em outubro de 1925 nasceu o filho do casal, meu tio-avô Dário. Entretanto, essa segunda esposa do vovô Tõe, a Maria Elódia, faleceu em 5 de agosto de 1926, quando tio Dário tinha apenas 10 meses. Teria ela falecido também em razão de algum parto complicado?
Não foi possível descobrir a linearidade de todos os acontecimentos da vida de meu bisavô Tõe, mas acredito que depois de ficar viúvo a segunda vez, teve supostamente outra esposa que se chamava Maria Gama, e tiveram um filho. Porém, de acordo com sua neta, a tal prima idosa, vovô Tõe a devolveu grávida para o pai, por achá-la muito preguiçosa. Algo me diz que não eram casados legalmente senão vovô Tõe não teria simplesmente a abandonado. O filho nasceu e se chamava Raimundo e foi reconhecido pelo pai, o vovô Tõe, embora não tenha assumido a mãe.
Ainda conforme relatos, vovô Tõe teve uma amante em Guarda-Mor de nome Helena, até já a citei por aqui. Não foi possível saber se por esse tempo ele estava ainda viúvo ou já casado com Eudóxia e “pulando a cerca”. É bem provável, pois vovô Tõe era mestre nessas coisas. Bem, com essa Helena, vovô Tõe teve dois filhos que também já citei por aqui. Ela era viúva de um homem negro e tinha dois filhos com ele, além dos que teve com vovô Tõe. Relatos dizem que vovô Tõe que o assassinou. Também já falei sobre isso. Umas línguas dizem que foi para tomar Helena. O enredo da trama mesmo nunca ficou claro já que tudo que circula de boca em boca vai mudando o teor.
Bem, a última esposa de meu bisavô Tõe foi Eudóxia Frutuoso Soares, irmã da vovó Divina, que se casaria algum tempo depois com Aristeu, filho do vovô Tõe. Com Eudóxia, vovô Tõe teve mais dois filhos, o Divino Amado e a Luzia. Eudóxia Frutuoso Soares, nasceu no dia 17 de fevereiro de 1914 e faleceu no dia 09 de junho de 1985 em Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Era 29 anos mais nova que vovô Tõe. Quando se casaram é provável que ela tivesse talvez uns 18 anos e ele já com mais de 40 anos
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| Jazigo de Eudóxia Frutuoso Soares, última esposa do bisavô Tõe |
Quando vovô Tõe faleceu, já estava caduco e se comportava feito criança, catando tampinhas de refrigerante pelas ruas de Abadia dos Dourados, Minas Gerais, quando não tirava toda a roupa e se enfiava dentro do tanque dizendo que ia nadar. Essas são as histórias contadas de boca em boca, portanto, não tenho responsabilidades sobre elas, já que não há nada documentado. O único documento sobre sua existência é sua fotografia, o inventário de seus pais, a certidão de casamento e nascimento da filha mais velha e a certidão de óbito. Mesmo assim há uma divergência na idade, pois no inventário dos pais consta que nasceu em 1885 e na certidão de óbito, que nasceu em 1887.
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Filhos de Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Lídia Fernandes Rocha, sua primeira esposa e minha bisavó legítima eram 9 a saber:
1. Maria Machado Rocha, casada com seu primo Joaquim Machado de Miranda, o Joaquim da máquina de pilar arroz;
2. Fortunato Machado Rocha (pai de meu pai), casado com Valdomira Barbosa Sucupira;
3. Ladi Machado Rocha, casada com Amado Sebastião Machado;
4. Bonifácio Machado Rocha, conhecido como Sinhô, casado com Maria Luiza Rocha;
5. Aristeu Machado Rocha (pai de minha mãe), casado com Divina Frutuoso Sores;
6. Dirceu Machado Rocha, faleceu por picada de cobra;
7. Lísia Machado de Miranda (chamada de Fia), casada com Amadeu Machado de Miranda, seu primo que foi delegado e Juiz de paz em Abadia dos Dourados;
8. Sebastião Machado Rocha, morava em Paracatu;
9. José Machado Rocha (chamado de Zezinho) em cujo parto perdeu a mãe).
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Filhos de Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Maria Elódia da Rocha, sua segunda esposa e irmã da primeira esposa Lídia Fernandes Rocha:
1. Dário Machado Rocha, casado com Angélica Maria da Silva;
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Filhos de Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Maria Gama, supostamente sua terceira esposa:
1. Raimundo Machado
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Filhos de Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Helena, sua amante de Guarda-Mor:
1. Clodoveu Amado Machado, casado com Valdami Machado de Miranda, provavelmente sua prima (moravam em Palmitos, Abadia dos Dourados Minas Gerais);
2. Salvador Machado (falecido com 14 anos vítima de uma bala perdida em uma caçada).
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Filhos de Antônio Bonifácio Machado (vovô Tõe) com Eudóxia Frutuoso Soares (irmã da vovó Divina, mãe de minha mãe):
1. Divino amado, casado com Leonor Amado dos Santos;
2. Luzia Soares Ferreira, casada com Miltom Ferreira Martins;
Apesar de tudo, entendo que meu bisavô Tõe foi um homem que sofreu perdas muito jovem. Nem bem tinha quarenta anos perdeu a primeira esposa e os pais e em torno de quarenta anos a segunda esposa, ficando muitos filhos crianças e adolescentes sob seus cuidados, até mesmo os filhos naturais ele acolheu sob sua proteção e lhes deu o nome de família.
Apesar de todas as histórias contadas a respeito de meu bisavô Tõe, a lembrança que fica é de alguém ilustre, pois quem se lembra dele, sempre cita seu nome com respeito.
Fotos de 10 dos 15 filhos de Antônio Bonifácio Machado, o bisavô tõe:
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| Filha mais velha de Antônio com Lídia: Maria Machado Rocha. ao lado, seu esposo e primo Joaquim Machado. |
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| Filha de Antônio com Lídia: Ladi Machado Rocha |
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| Filha de Antônio com Eudóxia: Luzia Soares Ferreira e seu esposo Miltom |
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| Filha de Antônio com Lídia: Lísia Machado de Miranda ( conhecida como Fia), casada com Amadeu Machado de Miranda, seu primo( foto) |
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| Filho de Antônio com Helena: Clodoveu Amado Machado |
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| Filho de Antônio com Maria Elódia: Dário Machado Rocha |
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| Filho de Antônio com Lídia: Sebastião Machado Rocha |
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| Filho de Antônio com Eudóxia: Divino Amado quando mais novo |
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| Filho de Antônio com Lídia: Fortunato Machado Rocha, meu avô paterno |
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| Filho de Antônio com Lídia: Aristeu Machado Rocha, meu avô materno |
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| Eudóxia Frutuoso Soares, última esposa de Antônio, o bisavô Tõe |
Para saber sobre os lugares por onde Antônio Bonifácio Machado, o bisavô Tõe possuiu fazendas acese os links abaixo:
👉Coromandel, Minas Gerais. Vídeo Youtube
👉Coromandel, Minas Gerais. Vídeo Youtube
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| Coromandel, Minas Gerais. Nesse município, o bisavô Tõe possuiu a fazenda que hoje se chama Fazenda Córrego da Cruz na localidade de Marques |
👉Abadia dos Dourados, Minas Gerais
👉Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Vídeo Youtube
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| Abadia dos Dourados, Minas Gerais. Não foi possível saber o nome da Fazenda, mas provavelmente estava inserida na f;azenda Monte Alvão, parte da herança de seus pais. |
👉Guarda-Mor, Minas Gerais. Vídeo Youtube
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| Guarda-Mor, Minas Gerais, onde Antônio possuia fazenda na localidade de Pilões, provavelmente a fazenda Suçuarana |
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| Imagem Satélite localidade de Pilões onde o bisavô Tõe possuia Fazenda |
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| Localidade de Pilões onde o bisavô Tõe possuia Fazenda |





















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